2 Methods and materials
2.4 Performance test of the tool for selected cases
Os nossos informantes vivem em mundo marcado pela desigualdade, pelo ideário do capitalismo e trazem consigo a marca da exclusão social. Nesse contexto, com suas características peculiares e cheios de esperanças adentram o CEFET-MG. Alguns deles retornam à escola após anos sem estudar, outros, mais jovens, estão praticamente dando sequência aos estudos, mas todos são oriundos de classes sociais menos favorecidas e buscam melhores oportunidades para a realização de suas expectativas. Concordamos com Dayrell (1996) quando afirma que devemos entendê- los em suas diferenças, pois trazem consigo histórias de vidas que permeiam hábitos, emoções, desejos, projetos, comportamentos, valores, enfim, visões de mundo que lhe são próprias. A partir dessas considerações, apresentamos a seguir o percurso de análise que desenvolvemos, tentando compreender os alunos em suas diferenças.
O Informante B parou de estudar por 28 anos. Perguntado sobre as razões que o levaram a voltar a estudar ele avalia que embora tenha parado de estudar ele nunca deixou de trabalhar em obra, serviço que sabe fazer. A consciência da importância do estudo dentro do mercado, e a falta que o mesmo que lhe faz foi a motivação encontrada para voltar a escola. Em suas próprias palavras:
(...) hoje, se você não estudar, você não anda. O mercado de trabalho te oferece condições, mas você tem de ter grau de estudo melhor. Então isso me fez voltar a estudar (...) e o mercado de trabalho, se você não estudar, você não vai (INF. B, 48 anos).
A Informante C, casada cinco filhos, após doze anos sem estudar, retorna ao ensino médio em uma escola do bairro onde mora e, segundo suas considerações, o ensino estava aquém de suas expectativas. Assim sendo, abandonou a escola e na procura por ensino de melhor qualidade, optou por estudar no PROEJA do CEFET-MG. Observamos que apesar de todas as dificuldades encontradas para estudar longe de casa, a aluna busca e luta pela conquista de seu direito à educação de qualidade. Verificamos
que nossa informante não se contenta em fazer o ensino médio em uma escola que pouco ou quase nada lhe poderia acrescentar. Portanto, parte para a busca de uma escola mais conceituada, no caso o CEFET-MG, considerando que a instituição poderá contribuir para a sua inclusão no mercado de trabalho. A moça afirma: “- Eu estava nesta escola e pensei assim: não adianta nada estudar numa escola que não está tendo um ensino bom. Aí eu vim para o CEFET que tem um ensino melhor” (INF. C, 33 anos).
Os informantes percebem que, cada vez mais, o mercado de trabalho excludente, competitivo e seletivo exige profissionais qualificados. A busca pela qualidade do ensino é mais uma tentativa de preenchimento de requisitos formativos para o exercício da cidadania. Os alunos vislumbram na oportunidade de qualificação a perspectiva de integração sociocultural. Conforme Wanderley (2003), a exclusão vai além do emprego, abrange a participação política, a dos meios culturais, da vida societária, enfim o exercício da cidadania. É nesse contexto que a modalidade de ensino médio integrado à formação técnica – o PROEJA – encontra sentido: a perspectiva de formação inclusiva para o exercício pleno da cidadania.
Quando os alunos buscam a qualidade de ensino, buscam a igualdade de condições, ou seja, buscam a continuidade dos estudos. O processo de construção de cidadania já se instala mesmo antes de seu acesso ao curso. É uma construção que já está em andamento, que está sendo buscada, construída, não é dada pelo Estado. É de “baixo para cima”, conforme coloca Dagnino (1994). Ainda que em nível individual, esses alunos lutam e buscam respostas à dinâmica dos conflitos reais, vividos pela sociedade em que se incluem neste determinado momento histórico. Eles percebem que o processo de exclusão em que se encontram vai diminuindo à medida que criam condições de inserção, ou seja, a busca pelo acesso a uma escola pública que consideram respeitada e reconhecida no mercado de trabalho. Do discurso de nossos informantes depreendemos:
O CEFET é uma referência em fornecer profissionais para o mercado de trabalho. Um dos motivos que me levou a procurar a escola foi justamente isso, ensino gratuito, mas de qualidade (INF. S, 32 anos).
Eu escolhi o curso como uma forma de aumentar meu currículo, uma forma de acrescentar alguma coisa porque um técnico é bem valorizado (...) pelo nome,
pelo ensino e por ser uma escola que eu vejo que no futuro pode me trazer benefícios (INF. T, 17 anos).
A análise dos dados do questionário (APÊNDICE 01) indica que os alunos consideram que os diplomas conferidos pela instituição são reconhecidos no mercado de trabalho, trazendo melhorias para suas vidas. Perguntados sobre a importância de vir a ter um diploma de nível técnico do CEFET-MG, os informantes afirmam:
(...) já está contribuindo para o meu sucesso, certo? Já tem um ano e meio já, quando me chamaram para eu trabalhar como empregado numa firma, a PVH Engenharia. (...) influenciou muito eu tá fazendo o curso de Edificações no CEFET, sem dúvida. (...) pelo status que o CEFET está me dando na área que eu estou exercendo (INF. A, 41 anos).
(...) já está me ajudando tanto que eu já estou trabalhando na área e imagino que assim que eu completar o curso e tiver o diploma eu vou conseguir melhorar profissionalmente e exercer a atividade como técnica mesmo, e imagino que este curso também já é uma base para tentar a graduação que é o meu objetivo, Engenharia Civil (INF. D, 24 anos).
Os informantes vivenciam na prática a ênfase do mercado de trabalho na questão do desenvolvimento da tecnologia e das mudanças provenientes disso. Os processos produtivos e organizacionais da produção aumentam o desemprego e tornam a qualificação indispensável para a sua manutenção no trabalho formal ou informal (WANDERLEY, 2003).
Relembramos Covre (1991) que ressalta a dubiedade existente entre tecnologia e cidadania: a tecnologia domina, mas, no entanto, o trabalhador que se especializa pode negociar. Nesse sentido, a tecnologia liberta. O informante M (30 anos) deixa isto claro quando atesta que “a chance que eu estou tendo na empresa de crescer é muito grande já que estou fazendo um curso de Edificações, então futuramente penso em ser um técnico em Edificações na empresa”.