Uma língua varia de várias formas, quer no tempo, quer no espaço, quer no contexto social. As diversas formas como é usada revelam “a existência de variação nos diversos módulos da gramática da língua, permitindo”, entre outros, “a caracterização de sociolectos […] e registos individuais”. Esta caracterização deve-se a factores tanto internos como externos à língua.126
Para avaliar a riqueza de uma tradução, é preciso examiná-la em todas as suas camadas. É importante, sem dúvida, ser fiel ao texto, o que, só por si, é uma questão bastante complexa – o que é ser fiel ao texto, traduzir exactamente o que este diz, ou passar a mensagem que ele quer passar? Para além disso, é necessário um conhecimento profundo da língua de chegada. Mas a riqueza de uma língua e, consequentemente, de uma tradução, vai muito para além de conhecimentos de ortografia e gramática. O que enriquece uma língua e que a torna particular são as expressões que lhe são características, singulares, até cómicas, a sua gíria e os seus insultos. A obra de Tamora Pierce encontra-se repleta de expressões de gíria e dos mais criativos insultos e traduzi-los foi um desafio e um prazer, assim como um teste à minha criatividade. Trata-se de uma área tão vasta que é difícil categorizá-la: existem os insultos, as expressões populares/coloquiais para se referir algo específico, as agramaticalidades que, de tanto se usarem, acabam por se normalizar num contexto coloquial, entre tantas outras vertentes. Ao longo da tradução, as situações que se me depararam foram bastante diversificadas e, visto que, muitas vezes, os desvios linguísticos ou o uso de expressões de calão ou gíria funcionam como mais uma forma de caracterização de personagens, esta foi uma área à qual dediquei especial atenção.
Apresento, em seguida, alguns exemplos de desafios com as respectivas traduções.
4) ““Here’s my room,” Briar announced flatly, going to an open door on Sandry’s right. “I came here first, and I’m keeping it. You kids stay out!” He disappeared inside.
“‘Kids’?” Sandry asked, puzzled. “Why is he talking about goats?”” (PP. 57-58).
5) ““Don’t be greedy,” said Briar, getting to his feet. He passed the dog to Sandry. “Some of these poor sniffers’ ouches are mine, your worship, sir.”” (P. 182). 6) ““Donkey dung!” Sandry blushed. “I’m sorry; I didn’t mean to—”” (P. 96).
7) ““Cat dirt, cat dirt, cat dirt,” she muttered, smacking her forehead” (P. 97).
8) ““What’s them vines with needles on them? Big, sharp ones, that rip chunks out when you grab ’em?”” (P. 14).
O exemplo em 4) foi, sem dúvida, o exemplo de tradução mais exigente. Embora a palavra “kid” tenha um equivalente em português, “miúdo”, e o uso de ambas seja idêntico, o duplo significado já é diferente. Em inglês, “kid” pode também significar “cabrito”, e é este, aliás, o sentido da palavra que causa confusão a Sandry. Para traduzir esta expressão, precisei de encontrar um duplo sentido semelhante em português. A palavra “miúdos” é utilizada, também, para referir órgãos de animais (“miúdos de frango”). Assim, optei por uma estratégia de adaptação, traduzindo este excerto da seguinte forma:
(Tradução) – Este é o meu quarto – anunciou Briar, categoricamente, dirigindo-se a uma porta aberta à direita de Sandry. – Cheguei primeiro, por isso vou ficar com ele. Vocês, miúdas, fiquem longe.
E desapareceu no interior.
– «Miúdas»? – repetiu Sandry, confusa. – Porque está ele a falar de órgãos de frango no feminino?”
Creio, deste modo, ter conseguido manter o trocadilho que a autora faz com a expressão de uma forma inteligível para o leitor português.
Em 5), para “greedy” optei pelo adjectivo “garganeira” que, segundo o Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa,127 no sentido figurado, é alguém ganancioso, com ambição de ganhar. Tendo em conta que é Briar quem o diz, pareceu-me um adjectivo perfeitamente
adequado aos seus modos relaxados, para além de ser um adjectivo equivalente. A estratégia foi, portanto, a utilização de uma equivalência.
Em 6) e 7), deparamo-nos com duas expressões ou interjeições que poderiam ser equivalentes a expressões portuguesas como “caramba” ou “bolas”. Porém, dada a sua originalidade, optei por uma tradução literal. No caso de c), “donkey dung”, “bosta de burro”, para além de ser literal, mantém a aliteração do texto de partida. A tradução para “cat dirt” (d)) foi “cocó de gato”.
Em 8) encontramos um uso agramatical da linguagem (“What’s them vines”). Para manter esta característica, associada ao facto de Briar não ter escolaridade e ao seu passado de vida nas ruas, embora as agramaticalidades sejam outras, a minha opção foi:
– Como é que chamam-se aquelas trepadeiras com picos? Picos grandes e afiados, que arrancam bocados à gente, quando a gente as agarramos?
Assim, a falta de escolaridade transparece na colocação errada do clítico em “como é que chamam-se” (correcto: “como é que se chamam”). O uso da expressão “a gente” funciona como compensação para a perda da característica informal da linguagem que, no texto de partida, transparece na abreviação de “them” para “’em” e remete para um sociolecto onde predominam os coloquialismos. Creio que, deste modo, evitei o apagamento da sobreposição de línguas, uma das doze tendências deformantes descritas por Antoine Berman em “Translation and the Trials of the Foreign”.128