• No results found

Per Anders Eskås, Sondre Heimark, Julian Eek Mariampillai

A partir do número e da proporção de empresas que atingiram seus níveis máximos de capacidade tecnológica na área de revestimento e completação de poços para cada período, como informado na subseção 5.1.1.2, por meio das Figuras 5.3 e 5.4, foi possível traçar três tra- jetórias distintas de acumulação de capacidades tecnológicas dessa área. Essas trajetórias estão representadas na Figura 5.11.

Figura 5.11. Padrões de acumulação de capacidades tecnológicas na área

de revestimento e completação de poços (2003-2014)

2003-2005 2006-2008 2009-2011 2012-2014 Padrão 1 Revestimento: manutenção em capacidade inovadora intermediária

Padrão 2 Revestimento: evolução da capacidade de produção à capacidade inovadora avançada Padrão 3 Revestimento: manutenção em capacidade inovadora avançada

Nível 5 Capacidade inovadora liderança mundial Nível 4 Capacidade inovadora avançada Nível 3 Capacidade inovadora intermediária Nível 2 Capacidade inovadora básica Nível 1 Capacidade de produção Fonte: Os autores (2016).

A Figura 5.11 evidencia três padrões de acumulação de capacidades tecnológicas na área de revestimento e completação de poços: (i) Padrão 1 Revestimento: permanência em capacida- de inovadora intermediária, representando 20% da amostra; (ii) Padrão 2 Revestimento: evolu- ção de capacidade de produção à inovadora avançada, representando outros 20% da amostra; (iii) Padrão 3 Revestimento: permanência em capacidade inovadora avançada, representando os demais 60% da amostra. Enquanto os Padrões 1 e 3 mantiveram-se estáveis em todo o período analisado, o Padrão 2 teve seu ponto de inflexão entre os triênios 2009-2011 e 2012-2014. As características principais de cada um dos três padrões são destacadas a seguir.

(i) Padrão 1 Revestimento: permanência em capacidade inovadora intermediária

O Padrão 1 Revestimento foi composto por empresas que, no período estudado nesta pes- quisa, se mantiveram no nível de inovação intermediário, ou seja, foram capazes de realizar ati- vidades relativamente complexas baseadas em engenharia e experimentações. Embora tenham estado estabilizadas no nível intermediário de inovação, em oposição às empresas do Padrão 2 Revestimento, tiveram iniciativas de tentativa de acúmulo de nível de capacidade que se mos- traram insuficientes.

As empresas deste padrão mostraram-se satisfatoriamente organizadas em relação à oti- mização do seu processo produtivo e alguns esforços para a realização de inovações incremen- tais, conforme esclarece a fala do representante da empresa Sigma:

Temos fábrica no Brasil de equipamentos de completação, em que fazemos algumas melhorias nos produtos.

No entanto, sua permanência no nível de capacidade intermediário deveu-se, principal- mente, à ausência de iniciativas mais robustas na direção de criar um departamento de P&D brasileiro capaz de implementar atividades inovadoras próximas àquelas realizadas pelos líderes globais da indústria, característica fundamental para obtenção do nível de capacidade tecnoló- gica avançada.

A operadora precisou de uma ferramenta de completação que desse maior diâmetro e uma vál- vula de segurança maior. A gente fez especificamente para eles, passamos a demanda para o centro de pesquisa fora do Brasil (Gerente de Vendas e Marketing da empresa Sigma).

Ainda, percebe-se um uso não sistemático e pontual de parceiros. Embora houvesse relatos de ganhos por meio dessas parcerias, não houve iniciativas compatíveis com o nível avançado em revestimento e completação de poços, principalmente na criação de arranjos organizacio- nais envolvendo interações entre P&D, engenharia, produção, marketing, fornecedores e clientes para suporte às atividades de inovação em processos de produção.

Íamos começar a fazer P&D aqui, mas aí veio a crise a acabou a demanda. Só tem um operador, a Petrobras (Gerente de Vendas e Marketing da empresa Sigma).

(ii) Padrão 2 Revestimento: evolução de capacidade de produção à inovadora avançada

O Padrão 2 Revestimento foi composto por empresas que avançaram suas capacidades de produção para capacidade inovadora avançada, entre os triênios 2009-2011 e 2012-2014. Es- sas empresas, entre 2003 e 2011, apenas eram capazes de fabricar produtos e/ou serviços nas áreas de equipamentos de completação, revestimento e instalação de tubulação de produção e implementar atividades de produção com o uso das mais avançadas técnicas de organização da produção e com base em certificações internacionais. Nos anos posteriores, passaram a ser capazes de implementar atividades inovadoras próximas àquelas realizadas pelos líderes globais no Brasil, refletindo uma estratégia de fast follower, à base de P&D aplicados e engenharia para o desenvolvimento de processos de produção nas áreas de OCGT, equipamentos de revestimento e cimentação (casing hardware) ou serviços de bombeamento de pressão. Contudo, isso não su- gere que as empresas do Padrão 2 Revestimento continuaram avançando e alcançaram o nível de liderança mundial nos anos posteriores a 2014.

O aumento de nível de capacidade de produção para inovadora avançada deu-se por dois motivos principais. O primeiro partiu de uma estratégia das empresas de adquirir outras já esta- belecidas no setor de petróleo e gás que possuíam níveis mais elevados de capacidade inovado- ra. O outro foi a criação de centros de P&D no Brasil.

Lembre-se de que a Delta é nova no mercado. Antes, ela era baby steps no Brasil. A empresa vem mudando sua estratégia para petróleo e gás. Ela comprou três empresas do setor de petróleo e criou o centro de pesquisa.

[...]

Antes da criação do centro de pesquisa, o desenvolvimento de produtos específicos para petróleo era feito lá fora (Diretor Executivo da empresa Delta).

Percebe-se um esforço mais propositivo das empresas em fortalecer parcerias com clien- tes. As empresas também informaram que foram capazes de implementar atividades inovadoras próximas àquelas realizadas pelos líderes globais da indústria, porém P&D básicos ainda não eram realizados de forma sistemática.

Temos um Termo de Cooperação Tecnológica com as operadoras, com quem estamos fazendo pesquisa em algumas áreas específicas. Muito para o fluido, cimentação e químicos.

[...]

Fazemos pesquisa pura, um conceito novo que tende a ser provado. Temos laboratórios de flui- dos, cimentação, simuladores, de modo que conseguimos fazer alguma pesquisa pura (Analista

de Mercado e Negócios da empresa Épsilon).

Diferentemente das empresas do Padrão 1 Revestimento, as empresas deste padrão mos- traram-se capazes de criar arranjos organizacionais envolvendo interações entre P&D, engenha- ria, produção, marketing, fornecedores, clientes e/ou universidades e institutos de pesquisa para suporte às atividades de inovação em processos de produção.

No centro de P&D, existem vários setores que avançaram na pesquisa, tanto de materiais quanto de ciência e aplicação da ciência, pois uma organização que tenha acesso aos dois lados poderá trazer ao campo, trazer mais ao petróleo, provar essa tecnologia junto aos nossos clientes, po- dendo ter adoção no mercado (Diretor Executivo da empresa Delta).

(iii) Padrão 3 Revestimento: permanência em capacidade inovadora avançada

O último padrão para a área de revestimento e completação de poços compreendeu em- presas que permaneceram em nível de capacidade tecnológica avançada, ou seja, no período estudado, mantiveram-se capazes de implementar atividades inovadoras próximas àquelas rea- lizadas pelos líderes globais, refletindo uma estratégia de fast follower, à base de P&D aplicados e engenharia, internamente e/ou em colaboração com universidades e institutos de pesquisa.

As empresas do Padrão 3 Revestimento, que representaram a maior parte da amostra, no período estudado realizaram atividades de P&D aplicados e engenharia em atividades como: desenvolvimento de processos de produção nas áreas de OCGT, equipamentos de revestimento e cimentação (casing hardware) ou serviços de bombeamento de pressão e melhorias na tecno- logia de colunas de perfuração, revestimento de poços e tubulação de produção. A fala dos re- presentantes das empresas Digama e Zeta exemplificam algumas das tecnologias desenvolvidas por essas empresas:

Um exemplo de inovação incremental foi em relação às ferramentas, que ficam dentro do duto com alta pressão, alta temperatura, alta vibração e produtos químicos que atacam os compo- nentes. A gente fez algumas melhorias no processo de encapsulamento dos sensores, que foi até uma coisa que aconteceu internamente com a participação dos funcionários que são técnicos de montagem. Foi revisto o processo de montagem de uma parte da ferramenta, que reduziu o custo e aumentou a qualidade (Presidente da empresa Digama).

Desenvolvemos um cimento que, se a cimentação tiver algum crack, alguma fissura, e começar a fluir o gás com alto teor de gás carbônico, incha e fecha a fissura. Então, é um cimento que, após ser fissurado, até em função mesmo dos movimentos tectônicos do pré-sal, que podem quebrar aquele cimento e começar a permitir passar gás, se cicatriza. O pré-sal tem bastante gás carbôni- co. Os componentes que estão dentro do cimento são novas tecnologias, desenvolvidas e aplica- das aqui (Diretor da empresa Zeta).

Essas atividades, por sua vez, ocorreram especificamente em departamentos dedicados de P&D ou, em algumas empresas, em centros de pesquisa. As empresas pesquisadas, majo- ritariamente de capital estrangeiro, informaram que as atividades de P&D realizadas no Brasil desempenharam o mesmo nível de complexidade que os demais departamentos das empresas no mundo:

A empresa possui departamento de P&D, o qual está conectado aos outros departamentos de P&D da empresa no mundo. Ao todo, são cem pessoas ligadas às atividades de P&D no Brasil. O departamento de P&D brasileiro possui o mesmo nível de capacitação que os outros departa- mentos da empresa (Presidente da Região Brasil da empresa Iota).

O segmento de equipamentos para teste avançou muito nos últimos anos. Tentou-se, com bas- tante sucesso, criar centros de excelência aqui no Brasil nesse segmento para poder fazer esses testes aqui, desenvolver conhecimento, desenvolver tecnologia (Diretor de Tecnologia da em-

presa Capa).

Outra característica comum às empresas do Padrão 3 Revestimento foi a utilização de tec- nológicas emergentes, como big data e nanotecnologia, nos seus processos produtivos e ino- vativos, além da interação constante, sobretudo, com universidades e institutos de pesquisa e clientes.

A gente tem a parte grande, onde é realmente uma inovação com patente, com produto inova- dor no mercado, até a coisa incremental ali que vem justamente da base do dia a dia da empresa sugerindo uma melhoria num processo. Então, a gente consegue trabalhar nelas, navegar nessas duas, nesses dois mares (Presidente da empresa Digama).

A permanência no patamar de nível de capacidade avançado, embora tenha havido diver- sos investimentos em desenvolvimento de atividades inovadoras, deveu-se, principalmente, à incapacidade dessas empresas de implementar tecnologias de processo e organização da pro- dução novas para o mundo e que abrissem oportunidades para a entrada em novos negócios. O representante da empresa Gama caracteriza a relação com os clientes:

Nós só produzimos e inovamos à medida que recebemos uma encomenda. E só recebemos en- comenda à medida que o operador decide desenvolver um campo com base em dois fatores: a viabilidade técnica do campo e a viabilidade econômica do campo.

Para que as empresas do Padrão 3 Revestimento atingissem o nível de liderança mundial, deveria haver maior aproximação do desenvolvimento de ciência básica, tanto para o desenvol- vimento de novos materiais e tecnologias que reduzem significativamente os impactos ambien- tais dos processos de produção quanto para o desenvolvimento de novos insumos para OCGT, equipamentos de revestimento e cimentação (casing hardware) ou serviços de bombeamento de pressão.

5.1.2.3 Padrões de acumulação de capacidades tecnológicas