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In document Namn og nemne (sider 68-134)

O paradigma "Nós, os criativos" reposiciona a criatividade em relação à sociedade e parte do pressuposto de que a criatividade é um fenómeno estreitamente ligado ao con- texto social (Westwood & Low, 2003). Os principais contributos para esta visão mais abrangente da criatividade vieram de Amabile (Amabile, 1996; Hennessey, 2003), Si- monton (1975; 1988; 2003) e Csikszentmihalyi (Csikszentmihalyi, 2006).

Figura 1: Modelo sistémico da criatividade, segundo Csiksentmihalyi.

Tanto Amabile como Simonton apresentaram o fator social como sendo princi- palmente uma pressão externa sobre a criatividade individual, enquanto que Csikszent-

mihalyi desenvolveu um novo tipo de modelo da criatividade (Figura 1, pág. 27), no qual o contexto social já não é visto como um elemento externo ou um fator de "pressão" sobre o processo criativo. Neste modelo sistémico a criatividade pode ser ob- servada nas inter-relações de um sistema composto por três componentes principais:

1. O domínio (por exemplo, a biologia, a música de câmara, o design de interfaces);

2. O campo (o sistema social em que o indivíduo se insere e que inclui todos os agentes que validam as criações passíveis de serem assimiladas por esse do- mínio, como por exemplo, escolas, professores, críticos, jornalistas, especia- listas, empresas, revistas da especialidade);

3. O indivíduo (com todas as suas características individuais inatas e adquiridas).

O domínio consiste num conjunto de símbolos, regras e procedimentos, parti- lhados por um determinado número de indivíduos. A biologia, a música de câmara, o design de interfaces, são tudo exemplos de diferentes domínios. Dentro de um mesmo domínio, mais abrangente, podem existir outros domínios mais específicos: por exem- plo, a Matemática é um domínio, mas também o são a álgebra e a teoria dos números. O conhecimento simbólico partilhado por uma sociedade é, dentro deste modelo, o con- junto de todos os domínios existentes nessa sociedade. Isto consiste no que habitual- mente se designa por "cultura". De acordo com este modelo, a própria cultura da Humanidade como um todo pode ser vista como o conjunto de todos os domínios existentes.

O campo é o conjunto de indivíduos que determinam tudo aquilo que deve ser incluído ou não no domínio. É constituído por todos os agentes que servem de filtro en- tre o domínio e a produção de símbolos e artefactos que o mesmo poderá assimilar. No domínio das artes visuais, por exemplo, o campo será constituído por professores de arte, curadores, galeristas, colecionadores, críticos, administradores de fundações, agen- tes de departamentos governamentais e detentores de cargos políticos relacionados com

a cultura, editores de livros de arte, historiadores de arte. São estes agentes que decidem que obras de arte devem ser reconhecidas como tal e integradas no domínio da arte.

O terceiro e último componente deste sistema é o indivíduo. A criatividade ocorre quando um indivíduo, utilizando o sistema simbólico de um determinado domí- nio (como por exemplo a música, a engenharia, a arte, ou a matemática) cria uma nova ideia ou produz um novo artefacto, e quando esta novidade é selecionada pelo respetivo campo e integrada no respetivo domínio.

Csikszentmihalyi terá sido o autor da primeira síntese desta forma de abordar a criatividade. Investigadores como Amabile e Simonton forneceram contributos extrema- mente importantes nesse sentido, mas não apenas no campo específico da investigação sobre criatividade se encontram autores que confrontaram as características sistémicas da criatividade. No próprio domínio da investigação em design, a natureza sistémica e a dimensão sociocultural da criatividade teriam sido já sinalizadas:

(…) The Slovakian peasants used to be famous for the shawls they made. (...) Early in the twentieth century aniline dyes were made available to them. And at once the glory of the shawls was spoiled; they were now no longer delicate and subtle, but crude. This change cannot have come about because the new dyes were somehow inferior. They were as brilliant, and the variety of colors was much greater than before. Yet somehow the new shawls turned out vulgar and uninteresting. (…)

So we do not need to pretend that these craftsmen had special ability. They made beautiful shawls by standing in a long tradition, and by making minor changes whenever something seemed to need improvement. But once presented with more complicated choices, their apparent mastery and judgement disappeared. (...)

Alexander, 1964, pp. 53-54

Neste modelo a criatividade está embebida no tecido social e no contexto histó- rico em que ocorre. Esta visão salienta o facto de que cada ato criativo faz parte do co- nhecimento pré-existente num determinado domínio e acrescenta conhecimento a esse

domínio, sempre através da colaboração dos agentes que fazem parte do campo — que assumem o papel de guardiões do acervo cultural que constitui o domínio, e que por sua vez contribui para a cultura no sentido mais lato.

É a partir deste último paradigma que se estabelece no presente trabalho a ponte entre as diferentes dimensões (ou os “Cês”) da criatividade. O modelo sistémico da cria- tividade permite não só consolidar as diferentes dimensões e os diferentes paradigmas da criatividade, como também abre as portas para o estudo das interações entre campos de atividade criativa diferentes e da forma como estas interações contribuem para o de- senvolvimento mútuo das atividades criativas e como se alimentam dos contextos cultu- rais mais abrangentes, que os englobam.

Uma das consequências do modelo sistémico da criatividade é que o indivíduo que produz a inovação não precisa de possuir nenhuma qualidade especial. O importan- te é produzir uma inovação que seja aceite pelo domínio. Logo, o indivíduo tem apenas de possuir as condições necessárias para fornecer ao domínio uma novidade que seja nele integrada. É irrelevante para o domínio quais as qualidades particulares do indiví- duo ou as circunstâncias em que a inovação foi produzida. A criatividade é vista assim como qualquer ato, ideia ou artefacto que contribui para, ou modifica, um domínio existente.

A modificação introduzida pela inovação num determinado domínio pode ocor- rer à mais pequena escala (simplesmente pela introdução de uma nova instância de uma categoria pré-existente) ou a tão larga escala que, a partir de um domínio já existente, um novo domínio é fundado (com o consentimento, implícito ou explícito, do campo responsável por esse mesmo domínio). Ou seja, por vezes a natureza da inovação é tão radicalmente diferente do que existe na atualidade, que um novo domínio é criado na se- quência da assimilação da novidade pelo campo relacionado. Pode-se dizer, por exem- plo, que foi o que aconteceu com Freud, que criou a psicanálise a partir do domínio já existente da neuropatologia (Csikszentmihalyi, 2006). A situação de inovação radical acima descrita assemelha-se ao conceito de "mudança de paradigma" introduzido por Kuhn (1971) na sua teoria sobre a natureza das revoluções científicas.

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