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Qualquer estudo da criatividade não pode deixar de referir a natureza ilusória deste fenómeno. Esta estará na origem de muitos equívocos, que se podem encontrar tanto no campo da investigação sobre a criatividade como na sua própria aplicação prática,6pois

o vocábulo "criatividade" suscita invariavelmente múltiplas (e por vezes contraditórias) interpretações.

Apesar do estudo deliberado da criatividade só ter sido encetado em meados do séc.XX (Kozbelt et al., 2010), esta é hoje em dia uma área de investigação tão ativa que sucessivas tentativas de coligir as múltiplas definições de criatividade depararam-se com dezenas de definições diferentes.7 Esta diversidade de opiniões está provavelmente

ligada ao facto de que diferentes autores escolhem não só diferentes abordagens meto- dológicas mas também diferentes dimensões da criatividade como foco do seu estudo, o que resulta em definições não só diferentes como por vezes incompatíveis.

Não obstante a diversidade de definições possíveis, pode-se começar por esboçar de forma sintética a criatividade como o processo de encontrar uma nova forma de inte- grar conhecimento pré-existente. Vygotsky (2012) falava em dois tipos de atividade humana:

– Reprodutora, que consistiria em "reproduzir ou repetir modos de comporta- mento já anteriormente elaborados e produzidos ou ressuscitar traços de im- pressões anteriores" (Vygotsky, 2012, p. 21);

– Combinatória, que consistiria em "combinar os elementos velhos em novas combinações" (Vygotsky, 2012, p. 23).

6. Refira-se, a título de exemplo, a utilização prática daquela que será talvez a técnica de produção de ideias criativas mais notória, o Brainstorming, e que se verifica ser fre- quentemente aplicada de forma errada (cf. Isaksen & Gaulin, 2016).

O segundo tipo de atividade seria para Vygotsky "o fundamento do processo criativo".8 Ou seja, não se trata de um processo de criação de novos elementos, mas an-

tes um processo de criação de novas relações entre elementos já existentes. Esta é uma visão em certa medida consensual da criatividade, frequentemente mencionada em ou- tras definições de criatividade, a par de outras características.

A definição mais notória de criatividade será possivelmente a que descreve o fenómeno como "o processo de criação de ideias novas, que apresentam uma coisa radi- calmente nova ou uma reformulação radical de um problema já conhecido" (Newell & Shaw, 1972). Note-se que a maioria do trabalho sobre criatividade elaborado por autores como Newell, Shaw e Simon está diretamente ligado às teorias de resolução de proble- mas. Estes autores abordaram sistematicamente a temática da criatividade deste ponto de vista, por isso o produto da criatividade é sempre apresentado neste tipo de teorias como sendo "uma solução" para um "problema". Considerando que a dimensão utilitária do produto do design consistirá sempre numa solução para um determinado problema, esta abordagem não é de todo deslocada. No entanto, será talvez aconselhável pensar na criatividade em termos genéricos e falar em "ideias" no lugar de "soluções".

Deve-se ainda sublinhar que uma característica definidora da criatividade é que a solução criativa tem de acrescentar valor, seja através da reformulação de ideias já existentes, seja através da criação de ideias novas (Boden, 2004; Higgins, 1999). Isto significa que, quando se fala em criatividade, não se está a falar da criação de novidade só pela novidade: o carácter inovador tem de estar ligado à criação de valor. Conside- rando que o “valor” pode ser visto como “solução” se o problema for a ausência desse mesmo valor, as teorias de resolução de problemas tornam-se então aplicáveis a qual- quer fenómeno criativo sem reservas.

O difícil consenso quanto à própria definição de “criatividade” foi durante muito tempo um obstáculo ao progresso da investigação nesta área. Atualmente, a mesma falta

8. Estes dois tipos de criatividade são muito semelhantes aos dois tipos de imaginação postulados por Ricoeur: a imaginação reprodutiva e a imaginação produtiva. Ver pág. 48 e seguintes para uma discussão sobre a conceção de imaginação de Ricoeur.

de consenso traduz-se não só na diversidade de abordagens à investigação da criativida- de, como também numa grande diversidade de temas e questões salientes tratados (Koz- belt et al., 2010). Kaufman e Sternberg (2010) advertem que, para compreender a criatividade, será necessária uma atitude "moderada e pluralista", porque nenhuma abor- dagem teórica forneceu até agora todas as respostas e porque uma abordagem que con- temple diferentes perspetivas providenciará um entendimento mais profundo da criatividade.

Adotando-se neste estudo a perspetiva de Kaufman e Sternberg, no sentido de uma visão moderada e pluralista da criatividade, não é apresentada aqui uma definição definitiva de criatividade mas sim as condições que se consideram necessárias ao fenó- meno criativo:

1. A criatividade opera sobre ideias 2. A criatividade produz ideias novas

3. Uma ideia nova é uma nova forma de relacionar elementos já existentes 4. A ideia produzida tem de trazer valor a um ou mais indivíduos

Corolário destas condições, a criatividade requer um ato intencional (na sua criação) e um juízo capaz de reconhecer os atributos de novidade e de valor do produto da criatividade.

As condições acima enumeradas verificam-se suficientes para produzir a defi- nição de criatividade de Newell e Shaw (1972) já citada, visto que uma “coisa radical- mente nova” pode também ser definida como “uma nova forma de relacionar elementos já existentes” porque qualquer “coisa” (ainda que “radicalmente nova”) será sempre passível de ser considerada um conjunto de elementos, uma vez que não há conheci- mento de um único produto da criatividade que tenha sido completamente criado

ex novo e que seja tão atómico que resista a ser definido em partículas mais

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