O Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare também teve seu primeiro contato com o encenador Marcio Aurelio quando de sua residência no TUSP, no ano de 2007. Nessa ocasião, Aurelio ministrou ao Grupo uma oficina de uma semana – atividade que estava prevista desde a inscrição do projeto enviado para o edital de ocupação desse teatro, no ano anterior. Nessa ocasião, foram projetadas duas oficinas, sendo uma delas com Hugo Possolo, do Grupo Parlapatões (São Paulo/SP), com o qual os Clowns já haviam trabalhado anteriormente, através da produção local de seus espetáculos em Natal; e a outra com Marcio Aurelio, diretor da Cia. Razões Inversas (Campinas/SP), e que até então não havia tido contato formal com o Grupo.
No momento da idealização das oficinas que compuseram a residência no TUSP, a escolha por um intercâmbio com Marcio Aurelio – cuja aproximação com o Grupo foi efetuada, à semelhança do ocorrido com Gabriel Villela, através do maestro Ernani Maletta –, segundo [Fernando], correspondia a um anseio do coletivo potiguar de experimentar a linguagem, a estética e os procedimentos de um fazer teatral cujas matrizes fossem distintas daquelas que compunham a solaridade, com as quais o Grupo até então se identificava. Assim, contrariamente ao intercâmbio com Villela (movido pelo desejo de aprofundamento em uma pesquisa teatral irmanada à própria pesquisa do Grupo), a troca com Aurelio, desde seu início (e, consequentemente, no desenvolvimento de um processo de criação conjunto), se constituiu como uma resposta à curiosidade de experimentar a alteridade: colocar-se o desafio – e fruir dos riscos daí provenientes – do exercício em outro terreno teatral.
A dupla paradigmática constituída por Villela e Aurelio, parece chamar a atenção para um tipo de “conjunção adversativa”. Fernandes, em seu artigo sobre os
conceitos utilizados por Lehmann em Teatro pós-dramático (2007), cita a ambos encenadores como exemplos opostos dentro do procedimento caracterizado como “jogo da densidade dos signos”:
Outro procedimento de composição que Lehmann discrimina é o jogo com a densidade dos signos. Para resistir ao bombardeio de informações no cotidiano, o teatro pós-dramático adota uma estratégia de recusa, que pode se explicitar na economia dos elementos cênicos, em processos de repetição e ênfase na duração ou no ascetismo dos espaços vazios de Jan Fabre e do Théâtre du Radeau, por exemplo, e também nas encenações depuradas de Antunes Filho e Marcio Aurelio. Esse teatro que privilegia o silêncio, o vazio e a redução minimalista dos gestos e dos movimentos, cria elipses a serem preenchidas pelo espectador, de quem se exige uma postura produtiva. Outro recurso ligado à mesma matriz é a multiplicação dos dados de enunciação cênica, que resulta em espetáculos sobrecarregados de objetos, acessórios e inscrições, cuja densidade desconcertante chega a desorientar o público, como acontece nas encenações de Frank Castorf ou nos espetáculos de Gabriel Villela (FERNANDES, 2010, p.55).
Ainda que não caiba aqui a discussão acerca do conceito de pós-dramático, nem a afiliação desses exemplos nacionais ao conceito de origem alemã, o paralelo traçado por Fernandes auxilia a dimensionar o quão afastadas estão as premissas estéticas dos dois diretores brasileiros com os quais os Clowns de Shakespeare escolheram trabalhar. Além disso, a autora também aponta aspectos relevantes que compõe a estética de Marcio Aurelio e que estiveram presentes em Hamlet: um relato dramático medieval (2013), afiliado ao minimalismo da enunciação cênica.
A partir daquela primeira oficina – que será melhor detalhada a seguir – ficou sinalizada a possibilidade de uma continuidade do trabalho desenvolvido junto a Aurelio. Ainda assim, antes que essa parceria criativa se concretizasse de fato, decorreram os acontecimentos já pontuados anteriormente neste capítulo, com relação às montagens de O capitão e a sereia (2009) e Sua incelença, Ricardo III (2010).
Paralelamente a essas atividades, em concordância com Aurelio, o Grupo inscreveu-se no Programa Petrobras Cultural 2008/2009, tendo sido selecionado com o projeto que previa a pesquisa e a montagem de um espetáculo teatral que teria Hamlet como ponto de partida e a direção do encenador paulista. O Programa Petrobras Cultural 2008/2009 exigia não apenas a montagem do espetáculo, mas atividades voltadas para a manutenção do Grupo pelo período de dois anos, sendo o primeiro ano destinado à pesquisa para o espetáculo e o segundo, à montagem em si29. Assim, a aprovação nesse
29 Reproduzimos a seguir as atividades previstas para cada ano do projeto, segundo publicação na página
do Programa Petrobras Cultural 2008/2009: “As etapas de execução do projeto serão dividas em: Ano I: - treinamento do Grupo – trabalho de música (canto e instrumentos), treinamento físico, laboratório de experimentações cênicas e grupo de leitura e estudos; - exploração do universo temático da obra a ser
programa proporcionou aos Clowns de Shakespeare a realização e manutenção de inúmeras de suas atividades, mesmo que o período de contato com o encenador convidado tenha se restringido apenas aos quatro meses finais do projeto, destinados aos ensaios e montagem do espetáculo.
Assegurados pela manutenção momentânea do Grupo através do Programa Petrobras Cultural 2008/2009, os Clowns de Shakespeare puderam desenvolver as atividades previstas no projeto entre março de 2011 a fevereiro de 2013, estreando Hamlet: um relato dramático medieval (2013) – que contou ainda com o patrocínio das empresas Chesf e Banco do Nordeste/BNDES – em 18 de janeiro de 2013, na programação do 19º Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, em Recife/PE, dando início às comemorações de vinte anos de fundação do Grupo.
A seguir, serão detalhados aspectos das primeiras ações de aproximação entre a obra e o Grupo, bem como os principais procedimentos de criação característicos de Hamlet: um relato dramático medieval (2013). Interessante notar que, apesar de serem relatados pelos Clowns de Shakespeare aspectos formativos decorrentes do processo de criação de Sua incelença, Ricardo III (2010), é recorrente nos entrevistados o entendimento de que, no trabalho com Villela, a obra final resultante foi mais importante do que seu processo de criação. Já no caso de Hamlet: um relato dramático medieval (2013), há a percepção de que a ênfase residiu no processo em si, em detrimento do resultado da obra final, assinalando mais uma diferença fundamental entre os processos com cada um dos dois encenadores.
Sendo Aurelio um encenador que também possui experiência profissional como pedagogo, é possível identificar em seus procedimentos de criação momentos em que há uma maior ênfase em cada uma dessas funções, o que torna ainda mais multifacetada sua relação com o Grupo, já complexificada devido às diferenças estéticas entre o encenador e o coletivo, analisadas em detalhe a seguir.
montada no segundo ano, Hamlet, tanto no trabalho interno do Grupo, quanto em ações de trocas com outros artistas e grupos; - realização de uma oficina de dramaturgia com jovens, com objetivo de propiciar a formação de novos dramaturgos; e - montagem de textos teatrais escritos a partir da oficina. Ano II: - Montagem de um espetáculo, a partir da pesquisa realizada desde o primeiro ano do projeto, tendo o texto Hamlet, de Shakespeare, como ponto de partida”. Fonte: < http://www.hotsitespetrobras.com.br/cultura/projetos/14/570 > Acesso em 24 mai. 2015.
2.3.5. Do processo de criação de Hamlet: um relato dramático medieval