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A influência da literatura russa faz-se presente em toda a obra de Lima Barreto, conforme se constata nas referências feitas pelo escritor. Em nenhum momento Lima Barreto oculta o que leu; não satisfeito em ler a literatura russa sozinho, ele a recomenda ao jovem escritor Jaime Adour da Câmara, em carta datada de 27-7-1919: “Leia sempre os russos: Dostoiévski, Tolstoi, Turguênief, um pouco de Gorki; mas, sobretudo, o Dostoiévski da Casa

dos Mortos e do Crime e Castigo” (BARRETO, 1956, v. XVII, p. 171). Sendo assim, é

legítima essa aproximação e comparação entre Lima Barreto e os grandes da literatura russa. Alguns críticos já apontaram algumas dessas afinidades literárias; mesmo que resultado de impressões, registraram-se algumas considerações sobre essa relação. Destaca-se, em primeiro lugar, a avaliação de Tristão de Ataíde11, pelo fato de enfatizar o homem, o

escritor e a concepção de arte de Lima Barreto, fatores importantes que vêem ao encontro de nosso objetivo. Tristão de Ataíde atribui-lhe características que, em muito, o aproxima às descrições dos eslavos apresentada por M. de Vogué:

Nascera literariamente, para dizer a grande dor ignota dos humildes. E essa piedade pelo sofrimento dos vencidos, esse carinho pelas almas delicadas que a miséria amarrota, nunca lhe desamparou a pena, antes cresceu com os anos a medida que o mal de viver o integrava de novo na massa anônima de onde se arrancara sozinho. Ele, que tanto se elevou, que em pouco tempo tinha criado em nossas letras uma fisionomia nova e peculiar de romance, foi o intérprete dos medíocres, dos apagados, daqueles que passam como sombras ou como engrenagens, humilhados pela Sociedade, com S maiúsculo, e indispensáveis a ela. Para eles reservara todo o seu poder recalcado de simpatia. Nascera carinhoso e bom, com essa frágil sentimentalidade do nosso sangue mesclado, nele sensível e patente. Trouxe para a vida – como se entreve em toda sua obra, onde a alma do criador reponta em cada criatura menos transitória e caricatural –, trouxe para a vida um grande desejo de paz e de harmonia, uma sensibilidade ávida de doçura e de perdão. (ATAIDE, 2001, p. 58-59).

11 Trabalho originalmente publicado em O Jornal, 26 nov. 1922. “Vida literária”. Depois, em LIMA, A. A. Estudos Literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966. v. 1. p. 748-753. Edição organizada por Afrânio Coutinho

O vocabulário empregado não deixa dúvidas quanto à aproximação estabelecida: dor, humildes, piedade, sofrimento, carinho, almas, miséria, mal de viver, massa anônima, medíocres, apagados, humilhados, simpatia, carinhoso, bom, frágil sentimentalidade, desejo de paz e harmonia, sensibilidade ávida de doçura e de perdão.

Diante dessa avaliação, saltam-nos algumas perguntas: se essas características são próprias do escritor, até que ponto Lima Barreto pode ter sido influenciado pelos romancistas russos? E, se de fato houve essa influência, é possível manter esse elo com coerência por tanto tempo? Ou somente foi possível uma vez que já havia no escritor um ambiente e espírito favorável? Perguntas que poderão ou não ser respondidas no decorrer do texto, isso se tiverem respostas, ou, simplesmente, servirão para instigar o raciocínio.

Tristão de Ataíde (2001, p. 58) observa que, Lima Barreto, “em pouco tempo tinha criado em nossas letras uma fisionomia nova e peculiar de romance”, isto é, trazendo para a ficção “a grande dor ignota dos humildes”, que, até então, não tinha lugar na literatura brasileira. Para esclarecer o que vem a ser essa “fisionomia nova e peculiar de romance”, recorre ao escritor Lima Barreto:

A literatura do nosso tempo, [escreveu num artigo de 1916, reproduzido no prefácio da Histórias e sonhos...], possa ela realizar, pela virtude da forma, não mais a tal beleza perfeita da falecida Grécia, que já foi realizada; não mais a exaltação do amor, que nunca esteve a perecer; mas a comunhão dos homens, de todas as raças e classes, fazendo que todos se compreendam, na infinita dor de serem homens, e se entendam sob o açoite da vida, para maior glória e perfeição da humanidade. (ATAIDE, 2001, p. 59).

Conforme Tristão de Ataíde, Lima Barreto não buscou nem a inspiração e muito menos a expressão, mas o espírito e a técnica dos romancistas russos12. E acrescenta: “Foi, em grande parte, nessa extraordinária literatura russa de ficção que Lima Barreto buscou a força para criar, entre nós, o romance social” (ATAIDE, 2001, p. 59). Aproxima-os através do sentimento profundo de humanidade ligado a um senso inato da realidade presente em ambos. E como “esses russos remotos e iluminados de estranho fulgor”, Lima Barreto possuía “o sentido da escravidão social da alma humana” (p. 59). Tal como outros críticos, Araripe Júnior acredita que, não somente os russos serviram de inspiração para Lima Barreto, como também se aproximava do espírito britânico pelo humour.

12 “Vemos logo, nessa profissão de fé, qual a classe de romancistas a que foi pedir – não a inspiração, que lhe era

inata, nem propriamente a expressão, ditada pela convicção com que escrevia – mas o espírito da obra e a sua técnica geral” (p. 59). Ver: ATAIDE, T. Lima Barreto. In: BARRETO, L. Lima Barreto Prosa Seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001. p. 59.

Agripino Grieco, no prefácio ao volume Marginália, afirma que: “Insista-se em que tudo ‘era povo’ nesse escritor. Amou os miseráveis, não como os realistas franceses, pelo amor ao pitoresco do vício e da miséria, mas porque o animava uma piedade quase doentia de eslavo. Havia nesse mestiço um neto de Gogol” (BARRETO, 1956, v. XII, p. 16).

A avaliação de Agripino Grieco também aproxima Lima Barreto dos russos quase da mesma forma, pois enfatiza o mesmo paradigma de M. de Vogué que já estava presente também na avaliação de Tristão de Ataíde. E quando o chama de “um neto de Gogol”, remete-nos à observação feita por Dostoiévski: “Todos nós saímos do “Capote”, de Gogol”, e a filiação é evidente tanto em Dostoiévski13, quanto em Leon Tolstói. Assim, por extensão,

Lima Barreto é relacionado diretamente à fonte, isto é, à origem de todo o realismo dos romancistas russos aos quais se assemelha sua fisionomia literária. Essa filiação observa-se nos tipos generalizados presentes no romance russo, pois a maior parte teve origem em Almas

Mortas. Conforme M. de Vogué, isso transparece no canto VII, com a descrição do

proprietário rural, Tentetnikof, que muito lembra o Lavretski, de Turguenef, o Besuchof e o Levine de Leon Tolstói e o Policarpo Quaresma de Lima Barreto. Vê-se que não só o tipo de proprietário rural criado por Gógol, mas também o funcionário, o oficial reformado, o criado, são figuras que se perpetuam nos escritores referidos sem que sofram grandes alterações nos traços gerais deixados por Gógol.

Certifica-se que a obra barretiana realmente está plena do espírito de Gógol e dos romancistas russos contemporâneos a Gógol; se por um lado Gógol foi considerado o escritor realista no melhor sentido do termo e o mais russo dentre eles, de outro, Lima Barreto, a seu tempo e modo, foi considerado o mais humano e mais brasileiro dos escritores. Na “Confissão de um autor”, de Gogol, aparece uma frase que é bem provável que Lima Barreto a tenha seguido como modelo: “Procurei a vida na sua realidade não nos sonhos da imaginação e cheguei assim àquele que é a fonte da vida” (GOGOL apud VOGUÉ, 1950. p. 133). Sendo assim, Lima Barreto aproxima-se a Leon Tolstói, pois se Gógol entregou-se ao misticismo, Leon Tolstói colocou em prática o papel de profeta com a criação do “tolstoísmo”. Pois, conforme M. de Vogue, o escritor, para o público russo, é “o guia de sua raça” e “poeta no sentido antigo e total da palavra – vates, poeta, profeta” (VOGUÉ, 1950, p.142). Daí a

13 A filiação é evidente em Dostoiévski, visto que seu primeiro livro “Pobre Gente” está em germe no “Capote”.

O triste herói de Dostoiewski, Dieuvouchkine, não passa de uma versão mais desenvolvida e mais sombria de Akaky Akakievitch. Ressalta-se que em “Pobre Gente” já contém em germe todos os outros. Ver: VOGUÉ, M. O romance russo. Rio de Janeiro: Ed. A noite, 1950. p. 111.

concepção de arte tolstoiana que tanto impressionou Lima Barreto, fazendo-o exercê-la como um sacerdócio14.

É interessante ressaltar, Um mulato no reino de Jambon (as classes sociais na obra de Lima Barreto)15, de Maria Zilda Ferreira Cury (1981), no qual Cury destaca o campo semântico das palavras escrivão/escrevente/escritor, que acompanham a evolução do personagem Isaías Caminha. Conforme Cury, Isaías faz o seguinte percurso: em primeiro lugar Isaías Caminha o jornalista, era “redator” do jornal no Rio de Janeiro, seria “escrevente” “uma vez que o sujeito do discurso seriam os interesses da empresa”. Ao sair do jornal para ser “escrivão” no interior, a personagem torna-se “escritor”, assim, “sujeito de seu discurso”. (CURY, 1981, p. 107). E, ainda, o nome Isaías Caminha remete para uma escrita de denúncia da opressão e da injustiça e para o anúncio de algo novo. Com base na interpretação bíblica e na história, assinala a contradição presente no nome da personagem, quando, profeta, empreende “a escrita do livro, como uma tarefa de redenção dos seus” (p. 104). Quando escrivão, da frota de Cabral, anuncia algo novo: a descoberta da nova terra, porém, defende a “opressiva visão ideológica” em relação ao índio.

As relações de Lima com os romancistas russos também são apontadas por Gilberto Freyre, no prefácio à obra Diário Íntimo, no qual se refere a Lima Barreto como “[...] esse homem do trópico com alguma coisa de russo dos gelos em sua vocação de escritor de romances ao mesmo tempo sociais e introspectivos. Aqueles romances em que os sofrimentos do autor se confundem com os dos personagens” (BARRETO, 1956, v. XIV, p. 9). Enquanto Eugênio Gomes, no prefácio à obra Cemitério dos vivos, ressalta que Lima Barreto recomendava, em 1919, a Jaime Adour da Câmara, um escritor estreante, para que lesse os russos:

[...] já havia realizado quase toda sua obra de ficção, mas sua impregnação de literatura eslava, especialmente de Dostoiévski, vinha de longe, como se pode inferir da atmosfera espiritual e, concretamente, de algumas passagens do romance

Recordações do Escrivão Isaías Caminha, que data do começo do século.

(BARRETO, 1956, v. XV, p. 9).

Por meio dessas aproximações apresentadas, constata-se que elas estão permeadas pela leitura da obra Le roman russe (1886), de Eugene Melchior de Vogué. Alguns termos

14 Ver: O profeta e o escrivão de Carlos E. Fantinati, Assis – São Paulo: ILPHA-HUCITEC, 1978. Este estudo

demonstra o caráter profético do escritor no romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” e exprime sua concepção e vivência da literatura como uma arte participante, ou melhor, uma literatura militante.

15 O estudo de CURY analisa a partir da contextualização histórica da obra de Lima Barreto algumas

contradições encontradas na mesma, sobressaindo o contraste entre os discursos: o consciente, presente nas crônicas e o propriamente literário. Sendo o das crônicas condicionado pela ordem cultural e o literário, onde o simbólico e o imaginário disputam o espaço do real num produto paradoxalmente chamado de ficção. CURY no geral da análise apresenta duas posturas contraditórias: o fatalismo e a denúncia.

utilizados pelos críticos explicitam essa presença: amor aos miseráveis, piedade quase doentia de eslavo, romances sociais e introspectivos, nos quais os sofrimentos do autor se confundem com os dos personagens. Enfim, características que demonstram, sem sombra de dúvida, a influência dos escritores russos desde o início da carreira literária de Lima Barreto.

É o próprio escritor que nos confirma essa relação e sente-se à vontade em enumerar os autores de sua preferência. Com isso, é possível perceber os escritores que, numa medida ou em outra, servem de orientação para fundamentar os pressupostos estéticos do escritor evidenciados na obra através de citações ou referências: “[...]; e que campo vasto está aí para uma grande literatura, tal e qual nos deu a Rússia, a imortal literatura dos Tourguêneffs, dos Tolstói, do gigantesco Dostoiévski, igual a Shakespeare, e, mesmo Gorki!” (BARRETO, 1956, v. XVII, p. 165).

Nas referências encontradas na obra barretiana, fica explícito o número de escritores a quem Lima faz menção e, o mais importante, é constatar não ser mera citação ou simples referência. Ao que parece, Lima não faz por simplesmente fazer, ainda menos por recurso retórico vazio ou demagógico. É relevante observar a predominância dos escritores russos; mais ainda, Lima sugere vivenciá-los a fundo, a ponto de transpor para a vida e a obra muitas reflexões e pensamentos desses grandes mestres. É notável a admiração de Lima pelos escritores russos, isso está explícito em seu projeto literário. Lima não nega o quanto leu os russos, aliás, refere-se a eles com frequência no decorrer de toda sua obra, não só no Diário, como, também, através de seus personagens. Conforme se pode observar em um trecho de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”: “Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das mãos, tenho os autores que mais amo. Estão ali O Crime e o Castigo de Dostoiévski, um volume dos Contos, de Voltaire, A Guerra e a Paz, de Tolstói, [...]” (BARRETO, 1956, v. I, p. 120).

“Procurei-os, confesso”, assim falava o escritor na voz de sua criatura. Determinado a conquistar a glória, dedicou-se com afinco às atividades literárias. Sabia das próprias limitações e, por isso, procurou, nos grandes autores, modelos, normas e, mais do que tudo, o “segredo de fazer” romance. Obras como Crime e Castigo (1866), de Dostoiévski, A Guerra e

Paz (1869), de L.Tolstói, Rouge et Noir (1830) de Stendhal, Cousine Bette (1846), de Balzac, Éducation Sentimentale (1869), de Flaubert, Antéchrist (1878) de Renan, e os autores: Eça,

Voltaire, Taine, Barres, France e Swift aparecem citados e referenciados pelo escritor, em

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), por meio da voz do personagem Gonzaga de Sá:

“[...] alguns deles me deram a sagrada sabedoria de me conhecer a mim mesmo, de poder assistir ao raro espetáculo das minhas emoções e dos meus pensamentos” (BARRETO, 1956, v. IV, p. 23).

Desse modo, através dos escritores russos citados por Lima Barreto: Dostoiévski, Leon Tolstói, Turguênief e M. Górki, constata-se que o universo da literatura russa não lhe era estranho. Por isso, antes de nos atermos à relação literária entre o escritor Leon Tolstói e Lima Barreto, foco desta pesquisa, verificar-se-ão algumas aproximações já apontadas entre Lima Barreto e os russos. Ressalta-se que Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski (1821-1881) é o autor a quem Lima Barreto mais foi associado por afinidades literárias. E isso o escritor enfatiza ao recomendar a literatura russa a Jaime Adour da Câmara: “Leia sempre os russos [...]; mas, sobretudo, o Dostoiévski da Casa dos Mortos e do Crime e Castigo” (BARRETO, 1956, v. XVII, p. 171). Período em que se desenrolava a Revolução bolchevique, 1919, e na mesma carta na qual indicava a literatura russa aparecem alguns livros de sociologia: Kropótkin, Reclus, Comte e Spencer. Nota-se que, Lima Barreto, além de escritor, crítico e jornalista, também era um leitor antenado, o que demonstra que ele sabia muito bem o quanto a literatura russa refletia sobre os problemas sociais.

Lima Barreto não só recomenda a leitura do escritor como também enfatiza a teoria estética de Dostoiévski na conferência “O destino da literatura”, e se refere a “um livro famoso, hoje universal – o Crime e Castigo, de Dostoiévski – que deveis conhecer” (BARRETO, 1956, v. XIII, p. 59). Cita a obra de Dostoiévski como exemplo número um de obra que representa o ideal de Brunetière: “[...]; uma tal importância, dizia eu, deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca, e aluda às questões de nossa conduta na vida” (BARRETO, 1956, v. XIII, p. 59). Muito próximo, o argumento apresentado por Lima Barreto, das ideias veiculadas por M. de Vogue, em relação ao romance russo, mas quer distância dos “helenizantes”. A obra de Dostoiévski é resumida minuciosamente e é modelo por ser transmissora de moral e instrumento de comunhão. Lima ressalta: “Trata-se de um estudante que curte as maiores misérias em São Petersburgo. Lembrem-se bem que se trata de miséria russa e de um estudante russo” (BARRETO, 1956, v. XIII, p. 59).

Constata-se que o diálogo de Lima Barreto com M. de Vogué extrapola o discurso crítico e a maioria das referências presentes em contos e romances feitas à literatura russa está relacionada às obras Crime e Castigo e Recordações da casa dos mortos, obras as quais M. de Vogué tinha dado preferência. No que se referem aos contos de Lima Barreto alguns lembram diretamente o estilo dostoievskiano: “Um que vendeu a sua alma”, saiu, em A Primavera, Julho de 1913; “O único assassinato de Cazuza” na Revista Souza Cruz, em Fevereiro de 1922 e “Mágoa que rala”, s/d.; os dois primeiros encontram-se no volume Lima Barreto Prosa Seleta, 2001; e o terceiro, no volume Histórias e Sonhos, Contos, volume VI, editado pela Brasiliense.

No conto, “Um que vendeu a sua alma”, retrata os sofrimentos de uma alma dilacerada, cheia de decepções e desgostos, tipicamente o mundo dos subterrâneos de Dostoiévski. Devido à miséria, busca soluções: “Mas dinheiro! – como arranjar? Pensei meios e modos: Furtos, assassinatos, estelionatos – sonhei-me Raskólnikoff ou coisa parecida” (BARRETO, 2001, p. 1101) e, ao desejar a Morte, sem ser atendido, apela para o Diabo, que o atende. O inusitado transparece também na negociação de sua alma com o Diabo, que lhe oferece um preço bem abaixo do proposto, e o narrador aceita. Já, no conto “O único assassinato de Cazuza”, relata a vida sofrida, simples e de misérias de Hildegardo Brandão, para os íntimos “Cazuza”. Depois de descrever a rotina de Cazuza, relata que, entre os hábitos, estava a conversa franca e amistosa com seu amigo doutor Ponciano, colega de preparatórios e muito íntimos. E, em uma dessas conversas, o assunto descamba para a violência na sociedade, tanto no campo quanto na cidade, isto é, os assassinatos. Quando Cazuza questiona como esses políticos andam tão satisfeitos com tantas “cruzes” a marcar a ascensão deles, confessa:

Se porventura matasse creia que eu, a que não tem deixado passar pela cabeça sonhos de Raskólnikoff, sentiria como ele: as minhas relações com a humanidade seriam de todo outras, daí em diante. Não haveria castigo que me tirasse semelhante remorso da consciência, fosse de que modo fosse, perpetrado o assassinato. Que acha você? (BARRETO, 2001, p. 1049).

Observa-se que Cazuza, no caso o narrador, confessa ter “sonhos de Raskólnikoff” e, num caso semelhante, “sentiria como ele”, isto é, o narrador compartilha e se irmana a Raskólniff em seus sentimentos de remorso.

No terceiro conto, “Mágoa que rala”, o mais extenso dos três, divide-se em duas partes. A primeira, narra as ações de Dom João VI, no Rio de Janeiro, e um pouco de sua história desde que saiu de Portugal. Isso tudo para contextualizar o local no qual se passaria o assassinato: o jardim Botânico. A segunda parte enfatiza o enredo de fato, isto é, o assassinato da alemã, que Lima Barreto aproxima ao de Raskólnikoff de Dostoievski, em “Crime e Castigo”, devido à forma como se desenrola a investigação e a dificuldade de se encontrar provas, apesar da confissão. Lourenço, o suposto assassino, se autoincrimina como forma de “resgatar a sua falta de um modo “heróico, romanesco e místico” da honestidade” (BARRETO, 1956, v. VI, p. 177). Lima Barreto induz que Lourenço, tal qual Raskólnikoff, tenha sido influenciado por um caso muito semelhante que havia saído em uma pequena revista:

[...] acontecido na Alemanha, em Essen, e contado em um livro do Senhor Hugo Fridlaender e resumido no Le Temps por Th. De Wyzewa. Tratava-se de um tal Alfred Land que, tendo praticado uma pequena falcatrua, um furto doméstico, se sentiu tão angustiado, tão cheio de mágoa, de ralação íntima a lhe pedir expiação da falta, que não trepidou em acusar-se como autor de um assassínio misterioso, o qual ele estava materialmente impossibilitado de executar. (BARRETO, 1956, v. VI, p. 177).

Porém, Lima complementa que, aqui, o juiz não tem a mesma curiosidade como o “juiz de instrução do Crime e Castigo”, de ler as pequenas revistas “para estar a par da psicologia mórbida dos criminosos cerebrais e inexplicáveis” (BARRETO, 1956, p. 178). Lourenço foi absolvido, mas transparece a vontade do narrador de que ele fosse condenado tal qual Raskólnikoff. Desse modo, torna-se difícil fazer a leitura desses contos sem se reportar a Dostoiévski; não tanto devido às referências explícitas no texto, mas pelo significado dos acontecimentos. No terceiro conto, “Mágoa que rala”, Dostoiévski é retomado de forma direta e indiretamente; direta, quando Lima cita “Crime e Castigo” e, indiretamente, quando se refere ao caso que saiu na pequena revista. Pois, é sabido que, quase na mesma época em que