Segundo Frei Cardonel (1962,p.72), hoje uma consciência histórica surge e se afirma quando uma crítica radical põe em questão todo um mundo de cultura e uma nova (imagem do mundo) começa a ser buscada.
O homem começa a olhar o mundo de uma maneira nova, um novo tipo de «subjetividade» (no sentido técnico do termo) se manifesta. Quais suas características? O mundo é «experimentado» como sujeito de leis empíricas formuláveis com o rigor da expressão matemática, e como matéria dúctil oferecida aos projetos construtores do homem. A subjetividade moderna é «construtiva»; e por aí afirma sua transcendência sobre o mundo. A consciência histórica é, então, a consciência de que a história se desenrola num tempo empírico cuja substância é dada pela ação do homem como iniciativa histórica, que transforma o mundo. Para o homem antigo — da civilização clássica — o mundo é uma ordenação perfeita de essências: o macrocosmos. O homem o contempla e a «subjetividade» é o reflexo da ordem do mundo: o microcosmos. Quando esta relação é radicalmente criticada no exercício efetivo de uma nova atividade de conhecimento .— a ciência galileiana — um novo tipo de «subjetividade» se afirma e nasce uma nova consciência histórica: nasce o homem moderno. Para ele, o problema do «sentido da história» articula-se cada vez mais num plano em que a posição da «subjetividade» como matriz de projetos históricos assume necessariamente as estruturas do mundo tal como se descobrem no projeto fundamental da ciência, para empreender a criação de um «mundo do homem» numa civilização da técnica. Então o problema mais
profundo que impulsionará a consciência moderna e encadeará a sucessão das suas formas é o problema da Razão e da História ou da «razão histórica»; que sentido dar à marcha de uma razão ativa que transforma o mundo e provoca o advento de um universo racionalizado pelo homem? (CHADORNEL, p.72)
Os exemplos disso não são poucos: Descartes à ilustração, de Kant a Hegel e Marx, do historicismo e da fenomenologia aos existencialismos das filosofias científicas do século XIX a Teilhard de Chardin, tal a questão fundamental que define a trajetória da consciência histórica dos tempos modernos. A teologia não basta a essa nova realidade e a esse novo aparato teórico que aprofunda o racionalismo, a Opus Dei caracteriza um caminho discursivo de justificação e acomodação a este novo mundo, a prova disso e seu status jurídico único junto ao Vaticano, Prelazia Pessoal, novos tempos demandam novas formas de ação. Mounier escreveu um artigo Refazer a Renascença em 1932. Na verdade retornamos sempre a esta crise entre todas, decisiva quando a análise se aprofunda nas raízes da nossa própria crise. A meditação sobre a Renascença conduz à profecia fantástica de «uma nova Idade Média», num livro cujo influxo sobre o pensamento cristão foi veículo das mais estranhas ilusões. Penso que a significação da crise renascentista deve ser sublinhada hoje nos seus termos reais como ponto de partida de toda análise que intente fundamentar uma opção cristã em sentido oposto ao pessimismo de um Berdiaeff. Para o pensador russo o homem da civilização técnica tem o seu ser desarticulado pela irrupção das forças demoníacas da ciência e da máquina. Ao contrário, o que leva a crise renascentista ao seu desfecho é a emergência de uma consciência histórica que se funda na definitiva transcendência do homem sobre o mundo, e conduz a termo a liquidação da grande «natureza» animista. Se a cultura antiga é dominantemente cosmológica, o que marca o surgimento de uma nova idade de cultura nos tempos renascentistas é a sua inflexão antropológica. O que foi um sentimento nos humanistas torna-se realização efetiva na criação da ciência experimental: a história passa a evoluir sob o signo da criatividade humana, a subjetividade torna-se a matriz dos projetos que dão a direção e o ritmo do processo histórico. A nova visão do mundo que se eleva na aurora dos tempos modernos tem assim o seu centro na concepção do homem como criador de um mundo humano pela humanização da natureza através da ciência e da técnica. Perguntamos se esta visão, nascida no seio de uma cultura animada pelo Cristianismo, significa a crítica definitiva da visão, cristã, o sinal de partida da sua liquidação histórica. Opor o teocentrismo medieval ao antropocentrismo renascentista, moderno, tantos pensadores cristãos o fizeram com, maior ou
menor brilhantismo .— pode comprometer definitivamente a visão cristã, com a visão de um cosmos estático em que o trabalho humano é a simples diversão de um rei no seu jardim. Tal concepção é incompatível com a consciência histórica dos tempos modernos e já está por ela historicamente ultrapassada. Darei as razões em força das quais não posso aceitar essa inter- pretação do nascimento do mundo moderno e da sua significação para a reflexão cristã. «Refazer a Renascença»: e o programa deve começar pela revisão crítica dos conceitos com que esta imensa crise é julgada habitualmente pelos pensadores cristãos.
A história é criação do homem. Uma filosofia da história descreverá a marcha dos tempos para o reino do homem, o reino da Razão. A ardente polêmica anti-cristã deste século deve ser explicada como uma crítica do revestimento cosmológico e estático da mensagem cristã proveniente da sua encarnação no mundo da cultura antiga. Mas um historiador como Karl Loewith (em que pese às suas conclusões pessimistas) pôde mostrar em algumas das componentes mestras do ideal racionalista uma transposição profana de autênticas intuições bíblico-cristãs. O Progresso e a Educação são as duas bandeiras levantadas pelo século das luzes. Agora se dirá com Condorcet que a natureza não colocou nenhum termo às nossas esperanças e com Herrer que a História é o processo de educação da humanidade para o reino da razão e da liberdade. A razão do racionalismo surge como primeira forma da consciência histórica moderna e atinge no idealismo alemão a hora do seu amadurecimento, da sua mais alta manifestação. Aqui lembremos Kant elevando ao absoluto das categorias da razão pura a física newtoniana e a geometria de Euclides. Kant inicia este processo de auto- reconhecimento da subjetividade do homem moderno, fechando o primeiro ciclo da consciência histórica dos novos tempos, que vai terminar no Espírito hegeliano. Note-se que em Kant é como se a construção do mundo devesse finalmente descansar, com a descoberta dos limites a priori da razão. A razão começa a legislar no absoluto: prolegômenos a toda metafísica futura que pretenda apresentar-se como ciência; princípios metafísicos à ciência da natureza; a religião nos limites da razão pura; idéias para uma história universal concebida de um ponto de vista cosmopolita; projeto filosófico de uma paz perpétua. .É como se apontasse o dia de repouso da história. O caminho está preparado para Hegel, para a subida a especulação mais alta, para a descida à história que continua.
A partir da perspectiva cristã apresentada, torna-se mais fácil entender o movimento dialético existente entre os limites da razão e o Caminho para a fé proposto pela Opus Dei. Nem o valor da razão é absoluto, nem o valor da fé, ambos são determinado pela urgência de ser num dado contexto histórico que atualmente desacredita em ambos.
A razão gerou um acumulo de riqueza em alguns lugares e de miséria e ignorância extremas em outros, a natureza têm sido a maior prejudicada pelo avanço do racionalismo atual, que em seu bojo traz questões pertinentes como: os limites éticos da exploração da Terra, o consumismo desenfreado, o direito individual a vida e aos recursos que a tecnologia vem desenvolvendo, o direito das outras espécies a vida, tema defendido na Idade Média por São Francisco de Assis.
Ora, a fé é um importante regulador desses fenômenos em curso, mas suas formulações têm de ser revistas, pois há novos paradigmas a serem quebrados, tais como: o direito de pessoas do mesmo sexo poderem consumar sua união civil em um Estado laico, o direito individual de um sujeito doente, em estágio terminal, escolher o momento e a forma de morrer, independente da fé propugnada pela maioria de pessoas de um determinado país, o direito aos cientistas pesquisarem células-tronco e as suas potencialidades terapêuticas, isso sem falar no direito aos cidadãos terem acesso a esses benefícios, o direito da mulher dispor de seu corpo da maneira que julgue conveniente, podendo interromper uma gravidez protegida pelo aparato de saúde do Estado e não a mercê de carniceiros que hoje, segundo dados do Ministério da Saúde, fazem aproximadamente um milhão de vítimas por ano no Brasil.
O contexto de produção dos folhetos e do website da Opus Dei aparentam mais hostilidade à fé, mas também o é a razão e seus limites, pois a ética deve ser um valor a regular esta nova imagem de mundo, não a ética das empresas, que beiram o assistencialismo eclesiástico de tempos passados, mas um ser ético para o qual talvez o Homem não esteja preparado.
O mundo hoje está em desequilíbrio em função da unilateralidade com a qual o vem comandando os Estados Unidos, não há contra-ponto como grande parte do século XX, na chamada Guerra Fria, travada entre a União Soviética e os Estados Unidos.
A principal bandeira política do país mais poderoso do mundo, subjacente ao discurso contra o terror, e o combate àqueles que não foram beneficiados pela era hegemônica da razão. Assim como jesuítas rumaram para as colônias e obrigaram os nativos a crer em Cristo, a América hoje vai ao Oriente Médio, com o fruto da razão chamado de democracia, exportar um modelo político-econômico que não respeita a tradição local e que não possui nenhum mecanismo de auto-reflexão que permita ponderar sobre seus subprodutos, entre eles: a guerra, a destruição da natureza, o desrespeito aos valores de comunidades tradicionais, a intolerância e o utilitarismo.
Há discursos religiosos que procuram legitimar esse estado de coisas, no entanto outros o confrontam pela força do exemplo e da evangelização. Me parece certo afirmar que é cedo especular sobre qualquer que diga respeito ao século corrente, exceção feita a crescente importância atribuída a religião na esfera do público e do laico, em temas recentes.
O Opus Dei hoje
Legal e institucionalmente, o "Opus Dei", no sentido limitado da sede central em Roma, possui apenas a Villa Tevere e a Villa Sacchetti (as sedes da seção masculina e da seção feminina), bem como um cemitério onde são enterrados os numerários. Seu orçamento anual para 2003 foi de $ l ,7 milhão. Para dar uma noção de escala, o orçamento operacional anual do Vaticano é de $260 milhões; o da Universidade de Notre Dame, em South Bend, Indiana, de $260 milhões e o da Universidade de Harvard, $1,3 bilhão. Em alguns países, o "Opus Dei", no sentido de representante regional, possui apenas sua própria sede. Em outros, nem isso, pois a sede faz parte de instalações de uso múltiplo pertencentes a alguma fundação independente local. Nos Estados Unidos, por exemplo, a despeito de toneladas de notícias em contrário, o prédio da Rua 34 com a Avenida Lexington não "pertence" à Obra, legalmente falando, mas a uma fundação chamada "Murray Hill Place", que também dá nome ao edifício.
Todas as "obras corporativas" do Opus Dei, ou seja, escolas, universidades, programas sociais, residências universitárias etc., pertencem aos leigos que as fundaram, e não ao Opus, sendo por eles administradas. A Universidade de Navarra não "pertence" ao Opus Dei, e sim a um Conselho de Administração independente e legalmente constituído (embora muitos membros do Conselho sejam do Opus Dei). O mesmo se aplica à Universidade de Strathmore, em Nairóbi, e à Universidade de Piura, no Peru, bem como ao Midtown Center, em Chicago, à Fundação Educacional South Bronx, à Netherhall House, em Londres, e a outras atividades afiliadas do Opus Dei. A organização insiste que isso é conseqüência lógica da ênfase sobre a secularidade e sobre a liberdade; os críticos entendem que não passa de um artifício para esconder o verdadeiro perfil financeiro do Opus Dei.
Alguns estudiosos do Opus Dei estenderiam a investigação para além do patri- mônio dos centros e obras corporativas do Opus Dei, nela incluindo os empreendimentos seculares que abrigam membros da Obra, como indício de uma esfera de influência financeira bem mais ampla, fenômeno apelidado de “Octopus Dei”.
Para Michael Walsh, jornalista, a Opus Dei tem "vínculos significativos com 479 universidades e escolas secundárias, 604 revistas ou jornais, 52 estações de rádio ou tevê, 38 agências de imprensa e publicidade e 12 produtoras e distribuidoras de filmes". Esses nú- meros constam de um relatório confidencial entregue ao Vaticano em 1979 pelo então Padre Álvaro del Portillo, sucessor de Escrivá como líder do Opus Dei, referente à esperada transformação da organização em prelazia pessoal. O relatório vazou para o jornal El Pais, o mais importante da Espanha, e foi publicado em 8 de novembro de 1979. Segundo a Opus Dei, Portillo mencionara esses números como forma de atestar a penetração dos membros da Obra em todas as áreas da vida secular. Sua intenção fora mostrar que os membros do Opus Dei atuavam em 479 universidades e escolas secundárias, em 604 jornais ou revistas etc., e não que o Opus Dei seria o dono ou o controlador de tais instituições.
Talvez devido à imagem de grande opulência, já se comentou que a proeminência do Opus Dei no pontificado de João Paulo II deveu-se em parte à robustez financeira — apoio ao movimento Solidariedade na Polônia, por exemplo, ou a uma "injeção salvadora" no Instituto para as Obras Religiosas (IOR), informalmente conhecido como Banco do Vaticano. Oficialmente, tais rumores foram repetidas vezes desmentidos pelo Opus Dei e pelos demais protagonistas citados. Em todo caso, o perfil financeiro relativamente modesto da Obra levaria a duvidar que ela dispusesse de recursos suficientes para fornecer recursos no volume sugerido por tais boatos.
Além disso, existem numerosos exemplos de projetos do Opus Dei em várias partes do mundo que precisaram ser abandonados devido à falta de recursos. A Escuela Agraria El Pia, na região espanhola da Catalunha, por exemplo, uma escola afiliada do Opus Dei para fazendeiros, foi fechada recentemente porque seus responsáveis não conseguiram arrumar dinheiro para mantê-la funcionando. Em Roma, a Scuola Petranova, instituição afiliada do Opus Dei, teve de reduzir suas atividades, apesar das tentativas dos pais, alunos, cooperadores e supernumerários do Opus Dei para levantar fundos suficientes para que ela continuasse operando plenamente. Conseguiram salvar o ensino fundamental e esperam que, se a situação econômica mudar, possam ser capazes de reabrir o ensino médio em poucos anos. Se o acesso da organização à riqueza corporativa fosse realmente ilimitado, esse tipo de coisa não ocorreria. Talvez neste capítulo cometa minha maior indiscrição como pesquisador, pois uma de minhas conclusões e de que assim como os jesuítas no período colonial contavam com o apoio do Vaticano para catequisar os povos indigenas nas suas missões ao Mundo
Novo, a Opus Dei é a aposta da Santa Sé para a evangelização de um mundo cheio de novos valores que exige da Igreja novas estratégias não só de discurso, mas também de ação, tal como propõe a Opus Dei, por meio de um trabalho silencioso em meio ao mundo, uma não dissociação entre a vida religiosa e a vida laica e a santificação do trabalho .