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Cunha (1939), Hurley (1936) e Rayol (1943) fazem referência à participação da então Vila Nova D’el Rei nos acontecimentos da Cabanagem, revelando que a população local não ficou alheia aos embates entre os cabanos e as forças legalistas, que ocorreram na década iniciada em 1830. Porém, não há consenso entre estes autores sobre a posição adotada pelos curuçaenses nesse evento. Rayol (1943) relata o deslocamento de populares de Curuçá para a Vigia para combater contra as autoridades locais, que haviam sido depostas pela população vigiense, mas logo em seguida reconduzidas aos cargos pelas forças legalistas.

Por seu turno, Cunha (1939, p. 29), identifica os curuçaenses como partidários da legalidade que, temerosos das forças cabanas, trataram de se organizar para combatê-las:

Nesses dias de apreensões e terror, alguém vindo dos lados do Mahú, contou na villa que um numeroso bando de cabanos achava-se acampado á margem daquelle rio, no logar Pau-Grande e se aprestava para vir atacar a villa. A notícia era a confirmação dos boatos que já vinham circulando neste sentido. E’ facil de avaliar-se, o alvoroço, a inquietação, o pavor de que se viram tomados os pacatos moradores da villa de Curuçá. Entretanto, passado o primeiro momento da justa aprehensão, reuniram-se os maioraes da localidade e tratou-se decididamente de oppor tenaz resistência, fosse qual fosse o desfecho da lucta que se aproximava. O primiero serviço foi reunir armamentos, afim de verificar-se com quantas armas de fogo podia-se contar naquella cruel emergência. E cada um foi buscar a sua arma [...].

Nesse ínterim, reforços teriam sido solicitados à Vigia, onde existia uma “força” militar. Ainda segundo Cunha (1939, p. 30), as mulheres receavam se deslocar às casas de forno,

46 Não foi possível esclarecer, em campo, as motivações para tantas e tão rápidas mudanças de caráter

geralmente afastadas, para fazer a farinha e os homens temiam demorar-se nas pescarias, porque “[...] não se sabia a hora da chegada daquelles gratuitos inimigos”.

Hurley (1934, p. 105-106), por sua vez, ao comentar o aparente estado de abandono em que as forças legais teriam encontrado a vila, atribui tal situação a uma aliança entre estas e os moradores locais.

Na tarde de 3 de Março de 1836, occupou a Villa Nova de ’El Rei (Curuçá) o commandante João Antônio Martins, com cem paizanos da Vigia, o qual a encontrou deserta. Só duas pessoas alli se achavam e receberam esse primeiro destacamento da tropa legal: o vigario e o sachristão. Esse facto, por si só, vem demonstrar que a população ou era cabana, ou estava solidaria com a Cabanagem, salvo a hypothese, aliás inverosimel, de terem os habitantes, sido forçados pelos cabanos, a evacuar a Villa. Seja lá o que for, o que é certo é que Curuçá era um deserto, ao ser ocupada pelas forças da Vigia.

Até que ponto o presumido esvaziamento da localidade representou o apoio da população local ao movimento cabano não é algo esclarecido por Hurley. Cunha (1939), ao relatar o início dos embates, também não elucida esta questão.

Segundo este autor, as lutas iniciaram com aproximadamente 80 homens posicionados em pontos estratégicos, entre os quais o Jutahy47. Porém não evidencia se entre estes havia moradores locais ou apenas membros das forças oficiais. Ressalta, porém, que após ofensivas de ambos os lados, com baixas consideráveis entre os cabanos, estes bateram em retirada, configurando-se assim, uma vitória da legalidade contra os “rebeldes”.

Se a participação dos locais na Cabanagem é controversa, a considerar as versões apresentadas pelos autores mencionados, minimamente alguns se posicionaram a favor dos cabanos. Hurley (1934) faz referência a um número de 453 cabanos que, sobre o comando de Bernardino Antônio Campo Verde, teriam atacado a vila. Por seu turno, Cunha (1939, p. 31) menciona um morador da localidade Mahú, hábil “[...] conhecedor do matto” que havia aderido aos cabanos e, juntamente com Thomaz de Aquino e Gabrielzinho, “[...] era o que estava escalado para conduzir a horda atacante a Curuçá”. Nestes termos, depreende-se que certamente os cabanos contaram com algum apoio interno, ainda que mínimo.

É certo, ainda, que a Vila Nova D’el Rei foi alvo de ataques, que culminaram, inclusive, na destruição de prédios e documentos públicos (BATISTA, 2009, n. c.). Infelizmente, além das obras produzidas pelos autores indicados acima, não se encontrou registros escritos destes acontecimentos. E as tentativas de esclarecê-los, através da técnica da história oral junto a moradores antigos, revelaram-se infrutíferas.

47 O Jutahy era uma fonte de água situada a uns trezentos metros da Igreja Matriz, considerada ponto estratégico

Em que pese a escassez de estudos sobre a questão, cumpre ressaltar a existência de quilombos diversos entre os rios Mojuim e Mocajuba, em territórios hoje pertencentes aos municípios de Curuçá e São Caetano de Odivelas (SALLES, 2005, 2004). Entre estes, teria se destacado o mocambo Mocajuba. Segundo este mesmo autor, em 1813, uma denúncia de depredações de sítios vizinhos, supostamente efetuada pelos negros habitantes daquele mocambo foi oficiada ao governador do Grão Pará, que determinou diligências na área. Estas resultaram improfícuas, legando àquela zona um certo “esquecimento” por parte da administração pública.

No entanto, algum tempo depois, precisamente na década iniciada em 1850, o mocambo Mocajuba voltou a atrair a atenção das autoridades. Segundo Salles (2005, p. 260)

É provável [...] que durante a Cabanagem Mocajuba, tenha se tornado um dos principais focos de atração do negro fugido. Por volta de 1850 já era apontado como o principal mocambo localizado nas proximidades de Belém. Era um dos mais populosos e deu muito trabalho às tropas do governo.

De acordo com este autor, apesar dos esforços envidados pela administração provincial no sentido de destruir o território em questão, as expedições militares lograram vários insucessos, prolongando-se os ataques sucessivos a Mocajuba por quatro anos – 1855 a 1859.

A pensar como Salles (2005), este período extenso demonstraria a capacidade de resistência dos quilombolas diante das tropas do governo. O autor defende que isto seria um indicativo de que tais mocambos “[...] tiveram elevado índice de organização e que em torno dele os negros estabeleceram um verdadeiro cinturão de segurança” (SALLES, 2005, p. 262). Infelizmente, e conforme posto por este mesmo autor, esse processo passou quase despercebido dos historiadores paraenses e foi minimizado pela imprensa do período. Desse modo, pesquisas e estudos se fazem necessários, no sentido de elucidar as histórias destes sujeitos, seus modos de atuação, estratégias organizativas etc.