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Uma formação ideológica deve ser entendida como a visão de mundo de uma determinada classe social, isto é, um conjunto de representações, de idéias que revelam a compreensão que uma dada classe tem do mundo, mas como vimos no discurso religioso essas classes sociais se misturam e representam diferentes grupos que hora convergem e ora se afastam em função do papel social da Igreja.

Como não existem idéias fora dos quadros da linguagem, entendida no seu sentido amplo de instrumento de comunicação verbal ou não-verbal, essa visão de mundo não existe desvinculada da linguagem. Por isso, a cada formação ideológica corresponde uma formação discursiva, que é um conjunto de temas e de figuras que materializa uma dada visão de mundo. No caso da Opus Dei essa visão de mundo sugere bastante ortodoxia e uma vigilância constante do fiel em busca de santificação, controlando sua leitura, sua forma de se expressar, suas receitas financeiras, seu corpo, por meio da mortificação e principalmente sua vida sexual. Essa formação discursiva é ensinada a cada um dos membros de uma sociedade ao longo do processo de aprendizagem ideológico-espiritual-lingüística. É com essa formação discursiva assimilada que o homem constrói seus discursos, que ele reage lingüisticamente aos acontecimentos, e no caso da Opus Dei ela será responsável por eliminar a espontaneidade dessas reações, tornando todos parte um discurso único e homogêneo, tornado o discurso um lugar de mera reprodução ao invés da criação. Assim como uma formação ideológica impõe o que pensar, uma formação discursiva determina o que dizer. Há, numa formação social, tantas formações discursivas quantas forem as formações ideológicas, no entanto a complexidade de formações ideológicas que vimos na Igreja como uma instituição universal é eliminada na Opus Dei, pois o processo de seleção e proselitismo dos soldados de Escrivá, ocorre nas melhores escolas, sendo estes mais familiarizados como a ideologia dominante e egressos da classe dominante mais familiarizados com o discurso a ser reproduzido: o discurso da prelazia é o discurso dominante da classe dominante.

Mesmo intuindo que as visões de mundo não se desvinculam da linguagem, porque a ideologia vista como algo imanente à realidade é indissociável da linguagem, no caso da Opus Dei, as idéias e, por conseguinte, os discursos não me parecem expressão da vida real, pois o ordo de costumes impostos aos seus membros fetichizam a vida real, tornando o discurso um ideal permanente a ser perseguido e com a anuência de seu reprodutor vigiado e punido, tal como já vimos em Foucault, ao menor sinal de flerte com a

vida real, e a realidade não real, ou artificial, criada pela Opus Dei, exprime-se pelos discursos.

Alguns lingüistas e psicólogos julgam que existe um pensamento puro pré- lingúístico e, ao lado dele, a expressão lingüística que lhe serve de invólucro. Outros afirmam que é impossível pensar fora dos quadros da linguagem.

Essa problemática me parece fortemente marcante no discurso da Opus Dei, pois se aceitarmos a idéia de seus críticos que os acusam de lavagem cerebral, a inferência dar-se-ia no pensamento pré-linguístico, mas se aceitarmos que o sujeito seja convencido ou tocado pela Verdade, ou Espírito Santo, ou o nome que queiramos chamar, lhe foi necessário conceituar todos esses fatores, tornando impossível conceber esse pensamento fora de linguagem. O problema começa com o próprio conceito de pensamento. Se imaginarmos que pensamento seja a "faculdade de se orientar no mundo", ou o "reflexo subjetivo da realidade objetiva", ou ainda "a faculdade de resolver problemas", então podemos concluir que há um pensamento verbal e um pré-verbal, pois todos os animais fundam seu comportamento numa certa orientação no mundo, num certo reflexo subjetivo da realidade objetiva ou numa certa capacidade de solucionar problemas. Mas se dissermos que o que caracteriza o pensamento humano é seu caráter conceitual, o pensamento não existe fora da linguagem.

Há processos mentais que escapam ao nível puramente lingüístico, mas, a partir de uma certa idade, o pensamento torna-se predominantemente conceitual e este não existe sem uma linguagem, mas isso pode mudar por meio de técnicas como a da mortificação corporal, coerção psicológica por períodos prolongados, isolamento entre outras. O cérebro funciona de maneira muito complexa, mas os estudos de psicologia genética e das patologias lingüísticas demonstram que a ausência de uma linguagem, qualquer que ela seja, impossibilita o exercício do pensamento conceitual. Quando se diz que não há idéias independentemente da linguagem, está-se falando de pensamento conceitual.

Para Schaff (1962), o pensamento e a linguagem são dois aspectos de um único processo: o do conhecimento do mundo, da reflexão sobre esse conhecimento e da comunicação de seus resultados.

Segundo Vygotsky (1934) , apesar de o pensamento e a linguagem serem diferentes em sua origem, ao longo do processo evolutivo, soldam-se num todo indissociável

de forma que, no estágio do pensamento verbal, torna-se impossível dissociar as idéias da linguagem. Pensamento e linguagem são distintos, mas inseparáveis.

Por causa dessa indissociabilidade, pode-se afirmar que o discurso materializa as representações ideológicas. As idéias, as representações não existem fora dos quadros lingüísticos. Por conseguinte, as formações ideológicas só ganham existência nas formações discursivas, tal como propomos analisar aqui o livro-base de toda a doutrina da Opus Dei.

Surge, porém, um problema: se o pensamento e a linguagem são indissociáveis, onde fica a consciência individual?

Marx e Engels afirmam, em A ideologia alemã, que a "linguagem é a consciência real". Bakhtin diz que a "consciência constitui um fato socioideológico", pois a realidade da consciência é a linguagem. Segundo esse último autor, sem linguagem não se pode falar em psiquismo humano, mas somente em processos fisiológicos ou processos do sistema nervoso, pois o que define o conteúdo da consciência são fatores sociais, que determinam a vida concreta dos indivíduos nas condições do meio social. A percepção bakhtiniana do problema me parece antecipar um fator que ao longo da convivência com alguns dos membros pude notar, grande parte dos membros da Opus Dei com quem tive contato pareciam ter uma predisposição em aceitar a autoridade, muitas vezes oriunda de formações familiares muito rígidas e outras por identificarem na sujeição religiosa a oportunidade de deixar de responder seus grandes questionamentos humanos, invariavelmente ligados a sexualidade.

O discurso não é, pois, a expressão da consciência, mas a consciência é formada pelo conjunto dos discursos interiorizados pelo indivíduo ao longo de sua vida. O homem aprende como ver o mundo pelos discursos que assimila e, na maior parte das vezes, reproduz esses discursos em sua fala.

O pensamento dominante em nossa sociedade reluta em aceitar a tese de que a consciência seja social, pois repousa sobre o conceito de individualidade e concebe, assim, a consciência como o lugar da liberdade do ser humano. No âmago de seu ser, ele estaria livre das coerções sociais. Desses conceitos derivam as idéias de uma liberdade abstrata de pensamento e expressão e de uma criatividade, que seria preciso cultivar, pois ela seria a expressão da subjetividade individual. A partir deste ponto, podemos inferir que os sujeitos mais atraídos por este discurso possuem uma predisposição tácita a sujeição ou em outros

casos buscam um grupo para afirmar sua individualidade a partir da ruptura com os valores sociais correntes em eu tempo.

A confusão dessas idéias radica-se no próprio conceito de indivíduo, porque o homem não é apenas uma individualidade que reside no espírito. É também e principalmente produto de relações sociais ativas e inteligentes, ou seja, que dependem, como mostrava Gramsci, do grau maior ou menor de inteligibilidade que delas tenha o homem individual. Como as relações de que o homem participa são, em geral, necessárias, não há a possibilidade de existir um homem livre de todas as coerções sociais. Isso não ocorre nem mesmo no interior do ser humano. Sabemos que as normas sociais impõem até que desejos são admissíveis e que desejos são inadmissíveis, o que compõem o campo de filiação ao discurso do Opus Dei, pois ou o aceito como uma continuidade da vida de coerções as quais estou habituado, por meio da escola, da família ou da religião, ou o aceito como uma forma de confrontar a coerção do tempo em que vivo, que como vimos tendemos a considerar tempos de decrepitude, para reafirmar um valor superior com um grupo sobre a sociedade como um todo. A meu ver aqueles que são oriundos do primeiro grupo me parecem mais aptos a suportar a vida de privações do que o segundo, mais idealizador, e por isso mais instável ao longo do tempo.

O discurso, por sua vez, também é determinado por coerções ideológicas. Ora, se a consciência é constituída a partir dos discursos assimilados por cada membro de um grupo social e se o homem é limitado por relações sociais, não há uma individualidade de espírito nem uma individualidade discursiva absoluta. No entanto o que surpreende na formação discursiva da Opus Dei é a adesão absoluta a uma coletividade discursiva que oprime.

Um recurso amplamente utilizado pela Opus Dei é a utilização de um léxico próprio, que pode ser considerado um chavão, que assim como se reproduz em todos os grupos, níveis da fala, diferentes esferas sociais e categorias profissionais,a prelazia utiliza com muita eficácia. Num jogo de linguagem, os chavões têm servido como autênticas peças, ao que alguns chamariam de a mais fina forma de reificação do pensamento, volta e meia sitiado por ofegantes tentativas de criatividade. Segundo Tognolli (2001, p.19)temos aqui, diga-se, um terminus ad quem: palavras-peça que dão respostas imediatas a cada jogo, a cada interação, sem que a palavra passe, necessariamente, pelo processo do pensamento, isto é, a simbolização.

Em Platão a busca pela verdade pressupunha, por exemplo, um sistema em que a verdade — que habita a consciência platônica — fosse fruto de um jogo em que a "idéia" procura copiar a realidade, de forma que sejam expulsos os simulacros das cópias (Garcia- Roza, 1984, p. 10). Num neoplatonismo, diríamos, lugares-comuns não passam de simulacros, formas fixas que impediriam a busca dessa "verdade". Qual seria então o processo dessa "verdade"? Em nossa leitura, trata-se daquele pelo qual as palavras tornam-se unidades verbais e mentais, não apenas de uso prático, urna vindicação postulada no último lustro finissecular por gente tão diferente quanto Adam Schaff, Alfred Lorenzer e Jiirgen Habermas. (Jorge Luis Borges, o mago da Calle Maipu, cairia bem aqui como o indesviável defensor de outros caminhos que não esse: "[...] revivi a tremenda conjetura / de Schopenhauer e de Berkeley / que declara que o mundo / é uma atividade da mente, / um sonho das almas,/ sem base nem propósito nem volume".) (Borges, 1989)

Partindo do Hegel do capítulo 4 de Fenomenologia do espírito (Hegel, 1991, p.23), começa a idéia de que a consciência só se encontra quando reconhecida por outra cons- ciência, que a ela se verga reconhecendo sua "superioridade". O pensamento hegeliano postula que o sujeito, portador da consciência, jamais se reconhecerá como mero contemplador de um objeto pois, no jogo sujeito—sujeito há o rendez-vous da interação social. Se aplicarmos aqui a ideia de que no mundo dos chavões as palavras nada mais são que peças verbais, jamais mentais, chegamos ao ponto em que a linguagem, quando recheada de clichês, deixa de ser portadora da mínima conscientização, inibe o processo de interação social. É óbvia, portanto, a conclusão: a linguagem ganha a condição de objeto material. Estamos em pleno mundo do cogito cartesiano (Bodei, 1986, p.110): pensar comporta a condição da palavra que, na ótica de Adam Schaff, deveria ser idealmente uma unidade verbal e mental. Nem precisamos falar então que, quando enveredamos pelo mundo dos chavões, tratamos de formas fixas que prescindem de pensamento e simbolização. Estamos agora em pleno terreno do platonismo: talvez o que mais tenha cunhado o pensamento platônico sobre o mundo das palavras não seja a briga entre o que nos aparece e o que é, entre o modelo e a cópia. O pensamento platônico visa, sobretudo, expulsar os simulacros das cópias, feitas ao pé de modelos imitados, e simulacros como perversões ou desvios dos modelos. O reinado dos chavões é, portanto, o principado do simulacro, visto como perversão ou desvio dos modelos.

De acordo com Silberstein ( 2005, p.21), existe na Opus Dei, uma série de termos especiais internos: “são as gírias que só eles entendem”. Com isso, os jovens sentem- se parte de algo diferente, julgam-se especiais e privilegiados, por pertencerem a um grupo seleto. As gírias às quais se refere, chamaremos de chavão no sentido descrito anteriormente. Veja a lista no Anexo 1 -Glossário extraída do livro Opus Dei – A Falsa Obra de Deus, de onde foram suprimidas as siglas referentes a instituições fora do Brasil e palavras que possuam sentido lexical comum, ou seja, possam ser encontradas no dicionário.