Reduzir os riscos de exposição ao T. gondii é a medida mais efetiva para evitar a aquisição da toxoplasmose pelas gestantes suscetíveis (soronegativas) durante a gestação23. Sugere-se que a exposição ao parasita pode ser reduzida com melhoria da higiene pessoal, do processamento da carne, com medidas de proteção ambiental e educação para a saúde225. Essa última é uma medida simples, mas nem sempre executada, por desconhecimento desses fatores de risco por parte das gestantes e, com freqüência, pela equipe de saúde responsável pelo acompanhamento pré-natal95, 96. Para serem eficazes, essas medidas devem estar adaptadas à região, de acordo com a prevalência da infecção entre as mulheres em idade reprodutiva, seus hábitos de vida, as condições epidemiológicas existentes na região e os recursos disponibilizados para a ação. As principais orientações podem ser vistas na Figura 2.
FIGURA 2 – Orientações profiláticas que devem ser recomendadas às gestantes em risco de adquirir toxoplasmose
As medidas educativas podem ser utilizadas como única estratégia de profilaxia, mas a associação com a triagem sorológica pré-natal permite identificar as gestantes suscetíveis e a aplicação de um programa mais intenso em um momento em que a mulher tende a estar mais motivada226. O ideal seria que essa orientação fosse feita antes da concepção, principalmente em regiões endêmicas227. Nessas regiões, as medidas deveriam ser endereçadas especialmente às gestantes jovens, com idade até 20 anos, devido a elevada prevalência nessa faixa etária e menor nível de escolaridade225.
A adoção de medidas simples de higiene pode reduzir em 60% a incidência da infecção na gestação226, e esse tem sido um ganho do programa de triagem pré-natal francês que, ao lado da sorologia, informa todas as suscetíveis sobre cuidados para evitar a infecção. Foi observado também na França, que o risco de soroconversão na gestação foi nove vezes menor nas mulheres que receberam orientação adequada78. Pesquisadores no Canadá observaram que
Evitar o consumo de carne crua, defumada ou mal cozida de animais infectados Evitar a manipulação de carne crua ou fazê-lo utilizando luvas
Não experimentar a comida enquanto cozinha, especialmente carne
Lavar utensílios e superfícies que estiveram em contato com alimentos crus, especialmente carne
Cuidado com a higiene dos alimentos consumidos crus (verduras e frutas), especialmente quando ingeridos fora de casa
Não ingerir água não tratada
Usar luvas quando manipular terra e/ou areia (atividades na horta ou jardinagem) Evitar contato com fezes de gatos e, se não for possível evitar, manuseá-las com luvas Lavar as mãos antes e após as refeições
mesmo um período curto de orientações sobre a infecção e medidas profiláticas, na primeira consulta de pré-natal, fizeram com que aumentassem os hábitos de vida protetores contra a infecção227. Pesquisadores na Polônia observaram que a orientação da gestante em relação a hábitos protetores contra a toxoplasmose dobraram seu conhecimento sobre a infecção e a prevenção em quatro anos225. Estudo belga mostrou que a estratégia educativa foi efetiva, mas a orientação não foi efetuada apenas pelos médicos, foi repetida exaustivamente em reuniões de grupos de pré-natal e foi escrita e verbal228. Mas, os autores ressaltam que a soroconversão pode ocorrer independente da adoção das medidas recomendadas e que as gestantes devem ser avisadas de que o risco pode ser reduzido mas não eliminado. Estudos realizados na Polônia mostraram que embora as medidas educativas associadas à triagem pré-concepcional sejam estratégias razoáveis para a profilaxia da toxoplasmose congênita, não tem sido confirmado o valor dessas medidas na prevenção da infecção e tem sido difícil motivar mulheres não grávidas para realizar o teste sorológico61.
Alguns problemas podem dificultar a eficácia das medidas educativas: o início tardio do pré- natal, reduzindo as oportunidades para orientação preventiva e, muitas vezes, tornando difícil a interpretação dos resultados sorológicos e o diagnóstico; o nível educacional da mulher que pode dificultar o entendimento das orientações e sua aplicação; a motivação da mulher para mudar hábitos de vida. Em população com baixo nível intelectual o melhor veículo de informação pode não ser escrito e sim veículos de massa, utilizando comunicação pessoal e veículo televisivo225. Antes de iniciar um programa educativo é importante conhecer bem o público a que se destina.
Para o sucesso da recomendação de não ingestão de carne crua ou mal cozida durante a gestação, as medidas de proteção à saúde devem ser adotadas junto com as medidas de
promoção da saúde. Deve-se pensar em estratégias para diminuir o consumo de carne contaminada, como por exemplo, congelando a carne e reduzindo a infecção entre os animais através da melhoria de higiene nas fazendas.
Mulheres que apresentam IgG positiva e IgM negativa no primeiro trimestre de gestação são consideradas “imunes”, isto é, infectaram-se antes da presente gestação. Esse grupo de gestantes tem baixo risco de transmissão da infecção a seus filhos, exceto se forem imunossuprimidas. Embora remota, a possibilidade de reinfecção e a ocorrência de imunossupressão justificam a extensão da prevenção primária a todas as gestantes, independentemente da suscetibilidade17.
Em 2005 foram publicados os resultados de um estudo realizado pelo Grupo de Estudos de Toxoplasmose, em Chicago, avaliando se o relato de exposição a fatores de risco para a toxoplasmose ou a investigação de quadro clínico compatível com a infecção durante a gestação poderia levar à identificação da maioria ou totalidade das mulheres em risco de transmitir a infecção a seus bebês. Foram estudados aspectos da parasitose durante o pré-natal de 131 crianças com toxoplasmose congênita acompanhadas pelos pesquisadores45. Observou-se distribuição da toxoplasmose congênita em todas as classes socioeconômicas, a residência em área urbana da maioria das famílias e a idade média das mães variando entre 25 e 29 anos. Apenas 39% das mães lembraram de exposição direta ou indireta, durante a gestação, a fatores de risco (carne mal cozida e fezes de gato) para a infecção. Considerando as dificuldades em diminuir a incidência da parasitose apenas pela implementação de medidas educativas, os autores defendem que a forma mais efetiva de prevenir ou detectar uma grande proporção de crianças com toxoplasmose congênita é pela triagem sistemática.