Foram incluídas no estudo todas as crianças recém-nascidas participantes do Programa Estadual de Triagem Neonatal em Minas Gerais (PETN-MG), nascidas em Belo Horizonte no período de setembro de 2003 a outubro de 2004. No momento da realização desse estudo, esse programa abrangia cerca de 95% das crianças nascidas vivas em todo o estado, incluindo o município de Belo Horizonte. Essas crianças colhem, rotineiramente, sangue em papel filtro para exame idealmente no quinto dia de vida.
Nascem cerca de 2.900 crianças mensalmente na região estudada. Pesquisou-se a IgM anti- Toxoplasma gondii em sangue seco (papel filtro), coletado para a triagem das outras doenças, em 31.808 crianças ao longo de um ano. As crianças com IgM anti-T. gondii positiva/duvidosa, em sangue seco, foram submetidas a outros exames para confirmar o diagnóstico e avaliar a extensão do acometimento da infecção congênita. O estudo foi planejado com base em resultados de estudos nacionais, utilizando a mesma metodologia, que obtiveram proporções de infectados por nascidos vivos variando de 1/50012 a 1/3.00013. Considerou-se a perspectiva de encontrar 30 crianças infectadas (1/1.000 nascidos vivos) no período de um ano.
Durante o seguimento médico das crianças suspeitas, foram obtidas informações sobre resultados de exames, clínicos e complementares, realizados para confirmar a toxoplasmose e avaliar seu impacto na criança, além da mensuração de variáveis antropométricas (realizadas
pela pesquisadora). A variável resposta utilizada foi o diagnóstico definitivo da criança, definido após exames sorológicos e clínicos. As variáveis independentes relacionadas à criança foram peso; estatura; perímetro cefálico; idade gestacional ao nascimento; condições de nascimento (nota de Apgar no 5º minuto); sinais e sintomas apresentados pela criança ao nascimento e semestralmente até o terceiro ano de vida; resultados de exames complementares realizados (radiografia de crânio, tomografia computadorizada do crânio, líquor), resultados de avaliações clínicas especializadas (fundoscopia e avaliações auditivas).
Para o estudo dos hábitos de vida relatados pelas mães durante a gestação e possivelmente associados ao risco para infecção pelo T. gondii, foram entrevistadas, no período do estudo, as mães de todas as crianças suspeitas de toxoplasmose congênita (positivas/duvidosas no resultado do teste de IgM anti-T.gondii) e uma amostra de puérperas selecionadas entre as crianças com resultado negativo (IgM anti-T.gondii negativo) no teste de triagem neonatal. Para o cálculo dessa amostra, utilizou-se o pacote estatístico EpiInfo 6.04 e obteve-se o resultado de 1.000 mulheres a serem entrevistadas. Para esse cálculo, considerou-se que 30.000 seria o universo das crianças participantes do estudo e que a freqüência esperada do evento em estudo era desconhecida (50%), o nível de confiança desejado era 95% e a margem de erro aceitável para a estimativa (“precisão”) era de 5%. As mães das crianças suspeitas da infecção que tiveram o diagnóstico excluído, foram incluídas no grupo das puérperas com crianças negativas. Foi feito o registro dos hábitos de vida e das informações sobre a abordagem oferecida no pré-natal, às mães das crianças, quanto ao diagnóstico e orientações profiláticas para toxoplasmose.
Para as entrevistas foi utilizado um questionário estruturado (Anexo 1) contendo 37 questões simples, sendo o tempo necessário para seu preenchimento avaliado, em estudo piloto
conduzido pelo pesquisador, em dez minutos. As variáveis pesquisadas foram características demográficas e sociais (idade, ocupação, paridade, escolaridade em anos de estudo, área de residência), cuidados do pré-natal (número de consultas no pré-natal, idade gestacional de início do pré-natal, número de exames realizados para toxoplasmose, receber informações verbais e/ou escritas sobre forma de aquisição da infecção durante a gestação, tipo de parto) e exposição a alguns fatores considerados de risco para aquisição da toxoplasmose durante a gestação da criança em estudo, como carne (freqüência e tipo de carne consumida; intensidade do cozimento da carne – mal-cozida na presença de carne vermelha com sangue, média se o centro da carne permanece rosa, bem-cozido se a carne está homogeneamente marrom); consumo de vegetais crus em casa e fora de casa; manipulação de terra sem luvas; ingestão de leite não pasteurizado; ingestão de ovos crus ou mal cozidos; lavar as mãos antes e após manipulação de alimentos; possuir gatos e cachorros; observar a presença de gatos na vizinhança do domicílio; limpar dejetos dos gatos. Para essa análise, a definição de casos e controles foi feita como descrito abaixo:
Casos – mães das crianças nascidas em Belo Horizonte no período de 2003-2004 e portadoras de toxoplasmose congênita, definida de acordo com critérios internacionalmente aceitos102: presença de anticorpos específicos no soro, IgM e/ou IgA nos primeiros seis meses de vida da criança e/ou IgG persistentemente positiva aos 12 meses. As mães foram entrevistadas, pela pesquisadora responsável, durante o atendimento habitual da criança para controle e tratamento no Hospital das Clínicas.
Controles – mães de crianças nascidas em Belo Horizonte no período do estudo, cujos filhos foram negativos para IgM anti-T.gondii em sangue seco ou nos exames confirmatórios. Para a escolha dessas mães foi utilizada a distribuição dos Distritos Sanitários, considerados pelo
NUPAD como em número de dez, pois os hospitais são considerados como um Distrito Sanitário. Arbitrariamente foi decidido utilizar a proporção de 16% dos Centros de Saúde de cada Distrito Sanitário, o que resultou em 22 Centros de Saúde, que foi considerado um número possível de unidades a serem visitadas para entrevistar as mães. Para sorteio das crianças/mães, manteve-se a proporção do número de crianças submetidas ao teste do pezinho mensalmente nos Centros de Saúde sorteados. As mães sorteadas foram entrevistadas em suas casas, pelo agente comunitário de saúde, após reunião para discussão do instrumento da pesquisa entre o pesquisador responsável e todos os agentes comunitários de saúde dos centros de saúde sorteados. Se a mãe não era encontrada, a mãe seguinte na lista sorteada para aquele Centro de Saúde era entrevistada. Foram distribuídos 1.000 questionários nos postos de saúde sorteados.
Foram consultadas algumas variáveis (da mãe: idade, escolaridade, paridade, duração da gestação, número de consultas no pré-natal, e da criança: índice de Apgar e peso de nascimento) que constavam do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos, SINASC- Belo Horizonte.