Shape Deformation
6.3 Deformation Model
Vimos que a escola, onde a proposta de leitura foi desenvolvida, está localizada em um bairro periférico de Belém, capital do Pará. Esse bairro, que é um dos mais populosos e violentos da cidade, conta com uma população de 61.439 habitantes e 15.464 domicílios (ANUÁRIO, 2012), evoluiu espontânea e desorganizadamente em área originariamente de várzea. Há de se considerar que o nome Terra Firme surgiu como forma de ironizá-lo, já que foi nascendo em área alagadiça, porém alguns dizem que, apesar das condições de alagamento, havia áreas sólidas e firmes. Há quem diga que as pessoas do bairro de Canudos costumavam deslocar-se para esse local em busca de caça e diversão, já que a área era um grande pântano inabitado e que, aos poucos, foi sendo ocupada por uma população de baixo poder aquisitivo, desde a década de 30, sendo tal ocupação intensificada na década de 70, época em que os conflitos pela posse da terra na cidade de Belém eram constantes e desenfreados, sendo alvos da ação dos invasores, terrenos particulares e públicos, principalmente pertencentes aos servidores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da própria universidade, que teve parte de seus domínios invadidos, no início da década de 90, ficando a posse dos terrenos, ao longo da Avenida Perimetral – desde às adjacências do prédio do Núcleo Pedagógico Integrado (NPI), escola de aplicação da UFPA, até às proximidades dos portões da referida universidade – com as famílias invasoras.
Como já nos referimos no item 3.1, os alunos da escola pesquisada são, predominantemente, moradores da periferia desse bairro, pois outros, em menor quantidade, são do bairro do Guamá e da Região das Ilhas, conhecidos como ribeirinhos por morarem em ilhas adjacentes à cidade, sendo seus principais domicílios as ilhas da
Várzea, do Murucutum e do Aurá. São alunos que, em sua maioria, não têm experiências com a leitura de textos literários, muito menos com a leitura de poemas, o que pode ser justificado pela condição social e cultural em que vivem.
Apesar da melhoria que o bairro da Terra Firme vem recebendo ao longo de sucessivas administrações municipais, ainda podemos ver moradores aterrando os locais das casas e das vielas onde moram, uma vez que o transtorno com as enchentes causadas pelo excesso de chuvas e pela alta das marés, ou pelos dois juntos, é real para muitos dos alunos da Mário Barbosa, que convivem constantemente com a situação, ficando muitas vezes impedidos de saírem de casa para irem à escola porque parte de suas casas, vielas e ruas ficam submersas pelas águas. As obras de implantação da duplicação, da infraestrutura, da pavimentação e urbanização da Avenida Perimetral, em andamento, trazem a possibilidade desses alunos chegarem ao ambiente escolar, em dias de intensas chuvas.
Nesses dias, o cenário da escola é de poucos alunos, e os que se aventuram a sair de casa, geralmente chegam molhados e com os calçados encharcados de água da chuva ou enlameados, situações que os deixam sem condições de permanência no espaço escolar. Supomos que para o significativo grupo de alunos ribeirinhos o problema não seja tão acentuado, não tanto pela familiaridade deles com a situação das águas, mas pela garantia do transporte escolar, que os transportam dos portos de suas casas e os deixam à porta da escola; embora que o contraste do ambiente em que vivem não seja tão diferente dos demais colegas, que moram no bairro em que a escola está localizada. Os ribeirinhos habitam em casas construídas às margens dos rios; muitos do bairro habitam em casas construídas às margens de canais e igarapés. Os ribeirinhos caminham sobre pontes construídas em madeira ou improvisadas com troncos de miritizeiros; muitos do bairro caminham sobre pontes de madeira. Os ribeirinhos convivem com as altas e baixas das marés e alguns deles veem as águas passarem por debaixo do assoalho de suas casas; muitos do bairro convivem com a mesma situação. Os ribeirinhos usam embarcações que fazem dos rios “ruas” para terem acesso à escola, estando à disposição deles um micro- ônibus que os levam do porto de (des)embarque à escola e desta para o referido porto, estando a embarcação que os trouxe à espera para levá-los às suas casas no final do expediente escolar; poucos do bairro fazem uso do transporte coletivo, tendo os demais que caminhar, com tempo bom ou ruim para chegarem à escola, razão porque, em dias de chuvas e de ruas alagadas, não vão à escola.
Pensar nesses alunos e na condição deles de não leitores de textos literários tornou-se um desafio para nós, uma vez que, como professor de Língua Portuguesa da escola na qual estudam, não costumávamos trabalhar a leitura desses textos com as turmas do ensino fundamental. Do desafio para a prática, o passo precisava ser dado. E ele veio com o desenvolvimento desta proposta de dissertação de mestrado – Leitura de poemas: uma proposta para o ensino fundamental, que nos possibilitou intervir nas dificuldades de leitura que eles apresentavam. Encontramos no poema um instrumento ideal para a formação do leitor literário que, consequentemente, formaria, também, um indivíduo humanizado. Em outras palavras, um cidadão consciente de seu papel na sociedade, pois, para nós, não bastava somente um leitor competente, que compreendesse um texto poético, mas que sua formação pudesse mudá-lo de figurante para um ser ativo na sociedade. Ademais, esses alunos estão inseridos em um ambiente de risco, sendo muitos deles vizinhos do traficante, do assaltante, do integrante da milícia, do aliciador de menores e, por isso, vivem na iminência de sofrerem diversos tipos de violência, entre muitos outros problemas que enfrentam, problemas esses que fazem com que eles percam muito mais rápido a sensibilidade, o encantamento pela vida, a fantasia, a criatividade. Portanto, a possibilidade desse resgate por meio da literatura passou a ser o nosso compromisso.
Sabemos o quanto é complexo e difícil criar o hábito da leitura na criança e no jovem, dentro do nosso contexto socioeconômico e cultural, mas isso não dá ao educador o direito de aceitação passiva e de omissão. Cabe-nos mobilizar todas as armas de que dispomos, usando todos os recursos que estiverem ao nosso alcance, não, evidentemente, para solucionar o problema, mas para salvar o que for possível. (CARVALHO, 1985, p. 200)
Sabemos que a nossa ação interventiva de leitura de poemas não tem a pretensão de resolver todos os problemas enfrentados, mas pretendemos salvar esse “possível”. Conforme Drummond (1974), Carvalho (1985), Lajolo (2001), Cunha (2003) e Sorrenti (2009), quanto mais cedo o indivíduo tiver contato com a literatura, melhor será para sua formação. Embora reconhecendo o valor dessa recomendação, fugimos um pouco dela devido à idade de nossos alunos, porém o que nos importava era começarmos.
Assim que a proposta de dissertação de mestrado – Leitura de poemas: uma proposta para o ensino fundamental foi qualificada, a apresentamos à diretora da escola, que, com interesse e receptividade, nos disponibilizou, além dos recursos tecnológicos, todas as turmas do 7º ano dos turnos da manhã e da tarde, mas por não dispormos de tempo
para trabalharmos com um número maior de turmas, escolhemos duas do matutino, a F7MR01 (701) e a F7MR02 (702), esta composta por 25 e aquela por 28 alunos, somando o total de 53 alunos, com idade que variava de 12 a 15 anos, faixa etária que acreditamos possuir “capacidade do raciocínio lógico, da dedução, finalmente da análise e da crítica, ampliando-se, assim, o seu âmbito de leitura.” (CARVALHO, 1985, p. 200). Os encontros para a ampliação do âmbito de leitura dos discentes das turmas escolhidas foram estabelecidos para acontecer uma vez por semana, na terça-feira, com o tempo mínimo de duas horas/aulas em cada turma.
Podemos dizer – com o reforço dos comentários de alguns colegas professores da escola, ao saberem que estaríamos com essas classes – que os alunos escolhidos seriam os esperados porque eram vistos como os que não tinham o hábito da leitura e muito menos o da leitura de poemas; não demonstravam interesse por esse tipo de leitura; não conseguiam se concentrar nas atividades de leitura; não recebiam incentivos em casa por não terem pais leitores; poucos participavam das aulas e eram bagunceiros. Esse foi o quadro que nos pintaram quando ainda estávamos na sala dos professores, à espera do sinal, para irmos ao encontro deles, no auditório da escola. Como a vida é feita de desafios, pensamos: “Eles podem não ter interesse pelos estudos, mas eles têm algo muito importante a considerar: a história de vida de cada um”. Com determinação, concluímos o nosso pensamento: “Nós, professores, temos o fator surpresa e o desafio da conquista. Surpreendê-los e conquistá-los no nosso primeiro contato com eles em sala de aula é o que precisamos”.
Embora este não seja o espaço adequado para a abordagem das aulas e das considerações sobre elas – objetos do próximo capítulo – entendemos ser oportuno anteciparmos como foi nosso primeiro encontro com esses alunos por nos mostrar um pouco do perfil deles, antecipado por alguns colegas professores com uma quantidade de “não”: não gostam disso; não gostam daquilo, e, talvez, por nos dar uma pequena noção da rotina deles em sala de aula.
Como a escola estava em período de provas e por sabermos que não haveria atividades avaliativas para os discentes da 701 e da 702 no dia 23/09/2014, data que nos foi possível iniciar as aulas de leitura de poemas com eles bem como por estarem sem professor da disciplina Língua Portuguesa, e que, devido a isso, ficariam ociosos por toda a manhã, chegamos cedo à escola com o intuito de preparamos o auditório e evitarmos algum atropelo de última hora e, assim, no momento adequado, às 07h45, nos dirigimos para esse ambiente, e a partir desse horário tudo ficaria por nossa conta. Apesar do tempo
mínimo de duas horas/aulas, teríamos três horas disponíveis para mostrarmos uma proposta de ensino diferente.
Outro detalhe a considerar é que funcionários que auxiliam a direção da escola no gerenciamento dos espaços pedagógicos e na manutenção da ordem/disciplina dos alunos corroboraram com o que os professores já nos tinham dito momentos antes, dando-nos a informação de que as referidas turmas tinham características bastante peculiares: uma (a 702), segundo eles, um pouco mais fácil de trabalhar pelo bom comportamento e interesse pelos estudos; enquanto que na outra (a 701) o trabalho seria mais difícil pelo comportamento “inadequado” de alguns e o desinteresse de outros pelas práticas escolares.
Fomos para o local da aula municiados pelas informações preliminares sobre o perfil dos alunos. A chegada de uma boa parte deles no auditório da escola, falando alto, assobiando, aos empurrões, usando o caderno como “arma” para baterem um no outro, arrastando e subindo nas carteiras de uma fila para passarem para as da outra fila, alguns soltando até palavrões, foi o cartão de visita de muitos deles, principalmente dos meninos, para nós, que, mesmo avisados, não contávamos com a entrada agitada e incomum no ambiente – entraram quase todos de uma só vez pela porta do auditório sem que nos fosse dada mínima atenção.
Que desafio! Para qualquer professor que se propõe a trabalhar com turmas de crianças e adolescentes, com características comportamentais semelhantes às apresentadas por essas duas turmas, o sucesso do trabalho depende de um conjunto de fatores; mas por acreditarmos na força humanizadora da literatura, força essa capaz de desenvolver “o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor” (CANDIDO, 1995, p. 180) bem como na transformação de quem dela faz uso é o que nos fez aceitar o desafio.
Como não tivemos oportunidade de nos apresentar em consequência da algazarra que os 50 alunos faziam no recinto, buscamos, primeiramente, conquistar a atenção deles. Com voz firme e audível, anunciamos que estávamos ali: “Bom dia, alunos atenciosos das turmas 701 e 702! Podemos nos apresentar?” (Entreolharam-se e lentamente o barulho que faziam foi cessando, talvez mais pelo impacto de perceberem que havia mais alguém ali do que pela vontade de pararem as “brincadeiras” que faziam um com o outro). “Bom, já que vocês estão nos dando a oportunidade de dizermos quem somos, afirmamos que
seremos um nada e ao mesmo tempo um tudo para vocês” – a expressão de alguns rostos demonstraram surpresa diante da nossa inusitada declaração. Prosseguimos. “Seremos um nada, o que seria lamentável em se tratando de uma sala de aula, se vocês continuarem com a algazarra, ignorando a nossa presença neste ambiente tão aconchegante e propício para o estabelecimento de amizades, de respeito, de trocas de experiências, de construção de conhecimentos e tantas outras coisas boas. Se nos permitirem fazermos nossa apresentação e derem ouvidos à nossa proposta de trabalho, seremos um tudo: professor, amigo, mediador, facilitador do ensino e da aprendizagem, aquele que também ensina e aprende em um ambiente de escuta.” Essa foi a maneira que encontramos para ganharmos a atenção, o silêncio e os ouvidos de cada uma daquelas crianças e adolescentes, que entraram naquele auditório.
Feito isso, passamos a apresentação da nossa proposta de trabalho. Quando falamos que o nosso objetivo era o desenvolvimento de atividades de leitura por meio de textos poéticos, observamos um ar de surpresa em alguns rostos, mas não percebemos nenhuma aversão à proposta. Pelo contrário, vimos que o ambiente de tensão foi serenando, com cada um deles tomando o assento de suas carteiras e esperando pelo início da atividade de leitura. Surpresa e conquista fazem toda a diferença (ver imagens 1 e 2, p. 195).
Convém discorrermos, a seguir, acerca da metodologia utilizada.