2. Performance og performativitet: Eit tilbakeblikk
2.5 Performance og det teatralske
A Ficção Científica apropria-se da possibilidade de criação de novos contextos, propiciados pelas ciências e suas tecnologias, para montar seus enredos e narrativas. Destarte, ganha destaque a concepção de que o cinema de Ficção Científica seria capaz de antever, antecipar invenções que a tecnologia ainda não conseguiu realizar, mas que estão próximas de se tornar realidade. Assim, podemos dizer que a Ficção Científica é verossímil26, sendo, portanto, em alguns poucos casos, possível compreendê-la como um meio de divulgação científica (como por exemplo, trabalhos de Arthur Clark, Carl Sagan e Isaac Asimov), apesar da maior parte dos filmes de Ficção Científica não terem por objetivo a divulgação de conceitos científicos (SIQUEIRA, 1999).
As produções, literárias e cinematográficas, que envolvem a ficção científica transformaram-se em uma fonte de informação em dois tempos, sendo um real e outro imaginário. Enquanto no tempo real os autores e suas obras apresentam ao público o que é discutido atualmente nas ciências e os respectivos direcionamentos apontados pelas pesquisas, no tempo imaginário, a ficção científica realiza o futuro, ou seja, transforma o caminhar das
26 A FCi é compreendida como verossímil porque não é verdadeira, nem falsa, mas aparenta ser verdade
pesquisas científicas em "futuro realizável" ao oferecer a possibilidade de fazer ciências por meio da antecipação dos resultados a serem alcançados. (GOMES-MALUF & SOUZA, 2008).
Nesse sentido, Eco (1989, p. 170) pontua “[...] a boa ficção científica é cientificamente interessante não porque fala de prodígios tecnológicos [...], mas porque se apresenta como um jogo narrativo sobre a própria essência de toda a ciência, isto é, sobre a conjecturabilidade.”
Como a ficção científica veiculada pelas obras literárias, pelas histórias em quadrinhos, pelas séries televisivas e pela indústria cinematográfica se relaciona com as ciências e o ensino em e sobre as ciências da natureza?
A esse respeito, cito Siqueira (1999):
[Cerca de] quinhentos anos depois da revolução científica do Ocidente, [ocorrida no século XVI], as descobertas científicas em campos como o da genética aproximam o homem da posição antes tida como divina: a de criador. A clonagem e os hibridismos possibilitados pela engenharia genética e a inteligência artificial apoiam essa tese. No entanto, discussões em outras instâncias, entre elas a ética, questionam essa herança do pensamento humanista e forçam um repensar do papel do homem como membro de um meio que influencia e pelo qual é influenciado. A ficção científica registrou essa passagem do homem como centro do mundo para um homem em dúvida e refletiu o questionamento da possibilidade de dominação infinita do homem sobre outros seres, espaços e tempos distintos dos vividos até então pelos seres humanos. (SIQUEIRA, 1999, p. 3).
Reconhecendo o grande potencial da relação entre ficção científica e cinema, como forma de problematização das ciências e suas tecnologias, fundamento-me em autores como Gomes-Maluf e Souza (2008), Machado (2008) e Piassi e Pietrocola (2009), para compreender como se deu a sua inserção no ensino.
Gomes-Maluf e Souza (2008) e Machado (2008) apontam que a proposta de empregar filmes de ficção científica no ensino para introduzir conceitos de ciências da natureza em sala de aula tem sido muito comum.
Obras de ficção científica têm sido apontadas como um recurso importante para o ensino de ciências. Entretanto, mais do que um possível recurso didático para facilitar o aprendizado de ciências, a ficção científica constitui por si só uma modalidade de discurso sobre a ciência na medida em que expressa, por meio do cinema e da literatura, interesses e preocupações em torno de questões científicas presentes que influem diretamente no âmbito sociocultural. (PIASSI & PIETROCOLA, 2009, p. 525)
Gomes-Maluf e Souza (2008) afirmam que, em alguns momentos, a ficção científica é mais explicativa que as próprias ciências para compreender a visão que as pessoas, que não pertencem à elite tecnológica, têm da tecnologia. E vão mais além: alegam que introduzir a ficção científica no ensino das ciências pode propiciar que os educandos incorporem novos
elementos em sua estrutura conceitual ao desencadear nestes, em conjunto com outros fatores, a motivação e a aprendizagem.
Nessa mesma perspectiva, para Oliveira e Zanetic (2008) a ficção científica, além de um recurso didático para o ensino das ciências, é também um discurso social sobre as ciências, o que permite que esta seja utilizada em sala de aula de modo a propiciar reflexões e debates acerca das visões das ciências (e principais questões a elas inerentes), considerando-se a historicidade do que se estava em voga no momento de produção das obras.
Nessa mesma perspectiva, encontro fundamentação em Fiker (1985) que estabelece algumas relações entre a FCi e a realidade sócio-histórica ao falar sobre a exploração midiática dos mutantes através das produções cinematográficas:
[...] Depois de Hiroshima e Nagasaki, multiplicaram-se as histórias de mutantes produzidos por radiação atômica. Uma das variantes mais comuns é a perseguição aos mutantes pelos demais sobreviventes de um holocausto nuclear (desde que estes sejam maioria). As variações sobre o tema mutação são extremamente elásticas [...] [e] podem também ocorrer por outras vias [...]. As relações entre os mutantes e os normais são sempre cheias de percalços e paranoia. Por incompreensão, por preconceito e medo dos normais ou mesmo por reais intenções de supremacia dos mutantes, estes são perseguidos e obrigados a se organizar em esquemas clandestinos. Muitas histórias de mutantes são projeções dos problemas raciais nos EUA. (FIKER, 1985, p. 68-69).
Assim, “abordar ciência a partir da ficção científica é mais do que simplesmente procurar conceitos veiculados em filmes ou livros” (OLIVEIRA & ZANETIC, 2008, p. 537), é compreender a sua complexa relação com a sociedade dentro de um contexto social, histórico, político e cultural.
Autores como Gomes-Maluf e Souza (2008), Machado (2008), Oliveira e Zanetic (2008) e Piassi e Pietrocola (2009) defendem a ideia de que o uso da ficção científica – seja sob a forma de livros ou filmes – no ensino em e sobre as ciências da natureza favorece o acesso dos educandos a diferentes produções das ciências, propiciando assim, com base em obra(s) artística(s), o contato dos educandos com as transformações que os cientistas vêm imprimindo ao mundo.
Oliveira e Zanetic (2008) defendem ainda que a ficção científica tem uma maneira própria de falar sobre as ciências, maneira essa que não é encontrada nem mesmo em outras expressões ficcionais que falam das ciências, sendo considerada didática por se propor a veicular ideias não no sentido de definir o que são as ciências ou mesmo ensinar conceitos científicos, muito embora isso possa ocorrer. A ficção científica veicula, portanto, as questões, originadas nas ciências da natureza e na relação sociocultural com elas, que incomodam ou estimulam as pessoas.
Desse modo, no ensino em e sobre as ciências da natureza, inserir filmes de ficção científica no início das atividades pode fazer com que estes sirvam como um recurso capaz de desencadear a aprendizagem e organizar os conceitos a serem explorados futuramente. (OLIVEIRA & ZANETIC, 2008).
Neste ponto, chamo atenção para o fato de que, num ensino de ciências que se baseie em uma abordagem histórico-filosófica, para analisarmos obras de ficção científica é necessário considerarmos o contexto no qual as mesmas foram produzidas, a fim de evitarmos fazê-lo por uma visão simplista, ingênua e muitas vezes positivista das ciências e, desse modo, contribuirmos para ressaltar a capacidade crítica dos educandos, como já pontuaram autores como Gomes-Maluf e Souza (2008), Machado (2008), Oliveira e Zanetic (2008), Piassi e Pietrocola (2009).
Oliveira e Zanetic (2008) destacam alguns critérios que devemos levar em consideração ao nos propormos, em conjunto com os educandos, analisar uma obra de ficção científica.
Apesar de outros critérios fazerem parte da lista proposta, elenco aqui somente aqueles que julguei serem mais pertinentes para a análise por uma abordagem HFC no ensino em e sobre as ciências da natureza: (a) época em que a obra foi escrita/produzida – pois as possibilidades do autor utilizar o conhecimento científico dependem do contexto (histórico, social, político, econômico, cultural, etc.) no qual ele se encontra; (b) qual paradigma27 científico foi utilizado pelo autor – os paradigmas podem ser categorizados como vigente (normal), anterior (saudosista), futurista (revolucionário) ou “fantasioso” (revolucionário fantástico); (c) como o paradigma foi utilizado – se foi utilizado como uma simples citação (um pano de fundo) ou se o enredo foi construído baseado no conhecimento científico, sendo portanto o cerne e (d) verossimilhança científica28
– analisar se a obra é verossímil ou inverossímil de acordo com o paradigma aceito pela comunidade científica (OLIVEIRA & ZANETIC, 2008).
Assim, compartilhando das concepções de Rocque e Teixeira (2001) e Barca (2005), considero que, como qualquer constructo humano, a produção cinematográfica é e está carregada de valores, ideologias, visões de mundo e posições políticas determinadas pela sociedade em que se insere, e é por isso que penso sejam o cinema e os filmes comerciais de ficção científica um recurso didático-metodológico adequado para se propor uma análise da
27
A palavra paradigma aqui assume a concepção proposta por Thomas Kuhn.
28
Os autores concebem verossimilhança científica como uma forma de julgar as narrativas com o intuito de verificar qual (quais) delas é (são) mais condizente(s) com as teorias científicas.
natureza das ciências e da visão dos cientistas por meio de uma abordagem histórico- filosófica das ciências.