A compreensão do poema se deu por meio da discussão, momento em que os alunos expuseram suas leituras individuais do poema, contando com a nossa mediação, que foi iniciada por meio das perguntas: o que vocês perceberam ao lerem e ouvirem o poema? O que o poema despertou em vocês? Durante o andamento das discussões outras perguntas surgiram.
As duas primeiras perguntas fomentadoras de uma possível discussão para a compreensão do poema não trouxeram respostas. O silêncio imperava no auditório. Prosseguimos: alguns de vocês lembram da sua infância? Atentamente olhávamos para eles e percebíamos o esforço de alguns, como se buscassem voltar ao tempo de criança. Crianças tentando lembrar de coisas que ficaram para trás.
Continuamos instigando: isso, vocês estão querendo lembrar de um tempo passado... vocês veem isso no poema? Finalmente, um deles disse: “Eu tenho saudade do tempo que eu era mais criança”. Por quê? Ele olhou para os lados e não respondeu.
Prosseguimos dizendo, que podemos relembrar de muitas situações, boas ou não tão boas, vividas na infância. Uma aluna perguntou o significado da palavra “cosendo”. Sugerimos que a classe respondesse. Ninguém respondeu. Perguntamos se o silêncio era por que não sabiam ou por que estavam com vergonha de responder. Um deles disse que achava que era “cozinhar”. Perguntamos se a palavra “cozinhar” estava relacionada ao sentido da palavra “cosendo” do poema. Ficamos sem resposta. Entendemos que realmente não sabiam o sentido do verbo “coser”, pois quando declaramos que significava “costurar”, notamos expressões de surpresa em muitos rostos.
Prosseguimos: olhem para o poema que está nas mãos de vocês. Que palavras ou versos chamam a atenção de vocês? Ouvimos com certa dificuldade alguém referir- se à “preta velha” porque falou tão baixo, quase imperceptível. Aproveitamos para perguntar o sentido dessa palavra no poema. Também não houve resposta. Prosseguimos: será preconceito? Será racismo? Será uma outra forma de tratamento? Para a nossa surpresa, um dos alunos disse que achava que não havia preconceito, mas um tratamento de carinho. Por que você acha que havia carinho? Novamente ficamos sem resposta. Alguns de vocês podem ajudar o colega? O silêncio e os olhares disfarçados serviam como mensagens de que dificilmente falariam. Diante disso, concordamos que ali sugeria uma questão de afeto sim, pois o poema nos revelava um fato que era comum na sociedade brasileira da época: a utilização de mulheres negras como empregadas domésticas pelas quais as crianças, filhos dos senhores de posses, nascidos nas fazendas e que cresciam, vendo-as cuidarem dos serviços da casa, desenvolviam, com elas, relações de afeto, de carinho, entre outras considerações.
Como a aula já caminhava para o seu final, perguntamos se eles conheciam a história de Robinson Crusoé e por que o eu do poema (o menino do poema) considerava que a sua história era mais bonita que a de Crusoé? O silêncio demonstrou, que não a conheciam, e, então, fizemos o relato da história. Dissemos que Robinson Crusoé (DEFOE, 2011) é um livro que narra a história de um marinheiro inglês, conhecido como Robinson Crusoé, que, ainda jovem, decidiu navegar pelos mares sem revelar sua intenção a alguém; porém, o navio de sua aventura naufraga e só ele é salvo, indo parar em uma ilha, onde fez de tudo para sobreviver, valendo-se das coisas do navio encalhado, inclusive de uma Bíblia. Durante 25 anos ficou sozinho, tempo em que seus valores morais e religiosos evoluíram. Certo dia, encontra uma pegada na areia, que o leva a uma tribo canibal. Sente-se ameaçado. Mas consegue domesticar um dos canibais, a quem deu o nome de Sexta-Feira, que depois se tornou seu amigo. Um barco
aparece na ilha, e Robinson Crusoé retorna à Inglaterra, deixando a ilha habitada por espanhóis fugitivos da Coroa. Anos mais tarde regressa à ilha e a encontra povoada, colaborando para que se tornasse um vilarejo próspero do Caribe.
Percebemos o interesse na contação resumida dessa clássica história. Procuramos saber se alguém gostaria de responder a pergunta feita antes da nossa narração. Uma aluna disse que a diferença estava na família, pois, para ela, o menino do poema tinha uma família, uma casa e alguém que fazia as coisas para ele. E, incisiva, concluiu: “É por isso que a história do menino do poema era mais bonita que a de Robinson Crusoé, que não tinha família, vivia sozinho em uma ilha e tinha que se virar para sobreviver.” Observamos nessa participação que a leitura de poemas, em sala de aula, possibilita muitas leituras e respostas surpreendentes como a dessa aluna.
Antes de encerrarmos a nossa primeira atividade, avisamos que a próximo aula de leitura seria com o poema “A casa”, de Vinicius de Moraes, sugerindo que eles fossem à biblioteca da escola, pesquisassem no livro do poeta o poema indicado, fizessem a leitura dele e as anotações das palavras desconhecidas em preparação para a próxima aula. Com essas recomendações, encerramos a aula de leitura com as duas turmas e nos dirigimos para a sala dos professores.
Quando nos preparávamos para sair da escola pela longa passarela que dá acesso à entrada e à saída do estabelecimento, notamos vários alunos, dispostos em grupos, em vários pontos da passarela. Ao passarmos por eles, recebemos cumprimentos pela aula. Mais à frente, quase à saída, paramos para dar atenção a outro grupo de discentes, que fez questão de dizer que a aula foi muito boa. Uma das alunas disse: “Professor, desculpa por não ter participado da aula” – estava rouca e falava com dificuldade –, “mas quero lhe dizer que eu conheço um pouco a história de Robinson Crusoé porque fiz um resumo do livro na 5ª série a pedido de uma professora de uma outra escola, e quando o senhor estava falando dessa história eu lembrei dos fatos. Obrigada por me fazer lembrar dessa história. Foi a primeira e a única que li até agora. E não sabia que o menino do poema também leu o livro”. Incursões pela memória, numa clara demonstração da importância do trabalho da escola em levar o aluno a experienciar o mundo pela leitura literária.
Salientamos que, antes de desenvolvermos as atividades de leitura com os poemas selecionados para o corpus das dez atividades, fizemos leituras de alguns livros que tratam da poética dos autores desses textos, com o pensamento voltado para a seleção, a produção e o desenvolvimento das atividades com os alunos das turmas do 7º
ano do ensino fundamental. O resultado das nossas incursões pela poética de Carlos Drummond de Andrade bem como da nossa leitura do poema “Infância” é o que segue: 4.1.6 Nossa leitura do poema
O poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, conforme Joaquim- Francisco Coelho (1973, p. 77) “marcará em sua obra (Drummond) o início de um desejo inesgotável: a recuperação pela memória e sobretudo pela poesia, da herança lírica da quadra infantil.” Com efeito, a memória é singular nesse poema. Percebe-se nele a recuperação de uma voz poética, que se recorda de um tempo em que era criança. Essa recordação é possível pelo modo como o poeta se expressa por meio do uso dos verbos montar, campear, coser, dormir, brincar. Situações cotidianas da vida no campo, onde ainda se pode viver situações, aparentemente banais, mas que, no poema, ganham significados.
Esse olhar para o passado é revelador de uma família tradicional, composta por pai, mãe e dois filhos, que viviam em uma fazenda, rodeados de empregados(as) que se ocupavam dos serviços braçais e domésticos. A lida do pai era com a fazenda, onde montava a cavalo e campeava pelos longínquos lugares da propriedade. Essa labuta diária talvez o tenha afastado de uma convivência mais efetiva com os demais membros da família, cujo suspiro fundo da esposa seja denunciador da ausência do esposo do lar. Quanto à figura materna, vê-se que ali estava uma mulher, que vivia distante de seus parentes, e esse fato, conjugado com a ausência do chefe da família, pode ter contribuído para que se sentisse solitária. Ademais, pela sua posição social, não realizava os afazeres domésticos. Sua ocupação estava no cuidado dos filhos e nas prendas do lar, cujos bordados, que fazia, certamente não tinham fins econômicos, uma vez que podiam servir-lhes para uso pessoal e de sua família ou para utilidades do próprio lar. Pode-se inferir que o verbo coser denota o hobby das mulheres, que moravam nas fazendas, no início do século XX. Na fazenda do poema, ainda existiam as remanescentes de escravos, que na lembrança da voz poética aparecem como responsáveis pelos serviços da casa, pelo preparo da alimentação, pela voz que chama o menino para degustar o café preto gostoso e bom feito pela preta velha.
As rememorações do poeta quando menino remetem para um passado, para um tempo bom, para um lugar de aventuras, de árvores, de rios, de manhãs tranquilas, enfim, para um menino leitor. Ele poderia aproveitar as belezas naturais do lugar para
brincar, correr, nadar ou fazer outra coisa de menino, e talvez fizesse tudo isso, mas uma de suas preferências era ficar entre mangueiras, entregue à leitura da comprida história de Robinson Crusoé, o que para a época e meio rural em que vivia, só quem tinha posses conseguia exemplares de livros como esse, dispunha de todo o tempo do mundo para ler e viajar pelo mundo mágico da literatura e, ainda, comparar que a história dele era mais bonita que a de Crusoé. E por que chegara a tal conclusão? Infere- se que o menino tinha tudo à disposição: se quisesse ler um bom livro, o pai, fazendeiro abastado, supriria sua necessidade; se quisesse uma roupa bordada, a mãe, mulher prendada, coseria; se quisesse um café preto bom e gostoso, lá estava a preta velha para fazer, diferentemente do herói inglês, que vivia em uma ilha, isolado da civilização. Se a literatura imita a vida ou a vida é uma extensão para a literatura, no texto “Infância”, a vida do poeta e a vida cotidiana se entrecruzam, misturam-se. A separação entre ficção e realidade parece não ter espaço. O campo, as mangueiras, o irmão que dormia, o café preto gostoso, a mãe que cosia, um mosquito que pousa. Quantas situações aparentemente banais, típicas da vida do homem ordinário, homem comum, que a literatura traz para a construção do poema e que no texto poético revelam algo que nós sentimos!
O poema de Carlos Drummond de Andrade, é a imagem da infância, que reflete, também, a imagem do lugar, onde o poeta viveu sua infância. Antonio Candido (1970) nos lembra de que a poesia de Drummond deve-se à eficácia do poeta pelo alargamento do gosto pelo cotidiano, daí a presença de elementos típicos da vida rural como a lembrança de algo tão presente nas casas do interior, o café preto, de aroma inconfundível e inebriante.