Entramos agora numa categoria por cuja tradução tive especial respeito. Trata-se do mundo construído pela autora, com as suas palavras específicas que, embora possam surgir como fazendo parte de campos lexicais do mundo real, tem significados particulares ao universo criado por Tamora Pierce.
Dividi esta categoria em quatro subcategorias, de acordo com o campo lexical.
a) Toponímia
Existem dois tipos de topónimos em Circle of Magic, uns em inglês, como “Summersea” ou “The Endless Ocean”, e os outros, inventados pela autora, como “Hatar” ou “Namorn”.
Antes de me debruçar sobre a minha abordagem a esta questão, gostaria de salientar algo que acontece com estes topónimos quando surgem durante a leitura. Os topónimos em língua inglesa transmitem significado, existente no repertório de conhecimentos do leitor. O mesmo não acontece com os topónimos inventados por Pierce. Estes causam estranheza, uma sensação de desconhecimento, porventura de curiosidade semelhante àquela que temos por culturas distantes e desconhecidas. Portanto, existem topónimos que evocam imagens na mente do
leitor, como, por exemplo, “Summersea”, pois são palavras que ele reconhece (“Summer”, “Verão”, e “sea”, “mar”). Existem, ao mesmo tempo, topónimos que causam estranheza, pois o leitor não reconhece aquelas palavras como parte do seu vocabulário.
Gostaria, ainda, de ressaltar outro factor curioso. Os lugares cujos nomes são reconhecíveis na língua inglesa são aqueles onde as personagens vão passar a viver, onde, finalmente, depois de todas as provações por que passaram, são aceites. Os outros nomes, por seu turno, aludem a lugares que, ou são muito distantes, ou estão associados a momentos difíceis por que alguma das personagens passou. A intenção da autora parece, então, clara: os nomes em inglês estão associados a segurança, esperança, conforto, proximidade, familiaridade e sentimento de pertença, ao passo que os outros estão associados ao desconhecido ou à dor, à tristeza, à distância e à solidão.
Visto isto, a solução pareceu-me relativamente simples. Se não traduzisse os topónimos traduzíveis, isto é, aqueles que, ainda que em inglês, poderiam ter traduções com significado semelhante, causaria ao leitor dois níveis de estranheza: um provocado pelas palavras que não reconheceria, nem mesmo na língua inglesa, e outro causado pelo aparecimento de palavras noutra língua, ainda que o leitor a reconhecesse. Assim, traduzir os topónimos em inglês pareceu-me a opção mais adequada. Vejamos alguns exemplos:
Texto de Partida Texto de Chegada
“Summersea” “Mar-de-Verão”
“Endless Ocean” “Oceano Infinito”
“Winding Circle” “Círculo Sinuoso”
“Lightsbridge” “Ponte das Luzes”
“Pebbled Sea” “Mar dos Seixos”
Tabela 1 – Exemplos de traduções de topónimos
Para além dos motivos já apresentados como justificação das minhas opções neste aspecto, ressalto que, em obras como a saga Harry Potter (J.K. Rowling), O Hobbit (J.R.R. Tolkien), ou, ainda, As Crónicas de Nárnia (C. S. Lewis), podemos encontrar exemplos de traduções nas quais foi utilizada uma estratégia semelhante. Em Harry Potter, a Escola de Magia e Feitiçaria manteve-se com o nome “Hogwarts”, ao passo que, no que toca ao pub através do qual se faz o acesso à Diagonal, o nome foi traduzido de “Leaky Cauldron” para “Caldeirão Escoante”. Em O Hobbit, “Middle Earth” é “Terra Média”, mas “Gondor” e
“Rohan” continuam com os nomes originais. Em As Crónicas de Nárnia, “Nárnia” manteve- se, apenas com uma pequena adaptação ortográfica, assim como Beruna, ao passo que “The Great River” foi traduzido para “Grande Rio”. Estes são apenas alguns dos inúmeros exemplos existentes, que apresento como mais uma forma de justificar a estratégia que utilizei, nomeadamente traduzir os nomes com tradução possível, em vez de os deixar na língua original.
b) Antropónimos
Existem, ao longo da obra, vários nomes próprios passíveis de serem traduzidos, como “Lark” (“cotovia”), “Rosethorn” (Espinho-de-Rosa”), “Crane” (“Grou”) ou “Moonstream” (“Riacho-de-Lua”). Apesar de existir a possibilidade de tradução destes nomes, que estão associados a um significado específico, não os traduzi. Uma vez que se trata de nomes próprios, associados a personagens específicas, não me pareceu correcto nem adequado, por vários motivos, que passo a explicar.
Em primeiro lugar, não é prática comum traduzirem-se os nomes próprios quando existem equivalentes na língua de chegada (Caroline seria Carolina, Dawn seria Aurora, Charles seria Carlos, entre outros). Num mundo globalizado, o leitor, ainda que jovem, é perfeitamente capaz de assimilar marcas culturais estrangeiras. Isto difere do que acontece com os topónimos, numa obra de literatura fantástica, pois a tradução destes causa mais familiaridade, como se o leitor pudesse viajar até às terras sobre as quais lê. No caso de antropónimos, estes estão associados a uma pessoa única, ainda que no nome possam existir pistas sobre ela.
Em segundo lugar, se traduzisse os nomes, teria de os traduzir a todos, incluindo o de uma das personagens principais, Briar Moss (“Silva Musgo”), o que me pareceu soar bastante estranho e dissonante com todos os outros nomes dos restantes livros que compõem a saga: Livro de Sandry, Livro de Tris, Livro de Daja. Livro de Silva destoaria dos restantes.
Em terceiro lugar, existem casos, nas traduções para português europeu de obras de literatura fantástica nas quais me baseei para realizar este relatório, em que, embora o nome da personagem tenha um significado traduzível, isto é, possa ser composto em português de forma a dar a mesma ideia que em inglês, isso não foi feito. Tomemos, como exemplo, o autor do Manual de Defesa Contra as Artes Negras, em Harry Potter e a Ordem da Fénix, Mr. Slinkhard. Trata-se de um manual em que o autor faz uma abordagem meramente diplomática,
desaconselhando o uso de magia defensiva. Slinkhard é uma palavra composta por aglutinação – “slink”, do inglês, rastejar sorrateiramente para longe de algo, afastar-se sem dar nas vistas, e “hard”, do inglês, e neste caso, com perseverança, com força. Trata-se, portanto, e claramente, de alguém que quer fugir ao confronto a todo o custo, um cobarde, por assim dizer. O nome da professora da disciplina de Herbologia, Professora Sprout (“sprout” significa “rebento”), também se manteve. Assim, pelos motivos acima referidos, e também por uma questão de coerência, optei por deixar os nomes na língua original, apresentando, em notas de rodapé, uma possível tradução de cada nome na primeira ocorrência deste.
Houve, contudo, uma excepção, os nomes dos animais. Embora possa argumentar-se que, se não traduzi os nomes dos dedicados por uma questão de coerência, devia ter usado a mesma estratégia com os nomes dos animais, importa fazer notar que uma das linhas orientadoras de toda a obra de Tamora Pierce assenta no respeito e na compaixão pelos animais. Assim, considerei que a tradução de Little Bear, o nome do cão resgatado pelas crianças, seria importante, pois funciona como uma forma de criar empatia no leitor. Além disso, a certa altura, Lark diz:
10) “Go play—and take the Bear with you. He’s annoying me.”” (P. 224).
Esta colocação do artigo definido antes do nome próprio, algo pouco comum em inglês, foi também uma razão para a tradução de Little Bear para Ursinho – ou, neste caso em particular, desta citação, Urso. Trata-se de um nome que não só sofre variações ao longo do texto (Little Bear ou Bear), como, também, de um nome que funciona quase como uma segunda identidade, pois foi a postura das patas traseiras do cão que levou Sandry a baptizá-lo assim. Em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, verificamos que o mesmo acontece com algumas personagens, por exemplo, “Sr. Castor” ou “Raposo”. Apesar de existirem equivalências em português para os nomes Peter, Edmund, Susan e Lucy, estes não foram traduzidos.
Para manter a coerência com esta estratégia, optei por traduzir outro nome, para além do nome do cão: Ladylove, o nome da égua do duque de Emelan. Para a tradução, recorri à formação da palavra por aglutinação, obtendo, assim, Donamor.
c) Títulos e Epítetos
Entenda-se por título qualquer palavra que categorize uma personagem. Tanto pode ser um título nobiliárquico, como é o caso de “duque Vedris”, ou um título referente a uma tribo, classe social ou grupo étnico.
O caso particular que suscitou um pequeno obstáculo foi a distinção entre “Merchants” e “Traders”, e a rivalidade que lhes é inerente. No caso de “Merchants”, a tradução pela qual optei foi “Mercadores”. Já no caso de “Traders” (“trader” é alguém que pratica comércio, ou seja, “comerciante”), não traduzi de forma tão literal. Em primeiro lugar, “comerciante” é uma palavra muito longa, ao contrário de “trader”. Em segundo lugar, a certa altura, na obra, surge a seguinte expressão: “Traders trade”. Traduzir para “Os comerciantes comerciam” soaria estranho e perturbaria a fluidez da leitura. Assim, a tradução pela qual optei foi “Vendedores”. Tal como “merchants”, “Traders” é uma palavra com duas sílabas. Ora, usando “Mercadores” e “Vendedores”, consegui que também ambas as palavras tivessem o mesmo número de sílabas, de modo a soarem bastante semelhantes, até pela forma como terminam. Ao mesmo tempo, esta tradução resolveu o problema da expressão “Traders trade”, que ficou traduzida como “Os Vendedores vendem”.
No que diz respeito aos epítetos, estes foram traduzidos, a par do que acontece noutras obras de literatura fantástica, como é o caso de “Mad-Eye Moody”, em Harry Potter, que foi traduzido como “Moody Olho-Louco”, ou “Peter Wolfsbane”, em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, que foi traduzido como “Peter Terror dos Lobos”. Assim, “Niklaren Goldeye” foi traduzido como “Niklaren Olho d’Ouro”. Utilizei a abreviação de “de”, com apóstrofe, não só por, no original, “”goldeye” ser apenas uma palavra, mas também por acreditar que daria ao epíteto um aspecto mais arcaico.
d) Outros
Nesta secção apresentarei mais alguns conceitos do universo do Círculo Mágico que não se integravam em nenhuma das categorias anteriores, assim como respectivas traduções.
Texto de Partida Texto de Chegada
“Mage” “Mago(a)”
“Dedicate” “Dedicado(a)”
“Dedicate Iniciate” “Dedicado(a) Iniciado(a)”
“Money bag” “Sacola-de-dinheiro”
Tabela 2 – Exemplos de traduções de nomes diversos
(*) Um termo que suscitou dificuldade foi “provost”. Trata-se de um cargo que implica a chefia da guarda da cidade. Embora a palavra exista em português, o cargo é mais conhecido em França, onde existe desde a Idade Média, a par do que acontece, por exemplo, com o cargo de xerife nos países anglófonos.
Houve três instâncias em que esta palavra surgiu e em todas utilizei estratégias diferentes. A primeira instância surge quando Sandry, durante a visita à feira da cidade, se põe a observar os edifícios em redor. Vejamos o trecho:
11) “Finding a spot where people wouldn’t bump her, Sandry eyed the buildings around the square nearby: Summersea Guildhall, Provost’s Hall, Traders’ Hall. The Guildhall in particular was very fine, with statues of craftsmen tucked in niches around the first story” (P. 171).
A segunda ocorrência de “provost” surge quando o duque aparece na praça do mercado, acompanhado de Niko:
12) “Two men rode out of a lane between stalls, followed by soldiers in the brown leather jerkins, blue shirts, and breeches of the Provost’s Guard” (P. 180). Por fim, a última ocorrência surge no momento em que, depois do dia agitado na cidade, todos regressam a casa:
13) “The squad of soldiers from the Provost Guard, whose authority ended at the city wall, was replaced by a squad of the Duke’s Guard.”
Na primeira instância, traduzi “Provost’s Hall” como “Casa da Guarda”. Na segunda instância, “Provost’s guard” foi traduzido como “Guarda da cidade”. Na terceira, a tradução foi acompanhada de uma explicitação:
“Os soldados do Preboste, que comandava a Guarda da Cidade e cuja autoridade acabava nas muralhas desta, foram substituídos por um esquadrão de soldados da guarda pessoal do duque.”
Tomei esta decisão devido ao facto supra-referido de o cargo de “preboste” não ser muito conhecido nem usado na cultura portuguesa. Quando surgiu uma explicação sobre o Preboste, aproveitei a oportunidade para acrescentar uma breve explicitação sobre a sua função:
comandar a guarda da cidade. Assim, creio que consegui evitar causar estranheza ao leitor com uma palavra pouco comum – embora, naturalmente, a leitura de um livro seja uma excelente oportunidade para conhecer novos conceitos – e introduzi-a quando podia explicar de que se tratava sem perturbar a leitura.