O lugar expressa as interações sociais cotidianas, contextualizadas dentro de escalas geográficas mais amplas e expressa uma orientação subjetiva advinda do viver, aonde indivíduos e comunidades desenvolvem profundos sentimentos através de suas experiências e memória (OSLENDER, 2002:5). O Sapê do Norte enquanto
lugar evoca elementos comuns a essas comunidades, construídos a partir da vivência
compartilhada e da memória de seus moradores. Fruto de formas de apropriação do espaço, a territorialidade dessas comunidades foi sendo tecida. “O espaço vivido e por eles apropriado traz traços profundos de sua negritude, que se afirma enquanto identidade: falar em “Sapê do Norte” é remeter-se a este território negro, em suas
origens e projeções” (FERREIRA, 2009:3).
Uma estimativa sobre a dimensão física do território que compreendia o Sapê foi realizada a partir da memória dos moradores mais antigos no contexto dos estudos para os Relatórios de Identificação e Delimitação dos Territórios
44 Quilombolas. Fez-se um levantamento preliminar de uma área a partir de informações e acompanhamento das comunidades que correspondia a 256.387,17 hectares, abrangendo parte dos municípios de Conceição da Barra, São Mateus, Jaguaré, Nova Venécia e Boa Esperança.
Fruto desse levantamento, o mapa 3 nos dá uma ideia da abrangência dessa territorialidade (faixa cinza escuro). Em vermelho estão as comunidades identificadas naquele momento. Essa versão nos mostra que a abrangência territorial das práticas e das referências espaciais e de pertencimento dessas comunidades transcende os limites dos municípios de Conceição da Barra e São Mateus. Esse levantamento traz a perspectiva de variação do território entre 200 e 300 mil hectares.
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Mapa 3: Área em estudo para identificação dos territórios quilombolas do Sapê do
Norte
Fonte: COMISSÃO QUILOMBOLA DO SAPÊ DO NORTE-ES; FERREIRA, S.R.B; OLIVEIRA JR., ANTONIO DE, 2005. Mimeo.
46 No processo de se redescobrir, o Sapê vai mostrando várias comunidades para o Estado gradativa e insistentemente. Tanto é que ao fazermos um levantamento sobre quantas e quais comunidades “remanescentes” de quilombos existem, encontramos variados números33 e nomes de diversas fontes.
Um dos primeiros levantamentos feitos sobre essas comunidades foi a pesquisa no âmbito do projeto“Territórios negros do Sapê do Norte” realizada em parceria das ONGs Fase e Koinonia e que tinha por objetivo realizar um amplo e detalhado levantamento da situação socioeconômica e ambiental das comunidades negras rurais de Conceição da Barra e São Mateus (KOINONIA, 2005:8). Esse levantamento inicial identificou cerca de vinte e oito comunidades (sendo umas ainda subdivididas), com aproximadamente 1.086 famílias. Como um dos resultados do trabalho, foi elaborado o seguinte mapa com as localizações de 29 comunidades.
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Considerando as demais comunidades que não foram reconhecidas pela Fundação Palmares, o número varia entre 32 e 40 comunidades.
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Mapa 4- Localização dos Territórios Quilombolas do Norte do ES
Fonte: FERREIRA, S. R. B. (Coord.). RTID da Comunidade Quilombola de São Domingos e Santana (PROJETO TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS DO ESPÍRITO SANTO – INCRA e UFES), novembro de 2006.
Outra fonte são as pesquisas realizadas no processo de desenvolvimento dos Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação Territorial do Sapê do Norte, através do Projeto Territórios Quilombolas no Espírito Santo, elaborado em parceria entre o INCRA-ES, a Universidade Federal do Espírito Santo, pesquisadores,
48 estudantes e comunidades quilombolas. O trabalho iniciado em 2004 identificou e delimitou 1034 comunidades no Sapê.
Mais uma fonte é a Fundação Palmares que reconhece cerca de vinte e nove comunidades na região entre 2004 e 200635. Ainda há a própria identificação feita pela Comissão Quilombola do Sapê do Norte36, organização política representativa de 32 comunidades quilombolas da região (CQSP e FASE, 2011).
Quadro 2: Comunidades Quilombolas do Sapê do Norte
Fonte: Cartilha Memórias do Sapê do Norte: um pouco das comunidades do norte do ES (CQSP, FASE, 2011:9).
34 São elas: Retiro, Monte Alegre, Serraria, São Cristóvão, Mata Sede, São Pedro, São Jorge, São Domingos, Santana e Linharinho. Estas foram conformadas em 6 processos que se encontram em trâmite há quase dez anos no Incra (Disponível em: http://www.incra.gov.br/index.php/estrutura- fundiaria/quilombolas/file/110-relacao-de-processos-abertos; acesso em abr. 2013).
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A identificação varia de acordo com os processos. Tem processo que abarca mais de uma comunidade. Além disso, há também o reconhecimento da Palmares sem ter tido entrada de processo pela comunidade. Desmembrando as comunidades nos processos abertos, temos 32 comunidades. Acrescentando ainda as reconhecidas sem processo aberto, temos 38 comunidades. Dados disponíveis em consulta por município (Conceição da Barra e São Mateus) em: < http://www.palmares.gov.br/quilombola/>; acesso em fev./2013 e no documento : “Lista das CRQs IDENTIFICADAS até 25-10-2013”, disponível no mesmo sítio eletrônico.
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Essa comissão foi criada em 2005 e desde sua fundação tem trabalhado para articular as comunidades quilombolas em torno das lutas pela terra, pela água, saúde, educação, produção, alimentação, trabalho e cultura, visando promover a retomada dos territórios quilombolas, fortalecer a resistência do povo, contar sua história e transmitir às futuras gerações seus saberes. Se articula com a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas Zacimba Gaba e com a CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) (CQSP, Fase, 201:5).
49 A partir dessas diversas fontes organizamos o seguinte panorama das comunidades do Sapê na tabela abaixo.
Tabela 14: Comunidades negras rurais do Sapê do Norte Comunidade Município
Palmitinho 1, Palmitinho 2
São Mateus Cacimba
Divino Espírito Santo Santa Luzia
Serraria e São Cristóvão Dilô Barbosa
Beira Rio e Arural Chiado
São Jorge (Morro das Araras, Vala Grande, São Jorge, Córrego do Sapato I e Córrego do Sapato II)
Nova Vista 1, Nova Vista 2 Córrego Grande
Córrego Seco Mata Sede
São Domingos de Itauninhas Santaninha
Córrego Santa Isabel Estiva
Angelim 1 ou Santa Clara ou Porto dos Tocos
Conceição da Barra Angelim 2 ou do Meio Angelim Disa Angelim 3 ou Fontoura Angelim de Dentro Linharinho Córrego do Macuco Guilhermina Córrego do Sertão Coxi Santana Pequi
Sertão de Itaúnas (Santa Isabel)
São Domingos e Retiro Conceição da Barra e
São Mateus
(parte dos dois municípios)
Roda D’água (Porto Grande, Campo
Grande, Córrego do Alexandre e Lage) Córrego de Santana
Fonte: Ferreira (2009), Oliveira (2009), Baptista (2006), FCP/Minc, Comissão Quilombola (2011). Elaboração e organização da autora.
50 Do passado escravista, emerge uma identidade de origem comum que remete ao período Colonial, momento em que povos são trazidos da África, como Bantus, Nagôs, entre outros e são forçados a trabalhos compulsórios. As antigas fazendas coloniais constituem referências espaço-temporais para desvendar a situ-ação atual dessas comunidades.
As terras destas antigas fazendas situadas na região de São Mateus e seu entorno encontram-se, atualmente, habitadas pelas diversas comunidades negras rurais do Sapê do Norte. Das terras do Comendador Antonio Rodrigues da Cunha e sua esposa Rita Maria da Conceição Cunha, teria saído uma grande população negra que originou as comunidades de Linharinho (onde se encontram os vestígios de sua sede), Santana, Córrego São Domingos, Córrego de Santana e Angelin; da fazenda de seu
filho, o Major Antonio Rodrigues da Cunha, o “Barão dos Aimorés”, as
comunidades do Córrego Seco (bem próxima de sua sede), Nova Vista, Chiado, Morro da Arara e São Jorge; das fazendas de Olindo Gomes dos
Santos Paiva, o “Barão de Timbuí” e de Marcelino da Cunha, as
comunidades do Córrego Santa Isabel, do Angelin e também da Vila de Itaúnas. Fosse durante a escravidão ou ao final dela, estas populações negras foram se espalhando ao longo dos córregos, rios, florestas e sapezais (FERREIRA, 2009:62).