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How well do the pecking order and the trade off theory explain the findings?

4.3 Random Effects Regression

4.3.3 How well do the pecking order and the trade off theory explain the findings?

A verdadeira obra de arte produz o efeito de suprimir a distinção entre a pessoa a quem se dirige o artista, como de igual modo entre essa pessoa e todas as outras às quais se dirige a mesma obra de arte. E é precisamente nessa supressão de todas as barreiras entre os homens, nesta união do público com o artista, que reside a virtude principal da arte.

(L. TOLSTÓI, 1994, p. 119).

A missão da literatura é fazer comunicar umas almas com as outras, é dar-lhes um mais perfeito entendimento entre elas, é ligá-las mais fortemente, reforçando desse modo a solidariedade humana, tornando os homens mais capazes para a conquista do planeta e se entenderem melhor, no único intuito de sua felicidade.

A exposição das convicções de Lima Barreto e Leon Tolstói sobre arte, nos respectivos textos apresentados anteriormente: “O destino da literatura” e O que é Arte? serviu para que delimitássemos a concepção de arte dos escritores. Em decorrência disso, pretende-se, através da reflexão sobre os textos de Lima Barreto e Leon Tolstói, cotejar e explicar, quando possível, as semelhanças e as diferenças entre ambos.

A herança recebida de Leon Tolstói, por Lima Barreto, reside, ao que tudo indica, na concepção de Arte postulada pelo escritor russo, explícita no livro O que é a Arte? (1898). Conforme Leon Tolstói, esse assunto o ocupou por quinze anos, isto é, enquanto escrevia suas principais obras, ensaios, tratados, sobre temas ligados à justiça social, religião, moralidade, estava a refletir sobre a questão da arte. Essa preocupação constata-se quase uma década antes, em trecho de Sonata a Kreutzer de 1891:

O que é a música? Não sei. O que é a música? Que efeito produz? E por que atua desse modo? Dizem que eleva as almas. É absurdo! É mentira! Exerce uma grande influência (refiro-me a mim próprio) mas não eleva a alma de maneira nenhuma. Não faz isto? A música obriga-me a esquecer a minha existência, a minha situação real, transforma-me. Debaixo de sua influência parece-me sentir aquilo que não sinto, compreender o que não compreendo e ser capaz daquilo que na realidade não sou. Creio que a música atua como o bocejo ou como o riso; uma pessoa perde a vontade de dormir mas boceja se bocejar outra; não tem de que se rir mas ri ao ouvir o riso dos outros. A música provoca em mim o mesmo estado de espírito que tinha o compositor quando a escreveu. A minha alma confunde-se com a sua e o nosso estado de espírito transforma-se; mas não sei por que é que me acontece isso. [...] Ao som de uma marcha militar, os soldados desfilam, e ao duma música para dançar, dança-se, e a música conseguiu assim seu objetivo. Participa-se numa música cantada e a música justificou também a sua razão de ser. Mas em geral uma pessoa não sente mais do que irritação, e não sabe o que fazer. É por isso que ela às vezes atua de modo terrível. (TOLSTOI, 1993, v. II, p. 1136).

Questões realmente polêmicas, visto reconhecerem que a música exerce uma grande influência sobre o ouvinte, transforma-o, faz acreditar que pode fazer, compreender, sentir o que, na realidade, não pode; provoca a comunhão de alma e espírito entre ouvinte e compositor, possibilitando uma transformação. Porém, ignora a causa dessa sua transformação, colocando, assim, em dúvida, a autonomia artística e defendendo uma visão funcional da experiência estética. Desse modo, O que é a Arte? (1898) é um livro polêmico, posto que a ideologia ali veiculada vinha contra a ideologia reinante entre a intelectualidade e os artistas, em geral. A ideologia referida tratava-se da questão relacionada à autonomia artística, ou melhor, do artista. Não só, por isso, como, também, por referir-se a um outro questionamento em relação à arte, ou seja, o de “determinar sua função, sua relação com a sociedade” (FABRIS, 1994, p. 18).

De início, constata-se, em Lima Barreto e em Leon Tolstói, uma característica que se apresenta como a principal responsável pela atitude literária de ambos: uma insatisfação com a corrente estética de tendência formalista que predominava no período em que escreviam. Por isso, Leon Tolstói e Lima posicionaram-se contra o princípio estético da arte pela arte. Com essa mudança de percepção do fazer literário, cada qual buscou praticar uma literatura que estivesse mais próxima dos interesses populares, e não dos burgueses. Negam, com isso, a autoridade da tradição artística e literária e inserem o novo em seu fazer literário. Chiampi (1991, p. 15), ao tratar da modernidade estética e dos poetas fundadores, avalia-os da seguinte forma: “Pode-se dizer que os poetas fundadores, para serem modernos, tiveram que ser antimodernos”. Daí a inserção de Lima Barreto, juntamente com Leon Tolstói, no grupo de escritores representantes da modernidade.

O novo, praticado na literatura pelos escritores, está diretamente ligado à presença de uma acentuada preocupação social e a uma nova postura do escritor frente ao papel que lhe cabe na sociedade, isto é, um escritor engajado aos problemas sociais. Tal atitude resulta na busca de uma nova linguagem literária através de novas formas de expressão. Ao que parece, os escritores sentiram a necessidade captada e exposta por Roman Jakobson em sua

Novíssima poesia russa – esboço primeiro, pois, segundo ele, “a linguagem poética se

desgasta de tempos em tempos, e então se torna preciso absorver do linguajar cotidiano outras formas e construções” (JAKOBSON apud EIKHENBAUM, 1973, p. 14).

Com o intuito de fundamentar a hipótese a respeito da herança tolstoiana presente na obra de Lima, neste último capítulo, tratar-se-á de uma análise comparativista entre a concepção de arte tolstoiana e a de Lima Barreto. Pode-se dizer que Lima Barreto se apropriou da concepção tolstoiana de arte no momento em que faz da literatura uma arma de combate e de crítica mordaz contra os preconceitos e as mediocridades do poder. Distanciou- se, assim, do fazer estético ou da preocupação com a estética literária e buscou cada vez mais escrever de forma clara, simples e direta. A preocupação maior do escritor Lima Barreto era com o conteúdo e não com a forma. Aliás, pode-se dizer que o seu estilo literário visa a clareza, a simplicidade e a comunicação entre os homens. Lima Barreto, tanto quanto Leon Tolstói, coloca-se, objetivamente, sem subterfúgios, em suas obras literárias através de fatos autobiográficos. Pode-se, dessa forma, descobrir os escritores em muitos dos seus principais protagonistas. Lima Barreto encontra-se, então, em Policarpo Quaresma, Isaías Caminha, Gonzaga de Sá, Clara dos Anjos, Leonardo Coração dos Outros e Vicente Mascarenhas, enquanto Leon Tolstói encontra-se em Levine, Vronski, Nekheulidov, Irteniev e outros.

Uma das maiores preocupações de Leon Tolstói em O que é a Arte? refere-se à relação da arte com a vida, em geral. A mesma preocupação é motivo da conferência: “O destino da literatura”, de Lima Barreto, na qual faz a seguinte questão: “Em que pode a Literatura, ou a Arte contribuir para a felicidade de um povo, de uma nação, da humanidade, enfim?” (BARRETO, 1956, v. XIII, p. 55-56). Ambos reivindicam uma arte compreensível por todos, e criticam sem meias palavras o que, segundo eles pregavam, seria o artificialismo na arte. Lima Barreto critica a literatura de Coelho Neto, Rui Barbosa e Machado de Assis; enquanto Leon Tolstói critica a arte de Baudelaire, Verlaine, Mallarmé, Wagner e Shakespeare, para falar somente desses.

Leon Tolstói questiona e posiciona-se contrário à arte moderna, pois, de acordo com ele, ela instaura um distanciamento entre a arte das classes privilegiadas e a do povo por dois motivos: primeiro, porque a arte moderna requer gastos exorbitantes além da opressão de multidões, os trabalhadores; segundo, porque essa arte é totalmente ininteligível para o povo. Afirma, ainda, que esse distanciamento teria ocorrido a partir do momento em que as classes superiores deixaram de propagar a arte, que tinha por base os sentimentos mais elevados nascidos da consciência religiosa da vida, acessível a todos, e passam a propagar a arte para dar, a uma determinada classe social, a máxima soma de prazer. Disso resultou uma perversão do conceito de arte na sociedade europeia, e enfraqueceu a própria arte. Isso em função de três motivos: primeiro, a arte, ao propor-se o prazer como objetivo único, ficou desprovida dos conteúdos religiosos relativos à vida; segundo, ao restringir-se a um círculo restrito de pessoas, perdeu sua beleza formal, tornando-se obscura e afetada e, em terceiro, a arte cessou de ser espontânea e sincera, para se tornar artificial e rebuscada. Ao enfatizar os sentimentos das classes superiores, acaba por reduzi-los a três categorias: o sentimento da vaidade, o sentimento do desejo sexual, o sentimento do tédio pela vida. A partir de então, as condições exigidas para que uma obra de arte fosse válida e mesmo poética foram: a vagueza, o mistério, a obscuridade, a inacessibilidade às massas, a imprecisão, a indeterminação e a recusa da eloquência (TOLSTOI, 1994, p. 71).

Sendo, assim, Leon Tolstói condena toda a literatura dos simbolistas e decadentistas, principalmente os franceses, pois, segundo eles, “os franceses são os corifeus do novo movimento artístico, enquanto o resto da Europa contenta-se em imitá-los” (p. 73). E, no Brasil, não ocorreu de modo diferente, daí a reivindicação de Lima por uma arte que refletisse os problemas da sociedade.

Em Lima Barreto, a reflexão sobre a função social da arte perpassa todas as suas obras, de Recordações do escrivão Isaías Caminha a Clara dos Anjos. Francisco de Assis

Barbosa, no Prefácio ao romance Recordações do escrivão Isaías Caminha, edição de 1956, afirma “que [sua obra] está impregnada de um profundo sentimento humano e de uma admirável compreensão do fenômeno social” (BARBOSA apud BARRETO, 1956, p. 15). E, ainda que “o verdadeiro Brasil está mais nos livros de Lima Barreto que nos dos escritores citadinos ou regionalistas, tidos e havidos como os mais representativos do nosso 1900 literário, como Graça Aranha, Coelho Neto, Afonso Arinos ou Valdomiro Silveira” (BARBOSA apud BARRETO, 1956, p. 17). “Profundo sentimento humano” e “compreensão do fenômeno social” são características que já se encontram no romance Recordações do Escrivão Isaías

Caminha, sua obra de estreia, em 1909. Nesse romance, mais do que retratar a situação

conflitante entre o protagonista e a sociedade devido ao preconceito racial e de classe, vai propiciar

[...] o alargamento do universo da crítica romanesca, que abrange, entre outros elementos, os vários tipos de marginalidade – como a do pobre, a da mulher, a do destituído de amigos influentes – e ainda o ambiente corrompido da imprensa, a gramatiquice dos falsos literatos e os jogos de poder. (FIGUEIREDO, 1995, p. 25).

Convém lembrar, ainda, que Figueiredo destaca a abrangência da reflexão e da preocupação do autor sobre a sociedade de modo geral, isto é, “os vários tipos de marginalidade”, e não somente com os problemas restritos ao seu contexto e com os seus iguais na cor da pele. No geral, os principais temas expostos no Recordações são: preconceito racial, discriminação social, oportunismo, necessidade de padrinho para conseguir emprego, ignorância do povo, superficialidade e arrogância de falsos intelectuais e jornalistas, o jogo de interesses e a parcialidade dos jornais que só divulgam o que lhes interessa e da forma que lhes interessa, entre outros.

Lima Barreto aproxima-se, nesse romance, a Leon Tolstói, pela acentuada preocupação social presente em suas páginas, como, ainda, por questionar a forma e função da arte, isto é, da literatura, expondo, assim, sua concepção de arte. Observa-se que a concepção de literatura do escritor Lima Barreto, veiculada nesse romance, destaca-se, uma vez que, nesse período, virada do século XIX, jornalismo e literatura nunca estiveram tão próximos. Essa proximidade entre jornalismo e literatura se faz presente também no modo de escrever que Lima Barreto desenvolveu em suas obras, sendo bastante criticado por isso, mas posiciona-se de modo decisivo:

O meu correspondente acusa-me também de empregar processos do jornalismo nos meus romances, principalmente no primeiro.

Poderia responder-lhe que, em geral, os chamados processos do jornalismo vieram do romance; mas mesmo que, nos meus, se dê ao contrário, não lhes vejo mal algum, desde que eles contribuam por menos que seja para comunicar o que observo; desde que possam concorrer para diminuir os motivos de desinteligência entre os homens que me cercam. (BARRETO, 1956, v. VI, p. 34).

Nota-se, na concepção de arte aqui explícita, o quanto ela reflete a noção tolstoiana, enfatizando o poder de comunicação e ligação entre os homens: “A arte é a atividade humana em que um homem, conscientemente, através de certos signos exteriores, comunica a outras pessoas sentimentos que ele vivenciou, de modo a contaminá-las e fazê-las vivenciar os mesmos sentimentos” (TOLSTOI, 1994, p. 51).

Isaías Caminha, pseudo-autor do romance, refere-se com frequência a sua dificuldade para escrever e para elaborar suas recordações, além das dúvidas que aparecem ao compor seu texto: “Penso – não sei por que – que é este meu livro que me está fazendo mal...” (BARRETO, 1956, v. I, p. 119). Reforça, ainda, sua concepção de uma arte militante, engajada: “Não é o seu valor literário que me preocupa; é a sua utilidade para o fim que almejo.” (p. 119). Ou seja: “Com elas queria modificar a opinião dos meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo.” (p. 120). Vê-se bem que o escritor, aliás, o pseudo-autor, Isaías Caminha, pretende demonstrar que as razões para seu fracasso não estão nele e, sim, na sociedade.

Torna-se evidente que Lima faça oposição aos “literatos” oportunistas que surgem da noite para o dia, simplesmente trocando elogios entre um pequeno grupo que tinha acesso ao mercado editorial e, também, ao jornal: “Eu não sou literato, detesto com toda a paixão essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para não os amar, nem os imitar.” (BARRETO, 1956, v. I, p. 120). Essa crítica ferrenha a esses literatos deve-se à superficialidade com que eles se fazem e se mantêm nos periódicos, utilizando-se da superficialidade temática e de eloquência verbal. Nesse período, constata-se uma supervalorização da imprensa e ela torna-se rival da literatura, além de que os escritores colaboram intensamente nas colunas dos periódicos. Lima Barreto, assim a classifica no romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha, quando, ao retratar os bastidores do jornal O Globo que, na realidade, tratava-se do jornal Correio da Manhã: “Era a imprensa, a Omnipotente Imprensa, o quarto poder fora da Constituição!” (BARRETO, 1956, v. II, p. 174). Não obstante enfrentasse vários obstáculos, o escritor não deixa de lado sua preocupação com a forma: “Se me esforço para fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito geral e no seu interesse,

com a linguagem acessível a ele. É este o meu propósito. O meu único propósito”. (BARRETO, 1956, v. I, p. 120).

A concepção de arte do escritor Lima Barreto acentua-se mais através do procedimento de desmascarar o ambiente artificial da redação do jornal O Globo, o que se torna explícito por intermédio dos personagens: Gregoróvitch, Lobo, Leporace e Floc. Visto que estamos a tratar aqui das relações de Lima Barreto com os russos, Ivã Gregoróvitch Rostóloff vem marcar presença nas obras barretianas. Jornalista, formado em Línguas Orientais e Exegese Bíblica, na Universidade de Sófia, tendo começado o curso no Cairo, isso em Isaías Caminha (1909), já em Numa e a Ninfa (1915), é Gregory Petrovich Bogolóff, diretor da pecuária nacional, e Lima Barreto também publica em fascículos, as Aventuras do

Dr. Bogóloff (1919). Esse personagem, criado por Lima, além de denotar sua simpatia pelos

russos, serve para extravasar o lado caricatural, ressaltando-se que o Dr. Bogóloff traz muito do próprio autor23. Contudo, a presença do Dr. Bogóloff não pára por aí, o próprio Lima Barreto nos revela, em dois artigos reproduzidos no volume Bagatelas, que se utilizou do pseudônimo para assinar, no mínimo, dois artigos que saíram n’A Lanterna, semanário esquerdista de São Paulo.

Por intermédio de Leporace, “secretário, arrogante como todo jornalista, formado, sem emprego, sem fortuna” (BARRETO, 1956, v. II, p. 156), “sumidade em literatura e jornalismo, árbitro do mérito, distribuidor de gênios e talentos” (p. 156), o narrador desmascara o papel subserviente de muitos no meio jornalístico por não terem competência. Com Floc, pseudônimo de Frederico Lourenço do Couto, crítico literário do jornal, demonstra a limitação intelectual, a incapacidade de se exprimir com facilidade, diante da ausência nele do dom da comunicação; facilita, também, o acesso à imprensa e a divulgação das obras, somente para os que “fizessem versos, certos rapazes de sua amizade, bem nascidos, limpinhos e candidatos à diplomacia.” (BARRETO, 1956, v. II, p. 182). Além de confundir “arte, literatura, pensamento com distrações de salão; não lhes sentia o fundo natural, o que pode haver de grandioso na função da arte. Para ele, arte era recitar versos nas salas, requestar atrizes e pintar aquarelas lambidas, falsamente melancólicas” (p. 182). Quando se suicidou, Isaías não encontrou, em sua biblioteca, “nenhum historiador, nenhum filósofo, nenhum estudo de crítica literária, mas dez de anedotas literárias de autores de todos os tempos e de todos os países” (p. 183). Com Lobo, expõe o culto exagerado à gramatiquice.

23 Ver PEREIRA, A. A máscara do Dr. Bogóloff. (2001). Primeiramente, publicado em Interpretações. RJ: Casa

do Estudante do Brasil, 1944.” Mas isso parece revelar também a existência de uma certa afinidade entre o criador e a sua criatura, entre o romancista e o personagem, no caso o Dr. Bogóloff sem a máscara” (p. 58).

Da mesma forma, Lima Barreto já se insurgia contra o esquema utilizado pelos mandarins da literatura para compor romances, pois, segundo o autor, além de só se preocuparem “com os populares do sertão”, talvez, em função de serem “pitorescos” e não poderem verificar “a verdade de suas criações”:

No mais, é uma continuação do exame de português, uma retórica mais difícil a se desenvolver por este tema sempre o mesmo: Dona Dulce, moça de Botafogo em Petrópolis, que se casa com o doutor Frederico. O comendador seu pai não quer, porque o tal Dr. Frederico, apesar de doutor, não tem emprego. Dulce vai à superiora do colégio das irmãs. Esta escreve à mulher do ministro, antiga aluna do colégio, que arranja um emprego para o rapaz. Está acabada a história. É preciso não esquecer que Frederico é moço pobre, isto é, o pai tem dinheiro, fazenda ou engenho, mas não pode dar uma mesada grande. Está aí o grande drama de amor em nossas letras, e o tema de seu ciclo literário. (BARRETO, 1956, v. IV, p. 133-134).

Com esse procedimento, fica claro que Lima Barreto insurge-se contra a literatura bem comportada de seu tempo e renuncia ao padrão de linguagem vigente que se pautava pelo “exame de português” e “retórica mais difícil”. Na crônica, Volto ao Camões, publicada no

A.B.C., em 27.4.1918, ao comentar a peça O Reposteiro Verde, de Júlio Dantas, Lima Barreto

critica o “palavreado luxuriante” que não traz uma ideia e não revela uma alma e, muito menos, contribui para por em comunicação a sociedade e provocar o mútuo entendimento. Observa-se, assim, que Lima não só pratica uma literatura social, como cobra de outros escritores, através da crítica literária, que a pratiquem. O autor percebeu que mudanças sociais eram necessárias e que a literatura é um meio importante para essa transformação: “É chegada, no mundo, a hora de reformarmos a sociedade, a humanidade, não politicamente que nada adiante; mas socialmente que é tudo” (BARRETO, 1956, v. XIII, p. 165).

Do mesmo modo, Leon Tolstói reafirma sua concepção de literatura vinculada a uma função social, em “A manhã de um senhor”, onde o protagonista, o príncipe Nekliudov, ao expressar o que pretende, é o porta-voz do próprio Tolstói: “Exercer influência [...] sobre essas pessoas [...]; tirá-las da miséria, conceder-lhes o bem-estar, dar-lhes instrução [...], corrigir seus vícios [...]; desenvolver nelas a moral; obrigá-las a amar o bem [...]” (TOLSTÓI, 1993, v. III, p. 676). Enfatiza, assim, o papel do escritor e intelectual engajados nos problemas da sociedade, isto é, de “sociólogo e apóstolo social”, pondo em prática uma literatura militante.