4. Resultater
4.2 Pedagogenes erfaringer med utviklingstraumer
Seguramente, as publicações de Alexander von Humboldt contribuíram para popularizar as idéias de seu irmão mais velho - Wilhelm von Humboldt -, durante o século XIX. Os trabalhos de Wilhelm von Humboldt fundamentaram um projeto científico que constituiu as bases da antropologia e da linguística comparativa praticadas à época. Segundo argumentação do linguísta prussiano, o gattungscharakter da humanidade, isto é, o caráter da humanidade como espécie, realiza-se, historicamente, “em uma variedade quase ilimitada de nationalcharaktere (caracteres nacionais) ou volkscharaktere (caracteres de povos) que, por sua vez, refletem-se diretamente nos costumes, nas crenças, nas línguas e nas artes de cada povo e época” (Frank, 2005, p. 565). A partir desse pressuposto, o linguista propõe que se estudem os condicionamentos metafísicos do espírito humano, por meio da observação empírica
dos inúmeros elementos culturais, linguísticos e ambientais ligados à existência de diferentes povos. Essa observação empírica, holística e não reducionista, recairá, inevitavelmente, sobre os nationalcharaktere, sobre os volkscharaktere e sobre contextos históricos e sociais distintos. Entretanto, para o pensamento de Humboldt, por trás de toda essa diversidade, de toda essa complexidade, o verdadeiro cientista é aquele capaz de reconhecer o gattungscharakter da humanidade, onde quer que ele desenvolva sua pesquisa (cf. Frank, 2005).
Tal orientação metodológica fundamenta a obra Kosmos, de Alexander von Humboldt - um tratado sobre ciência e natureza, resultado de uma série de aulas do explorador alemão na Universidade de Berlim, publicado em cinco volumes entre 1845 e 1862. Nesse texto, o autor procura provar que tudo está inter-relacionado, por uma força unificadora singular da natureza. Kosmos é a última obra de Humboldt, uma obra de síntese, na qual o naturalista alemão dedica-se a promover o aperfeiçoamento da humanidade, procurando disseminar o know-how técnico e disponibilizar, a todas as nações, os benefícios da ciência (cf. Humboldt & Bromme, 1845).
Como a compreensão do caráter da humanidade só pode ser acessada pelo estudo comparativo dos caracteres nacionais de povos distintos, a antropologia e a linguística comparada ganham uma importância central nesse modelo. Tudo interessa ao pesquisador: dados sobre o contexto físico e cultural, aspectos ligados à lingua e à mitologia, observações relativas à Geografia, à Mineralogia, à Etnografia etc. Todas as especificidades guardam o universal. Sem a investigação comparada sobre o particular, não se chega à unidade que liga todas as coisas e define o gattungscharakter da humanidade8.
As ideias dos irmãos Humboldt lançaram as bases para a exploração americana pelos naturalistas europeus, no século XIX. Impressionam a quantidade de assuntos tratados e a abordagem minuciosa desses assuntos em Relation historique du voyage aux régions équinoxiales du nouveau continente (cf. Humboldt & Bonpland, 1825). A pesquisa detalhada e atenta de aspectos fisícos e culturais múltiplos está plenamente justificada pelo modelo científico em questão, no qual a filologia e a antropologia comparadas jogam papel fundamental na busca pelo caráter da humanidade como espécie.
Como membros da classe dos Bildungsbürgertum - burguesia de educação ou de formação na Alemanha da época - os Humboldt acreditam na ciência como motor para o desenvolvimento da humanidade:
A principal característica da classe foi, é claro, a sua Bildung, conceito que no alemão da época significava muito além de ‘educação formal’. Na realidade, o Bildungsideal visou em relação a ela e de maneira central o aperfeiçoamento sistemático (consciente e constante) da Seele (alma, espírito) de cada um de seus integrantes, via o trabalho dedicado, o estrito autocontrole (disciplina, austeridade) e os estudos continuados (leitura) nos campos tanto das ciências (principalmente filosofia e história) como da poesia – ideal considerado plenamente pelos grandes filósofos-poetas alemães do século XVIII (de Lessing a Goethe). Filosoficamente idealista, politicamente liberal e humanista no que dizia respeito ao ético-moral, os Bildungsbürger entenderam-se como elite não em contraste com o ‘povão’, mas em função dele. (Frank, 2005, pp. 563-564)
De fato, o cientificismo humboldtiano está fortemente marcado, como vimos, por um pensamento universalista, holístico. Com o avanço do capitalismo mundial, a ciência, sobretudo a ciência de caráter empírico, alcança um poder e uma influência jamais vistos até então. A institucionalização do conhecimento científico, organiza, a partir daí, o eixo mesmo dos principais modos de produção e da escalada capitalista internacional, estimulando o segundo movimento de globalização empreendido pela
Europa, nesse contexto: a globalização de caráter industrial e neo-colonialista do século XIX.
Movido entre a ciência e o romantismo, entre a investigação empírica e a poesia, Alexander von Humbldt será o responsável pela inversão da imagem negativa da América, sustentada, até aquele momento, pelas idéias de Buffon e De Pauw, tal como indicamos anteriormente. Nesse sentido, Humboldt reinventa a América. As proclamadas riquezas do Novo Continente vão estimular, paradoxalmente, os ímpetos de liberdade de homens americanos, assim como os interesses econômicos e expansionistas europeus. Daí a complexidade sempre presente na obra e na biografia do naturalista alemão.
No que diz respeito à produção gramatical quéchua desenvolvida no século XIX, demonstraremos, no Capítulo IV, a seguir, que as perspectivas universalistas e comparatistas dos irmãos Humboldt ressoam, por exemplo, na obra do missionário italiano Don Miguel Angel Mossi (1819-1895) - Manual del idioma general del Perú. Gramática razonada de la lengua qíchua; comparada con las lenguas del antigo continente - publicada em Córdoba, na Argentina, no ano de 1889. Assim como os Humboldt, Mossi (1864) acredita no “farol da filogogia” como estratégia linguística contrastiva eficiente na busca pelos elementos universais da linguagem verbal (cf. Mossi, 1864, p. 21).
Por outro lado, tendo em vista, principalmente, os textos prefaciais das gramáticas quéchuas selecionadas para esta Investigação, avaliaremos, nas seções posteriores, quais retóricas assumem os autores examinados, no século XIX: alinham-se a Buffon e a De Pauw, destacando a imaturidade e a decadência do continente americano? Ou, a exemplo de Humboldt, exaltam as riquezas e as potencialidades do
Novo Continente, ainda que num quadro idealista perpassado pela ideia de hierarquização das culturas e das línguas?
Além de Humboldt - em viagem pela América entre os anos de 1799 e 1804 - outros destacados exploradores europeus, como Jakob Von Tschudi (1818-1889) e Clements Markham (1830-1916), visitaram terras sul-americanas: o primeiro em 1838 e o segundo de 1852 a 1853. Tschudi é citado textualmente no projeto gramatical de Anchorena (1874); Markham, por sua vez, produz uma gramática e um vocabulário quéchua (cf. Markham, 1864), depois de documentar, em texto de 1856, aspectos da história, da língua, da literatura e da cultura inca, como resultado das observações empreendidas durante sua expedição (cf. Markham, 1856).
De todo modo, neste Estudo, consideraremos o ideário de Humboldt, apresentado sinteticamente, neste Capítulo, como critério para examinar a imagem que os gramáticos quéchuas do século XIX constroem para o homem e a língua andina. Humboldt marcou, em boa medida, a consciência americana, ajudando a construir novos caminhos da modernidade em terras além-mar. A compreensão do século XIX, principalmente no que se refere à linguística a à antropologia, é devedora da presença e da penetração dos Humboldt no cenário científico mundial.
CAPÍTULO IV
A HISTÓRIA QUE CONTAM OS TEXTOS PREFACIAIS DAS GRAMÁTICAS QUÉCHUAS PRODUZIDAS ENTRE OS SÉCULOS XVI E XIX - POLÍTICA
LÍNGUÍSTICA E DISCURSO GRAMATICAL
Depois da pequena contextualização desenvolvida nas seções anteriores, objetiva-se, neste quarto Capítulo, examinar os prólogos que servem à gramaticografia quéchua fixada para esta Investigação. Tais prólogos foram reunidos em três grupos distintos, tendo em vista, fundamentalmente, a periodização estabelecida neste contexto: aqueles que representam a fase dominicana, entre o Primeiro e o Segundo Concílios Limenhos; aqueles enquadrados na fase jesuítica, no período colonial posterior ao Terceiro Concílio Limenho; e aqueles produzidos no contexto republicano, após a independência das nações sul-americanas.
Tal como explicitamos no segundo Capítulo, são três os conjuntos de parâmetros que servem à análise dos textos prefaciais em questão: o primeiro diz respeito à política linguística, em âmbito colonial e republicano, que orienta a produção gramatical dos autores; o segundo, à imagem da língua e do homem quéchua que emerge em cada discurso gramatical específico; o terceiro, ao tratamento da variação linguística evidenciado em cada caso.
Como metodologia de trabalho, operamos, neste quarto Capítulo, com categorias analíticas clássicas da linguística da enunciação e da semântica do discurso, como os conceitos de inferência (pressupostos e subentendidos), seleção lexical e valor afetivo dos vocábulos, intencionalidade enunciativa, debreagem enunciva e enunciativa, efeito de objetividade e subjetividade, dentre outros, de modo a flagrar os objetivos centrais dos diversos enunciadores em seus contextos discursivos e gramaticais próprios (cf. Fiorin, 1999; Firon, 2004; Fiorin, 2005; Levinson, 2007)
Em ordem cronológica, apresentamos, a seguir, os resultados obtidos de nossas análises.