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O projeto missionário jesuítico para as terras espanholas sul-americanas estendende-se, de fato, por todo o período colonial posterior ao 3CL, sem alterações significativas (pelo menos até a Real Cédula de 1768), como indicam os demais prólogos gramaticais a serem examinados neste Capítulo.

Com efeito, dada a longa vitalidade das decisões conciliares do 3CL - que vigora até o ano de 1900 (cf. Mateos, 1947, pp. 523-524, apud García, 1986, pp. 177-178) - as gramáticas produzidas sobre o quéchua, depois do texto anônimo de 1586, respondem às imposições sancionadas pelo terceiro concílio de Lima, formalizadas entre 1582 e 1583.

A gramática de González Holguín (1607) é a primeira, no início do século XVII, a retomar os estudos linguísticos, sobre a língua andina, e o faz em grande estilo: o jesuíta, depois de 25 anos de pesquisas empíricas em território peruano (cf. González Holguín, 1607, p. 4r - El avtor al pio lector), elabora um importante tratado gramatical com inúmeras informações e análises da língua-objeto que repercutem até os dias de hoje (cf. Calvo Pérez, 1993, p. 17; Cerrón-Palomino, 2003, p. 93). Do ponto de vista linguístico, portanto, a obra de Holguín (1607) contribui, efetivamente, para o avanço do conhecimento sobre o quéchua colonial, com propostas inéditas para a descrição da

categoria de caso dos nomes substantivos - como o tratamento objetivo para o fenômeno da subdeclinação, a ser explorado em Capítulo posterior. Examinado, entretanto, em perspectiva política, o projeto gramatical de 1607 mostra-se conservador: preserva, de maneira rigorosa, as deliberações impostas pelo 3CL, notadamente em relação à variante linguística selecionada - o dialeto cuzquenho, empregado pelo jesuíta na Arte de 1607 e no vocabulário de 1608.

De todo modo, o missionário, como seus predecessores, assume as tarefas apostólicas locais como determinantes para a salvação dos nativos:

Todos culpan alos yndios, que aun son ydolatras hechizeros, que no tienen fee, que son incestuosos, y borrachos mas pocos les ayudan con la predicacion, y Dios creo no ha de echar tãta culpa a ellos como a nosotros que no les predicamos [...] Mas las ocupaciones vanas aca son las cadenas con que esta atada la palabra de Dios [...] (González Holguín, 1607, p. 3r - Dedicatoria)

De fato, reproduzindo uma argumentação corrente entre os religiosos de seu tempo, González Holguín (1607) considera menos culpados os indígenas, tidos como idólatras, que os sacerdotes entregues a vãs ocupações. Do ponto de vista do jesuíta, os cuidados com a predicação apostólica dirigida aos nativos eram menosprezados, fato que justifica, nesse contexto, a publicação de sua Arte:

Por lo qual Señor viendo yo y considerando este daño delas almas, y que era necessario que ayudassemos a su reparo todos, me he movido a componer esta Arte endereçada no tãto a enseñar a los curas para confessar, que para esse bastaua la que auia, sino para ayudar alo que tanto desseo que reparemos, que es la predicacion euangelica y apostolica, porque con esta Arte con sus adiciones de copia y elegancia con solo querer estudiar por si aunque sin maestro podran los curas saber para predicar y perder el miedo que tienẽ los que no tienen copia ni saben la elegancia [...] (González Holguín, 1607, p. 3v - Dedicatoria)

Observemos que, pelas palavras do autor, sua gramática - mais do que ensinar os curas a predicar em língua geral - prevê o aprofundamento da compreensão, sobre o

idioma andino, desconhecido, em boa medida, pelos párocos da época. De fato, segundo o que informa o missionário - no prólogo El avtor al pio lector -, o projeto linguístico de 1607 está dividido em quatro livros: a Arte gramatical, propriamente dita, desenvolve-se nos dois primeiros, com “todo lo necessario para saber bien la Lengua y todo lo que pertenece a grammatica”; os dois últimos livros, por sua vez, apresentam adições de “copia y elegancia” para aqueles interessados em alcançar “erudicion y perfeccion enla Lengua” (González Holguín, 1607, p. 4r - El avtor al pio lector).

O terceiro e o quarto livros do projeto gramatical de 1607 demonstram, certamente, o empenho redobrado do autor, no período colonial, em estabelecer muito mais do que uma Arte quéchua destinada ao auxílo das práticas evengélicas. Tais livros sistematizam, de fato, importantes análises descritivas sobre a língua-objeto, como indicamos anteriormente, propondo bem mais do que uma simples exposição normativa das estruturas linguísticas em questão.

De qualquer forma, os sucintos textos prefaciais de González Holguín (1607) desconhecem o tipo de empenho político e ideológico observado no contexto dominicano. O objetivo aqui é outro, de natureza técnica e científica:

Aquel Diuino Theologo San Dionisio Areopagita, entre todas las Artes que han salido a luz y pueden salir, dio la prima y la palma en dignidad a la arte y ciencia de saber reduzir las almas a su criador de sus errores y mala vida [...] Y en buena consequencia lo que mas ayudare a esta tan preciosa y prouechosa ciencia, sera tambien cosa preciosa y estimada enlos ojos de Dios: y esto es el saber las lenguas, que tan necessarias son para la conuersion delas almas. (González Holguín, 1607, p. 3v - El avtor al pio lector)

Com efeito, referindo-se a São Dionísio Areopagita (sécs. V-VI d.C.) - teólogo bizantino cujos escritos exerceram decisiva influência na moral cristã da Idade Média -, o missionário considera, nesse excerto, o conhecimento aprofundado das línguas como

estratégia fundamental para a conversão das almas. A criatividade linguística do autor assegura que o projeto gramatical de 1607 seja, de fato, notável, com impressionantes investimentos nas abordagens de natureza sintática, incomuns para esse contexto. Afastado das polêmicas vividas entre jesuítas e dominicanos (polêmicas que, certamente, Holguín testemunhou), o autor privilegia, desse modo, suas tarefas linguísticas, o que justifica, sem dúvida, o tom mais técnico de seus textos prefaciais. A imagem do homem e da língua quéchua, que daí se depreende, erige-se - sem os apelos apaixonados anteriores - pela nessecidade absoluta da investigação atenta e verticalizada da língua-objeto, capaz de extrair das trevas as almas americanas.

4.3.4 Huerta (1616)

O peruano huanuquenho Alonso de Huerta foi o primeiro criollo a produzir uma gramática sobre o quéchua, publicada no ano de 1616. Huerta - mestre em artes e teologia, cura e capelão em diversas igrejas limenhas e catedrático na língua geral andina - foi quem empregou, originalmente, o termo quechua, substituindo a variante i pela e, por oposição às designações anteriores (quichua, no Anônimo, 1586; qquichua, em González Holguín, 1607) (cf. Cerrón-Palomino, 1985, p. 89; Porras Barrenechea, 1999, p. 170).

No prólogo à gramática de 1616, referindo-se a Bartolomé Lobo Guerrero11 (1546-1622), arcebispo de Lima entre 1609 e 1622, o gramático exalta as qualidades morais de seu superior:

11 Bartolomé Lobo Guerrero, como dissemos, foi o terceiro arcebispo de Lima, de 1609 a 1622. O

primeiro arcebispo da Ciudad de los Reyes foi Jerónimo de Loaysa (1543-1575), da ordem dos dominicanos, que presidiu o Primeiro e o Segundo Concílios Limenhos. O segundo arcebispo de Lima foi Santo Toribio de Mogrovejo (1538-1606), que esteve à frente do 3CL, tal como destacamos, no Capítulo

[...] fue promovido [Bartolomé Lobo Guerrero] a la ciudad de México en la Nueva España, (a) donde pasó diez y siete años de su edad siendo fiscal e inquisidor apostólico en aquella Santa Inquisición, haciendo apartar y apartando la mala semilla y cizaña de la buena [...] como lo mostró en aquel famoso Auto de Fe, que celebró el año de 1596, en que castigó muchos culpados en el judaísmo y observancia de la ley muerta de Moisés [...] que por todo fueron sesenta y ocho personas, cizaña que estaba entremetida entre la buena mies. (Huerta, [1616]1993, pp. 8-9. Os grifos são nossos)

Com efeito, Lobo Guerrero é nomeado fiscal do Tribunal da Inquisição, no México, em 1580, e promovido a inquisidor real em 1593. Como terceiro arcebispo de Lima - em substituição a Santo Toribio de Mogrovejo (1538-1606) - o religioso insiste no cumprimento das resoluções do 3CL, celebrado por seu antecessor, particularmente na necessidade do emprego das línguas indígenas como forma de viabilizar as tarefas apostólicas no Novo Mundo (cf. Moya, 1993, p. XXX). No fragmento anterior, Huerta saúda as façanhas de Lobo Guerrero como inquisidor no conhecido Auto de Fé levado a cabo na cidade do México, em 8 de dezembro de 1596, em que foram torturados e julgados 80 hereges, dentre eles 25 por práticas judaizantes (cf. Barnadas, 1998, p. 540).

De fato, os textos prefaciais da gramática de 1616 - dedicada a Bartolomé Lobo Guerrero, protetor de Huerta na Catedral de Lima (cf. Moya, 1993, p. XXX) - persiste na exaltação das qualidades espirituais do temido inquisidor:

Y aunque pudiera mostrar el amor grande que [...] tiene [Bartolomé Lobo

Guerrero, arzobispo del Pirú], con muchas cosas en particular referiré

solas dos; la una el deseo grande con que procura el buen servicio de su iglesia [...] La segunda razón es el cuidado grande que tiene en procurar el bien espiritual de las almas de estos pobres índios naturales de este reino [...] (Huerta, [1616]1993, p. 9. Os grifos são nossos)

E arremata:

[...] mediante su favor [favor de Bartolomé Lobo Guerrero, arzobispo del

enseño con gran claridad para cuyo efecto tengo hecho un Arte Breve de la dicha lengua y deseando hacerle imprimir, para que todos puedan gozar de él(,) no me atreví a que saliese en público, sino fuese gozando de la protección y amparo de vuestra señoría a quien suplico la favorezca para que habiendo yo ayudado con este pobre trabajo pueda tener efecto el deseo de vuestra señoría de que todos sepan la lengua [...] (Huerta, [1616]1993, p. 10. Os grifos são nossos)

Bem se vê, pelos fragmentos supracitados, a rigidez com que os Tribunais Inquisitoriais espanhóis tratavam as dissenções religiosas na América. O Tribunal Inquisitorial de Lima foi fundado em 1570 e o do México em 1571, ambos posteriores à publicação da gramática dominicana, em 1560, ainda que, segundo Barnadas (1998, p. 540), a Inquisição espanhola, instalada na Península Ibérica por Fernando II e Isabel I de Castela, tenha sido tranferida para terras americanas em 1519, de modo assistemático, inicialmente. De qualquer forma, seguindo rigorosamente as diretrizes do 3CL, Huerta compõe sua Arte quéchua em benefício dos párocos espanhóis que estavam obrigados, nesse contexto, a predicar na língua nativa. Na Catedral de Lima, onde o criollo mantinha a respeitável posição de catedrático em quéchua, as celebrações religiosas eram feitas, em língua ameríndia, do átrio da igreja maior aos indígenas que se encontravam na praça (cf. Porras Barrenechea, 1999, p. 219-220).

Com efeito, Huerta, acolhido e amparado pelos jesuítas, descarta a gramática dominicana ao referir-se, à página 18 de seu projeto gramatical, aos demais trabalhos linguísticos já elaborados sobre o quéchua:

[...] mediante el favor de Dios hemos de tratar y enseñar en este presente arte, que aunque hay otros dos impressos ya; el uno es tan corto, que le faltan muchas cosas que en éste van añadidas, y la claridad y distinción que éste tiene; y el otro es tan abundoso y amplio, que no es para principiantes, que se podrán aprovechar de él los que quisieren después de haber aprendido éste, porque entenderán de él algunas cosas que no podrán entender no sabiendo los princípios que en éste se enseñan. (Huerta, [1616]1993, p. 18)

As duas outras Artes mencionadas pelo criollo são a do Anônimo, de 1586, e a de González Holguín, de 1607, ambas da lavra jesuítica. A primeira, pelas palavras do

autor, é excessivamente curta, e peca, ainda, pela falta de clareza dos temas apresentados. A segunda, por sua vez, é demasiadamente longa, o que dificulta a aprendizagem daqueles que se iniciam na língua andina. Desse modo, o texto gramatical de Huerta, sob os benefícios do terceiro arcebispo de Lima, encontra espaço e divulgação entre os eclesiásticos espanhóis de seu tempo.

A imagem da língua quéchua, nesse contexto, está condicionada, certamente, à austeridade da política linguística vigente. De fato, Huerta identifica, em sua gramática, dois modos distintos de falar, na língua andina: um muito “pulido y congruo”, identificado com a variante cuzquenha (Incasuyo); outro “corrupto, sin pulicía y congruidad”, associado às províncias ao sul de Huamanga (Chinchaysuyo) (cf. Huerta, [1616]1993, p. 18). De qualquer maneira, ainda que assuma a inferioridade da variante Chinchaysuyo, o catedrático peruano permite-se apresentar algumas estruturas linguísticas desse dialeto, confrontando-o com as formas da variante de prestígio.