Este capítulo pretende mostrar de maneira sumária como surgiu a filosofia do cooperativismo como alternativa ao capitalismo e como saída para solucionar a “exclusão social” no mundo do trabalho.
O conjunto de transformações econômicas, sociais e tecnológicas ocorridas com a primeira revolução industrial, na segunda metade do século XVIII, teve seu berço na Inglaterra, por uma série de razões: a grande riqueza do subsolo em minerais, como carvão, ferro, estanho, cobre e sal; uma vasta rede fluvial navegável; localização geográfica que permitiu que a Inglaterra ficasse fora das guerras continentais; bem como outros fatores, tais como: a substituição do cultivo pela criação de ovelhas e conseqüente migração dos camponeses para as cidades que ficaram à disposição dos empresários, sujeitando-se a baixos salários. A.exploração do trabalho nas fábricas não tinha limites: eram longas as jornadas de trabalho e as crianças eram colocadas no trabalho logo que conseguiam se sustentar. Isto levava à debilitação dos trabalhadores fisicamente, tendo com conseqüência altos índices de morbidade e mortalidade (SINGER, 2002a).
Após o longo ciclo de guerras na Europa, provocada pela Revolução Francesa que se encerrou apenas em 1815, com a vitória britânica sobre Napoleão, em Warterloo, a Inglaterra enfrentou um período de grande depressão. Conta a história que foi Robert Owen quem diagnosticou que a crise se devia à dissipação da demanda de armamentos, navios e demais produtos consumidos na guerra, o que conduziu ao desemprego, ou seja, trabalhadores até então ocupados com a produção bélica, eram obrigados a reverter esta situação (SINGER, 2002a).
Assim, Owen, britânico, então proprietário de um complexo têxtil em New Lanark, decidiu na primeira década do século XIX restringir a jornada de trabalho e proibir o emprego infantil. Isto resultou no aumento da produtividade e ele
passou a ser motivo de grande admiração em todo o mundo. Em 1817, Owen apresentou ao governo britânico um plano, em que o fundo do sustento aos pobres fosse revertido na compra de terras para a construção de “aldeias cooperativas”. Viveriam aí cerca de 1.200 pessoas que produziriam o seu próprio sustento e os excedentes da produção poderiam ser trocados em outras aldeias (SINGER, 2002a). Owen tentou mostrar que haveria imensa economia ao reinserir os pobres na produção ao invés de ajudá-los. O governo britânico, no entanto, negou-se a implementar este novo plano. Com a perda da admiração da classe rica e desgostoso com a rejeição de suas idéias, mudou-se para o Estados Unidos com a intenção de implantar uma Aldeia Cooperativa, num meio social menos “contaminado”. Tratava-se não apenas de nova forma de economia, mas de uma mudança nas relações sociais, criada em 1825, em New Harmony, no Estado de Indiana, na qual Owen ficou na liderança até 1829, quando desiludido pelas constantes cisões, voltou para a Inglaterra. Mas enquanto permaneceu distante da terra natal, seus discípulos colocaram em prática as idéias por ele suscitadas, criando sociedades cooperativas por todos os lugares, vindo a coincidir com a perda gradativa do poder dos sindicatos (SINGER, 2002a).
A primeira cooperativa owenista foi composta por um grupo de jornalistas e gráficos em Londres, criada por George Mudie em 1821, que publicou o jornal The Economist e durou até 1822. Em 1823, foi criada a London Cooperative
Society, com o jornal The Political Economists and Universal Philanthropist. Em
1826, criou-se a Comunidade de Orbiston, liderada por Abram Combe, que se preocupava com a educação e o sistema de pagamento funcionava por hora. Durou apenas um ano, devido a sua morte.
Outra importante iniciativa liderada pelo Dr. William King (conhecido como médico dos pobres), em 1827, foi a Brighton Co-operative Trading Association (Associação Cooperativa de Troca de Brighton), composta por operários, que desenvolveu o cultivo de legumes para venda. Em 1828, foi publicado um jornal:
The Co-operator, no qual foram expostos os princípios do cooperativismo. Este
aponta, em meados de 1929, cerca de 70 cooperativas, posteriormente, perfizeram- se num total de 130. E, no final do ano, foram registradas pelo jornal cerca de 300 delas, seu último número (COLE 1944; apud SINGER, 2002a).
O cooperativismo e o owenismo se tornaram tão fortes que foram assumidos pelos movimentos sindicais. Um dos lideres destacados foi John Doherty que organizou os fiandeiros de algodão em um sindicato nacional, em 1929. Entre 1833-34 foi fundada a primeira central sindical internacional: O Grand Nacional
Consolidated Trades Unions. A criação de cooperativas patrocinadas pelos
sindicatos ou a união de grupos de trabalhadores do mesmo oficio levou inúmeras vezes a novas iniciativas de como atuarem por conta própria e, desta maneira, a greve passou a ter outro sentido. Ao invés de instrumento de reivindicações e melhorias de trabalho, começou a ser vista como a substituição de seus empregadores no mercado de trabalho pela autogestão (SINGER, 2002a).
Ao lado dessas cooperativas operárias surgiram também as “cooperativas integrais” que se vincularam à produção e consumo. Foram elas que deram origem aos armazéns cooperativos, com troca de produto por produto, sem uso do dinheiro. Empregavam seus membros e consumiam seus próprios produtos. Posteriormente passaram atuar como “bazares de troca” ou “clube de toca”, com moeda própria. Assim que Owen retornou à Inglaterra, investiu nesta idéia e criou a
Bolsa Nacional de Trabalho Eqüitativo cuja finalidade era a troca dos produtos entre
os cooperados. Em muitas cidades como Liverpool, Glasgow, Birmingham floresceu esta idéia. Algum tempo depois, Owen transferiu a gerência da Bolsa Nacional a um Comitê Sindical de Londres. (SINGER, 2002a)
As trocas nestas bolsas, conforme já se mencionou, foram intermediadas por moedas próprias. Singer (2002a) relata que os bens oferecidos eram avaliados pelo tempo médio ou horas de trabalho. Cada bem passou a ser avaliado por um comitê formado por profissionais do ramo. Adotou-se como padrão um operário que ganhasse seis dinheiros por hora. A hora de trabalho, acima desse valor, era aumentada na mesma proporção. Isto fez que o trabalho de valor menor fosse pago com o mesmo valor da hora trabalho e não avaliado pelo valor do mercado. “As bolsas de trabalho eqüitativo excluíam o lucro industrial na formação de seus preços”, é o que informa o autor (p.32).
Esta Bolsa Nacional de Trabalho Eqüitativo funcionou até 1834, quando foram encerradas suas atividades por derrota dos operários. Owen, no entanto, continuou sua luta contra os capitalistas, tentando unificar todos os
operários da construção e suplantar os empreiteiros privados, na luta pela criação de um sistema alternativo ao capitalismo. Propôs, em 1833, a formação da Grande
Guilda Nacional dos Construtores da Grã-Bretanha para assumir todo este tipo de
indústria. Propôs também, em Londres, a criação da Grande União Nacional Moral
das Classes Produtivas do Reino Unido que, segundo Cole (1944, apud SINGER,
1996), era constituída por delegados de todos os ramos de atividades e que tinha o objetivo de unificá-los na indústria do país (SINGER, 2002a). Ainda no mesmo ano, 1833, é aprovada a legislação Factory Act que estabelece algumas condições protetoras ao trabalhador, mas que por outro lado, recusa a limitação da jornada de trabalho de dez para oito horas, o que resultou numa reação dos sindicalistas liderados por Owen. Finalmente, houve reação por parte dos empregadores que resolveram fazer um lock-out e demitir todos os trabalhadores pertencentes aos
Sindicatos dos Trabalhadores da Construção. Isto determinou a derrota dos
trabalhadores que tiveram que deixar o sindicato, caso quisessem voltar ao trabalho (SINGER, 2002a).
Além disso, meses mais tarde, todos os sindicalizados das industriais têxteis também foram demitidos. Como resposta, os operários criaram novas cooperativas e tentaram vender os seus produtos em todo o país. A Grande
União Nacional Moral das Classes Produtoras (GUNM) tentou manter os operários
desempregados através de fundos recolhidos de seus associados. Com a multiplicação destes, em todas as partes do país, a GUNM não conseguiu manter estes. Com a condenação dos trabalhadores em Dorchester, em março 1834, as associações de ofício foram deixando o sindicato, extinguindo-se no final de1834. A GUNM e seus associados aboliram seus juramentos, que faziam parte da cerimônia de iniciação sindical, pois fornecia base para as condenações de Dorchester.
Mas em face da crescente militância dos empregadores e da declarada hostilidade do governo, os sindicalistas em muitas áreas começaram a perder o ânimo. Owen e seus discípulos puseram-se à frente da demanda pela libertação dos trabalhadores de Dorchester e entraram na GUNM em bloco, na esperança de salvar a situação. Mas a greve sem sucesso dos alfaiates de Londres-que em seu decorrer cobriram Londres de cartazes anunciando que estavam partindo em bloco para a Produção Cooperativa – piorou seriamente a situação e os empregadores de Yorkshire, retomando à ofensiva do ano anterior, conseguiram em maio e junho quebrar o poder do Sindicato de Leeds. O Sindicato dos Trabalhadores da Construção também estava ruindo face a repetidos ataques (...). E uma após a outra, as associações de ofício foram deixando o sindicato, que no
fim de 1834 se extinguiu. As oficinas de cooperativas de Derby tiveram de fechar, e os homens foram obrigados a voltar ao trabalho nas condições impostas pelos empregadores. O Sindicato dos Oleiros, que montou uma olaria em junho de 1834, teve que abandoná-la seis meses depois. A grande aventura sindical estava chegando a um fim sem glória. (COLE 1944, p.29, apud SINGER, 2002a, p. 34-35).
De qualquer maneira, o cooperativismo, como modo de produção alternativo ao capitalismo, tornou-se um movimento forte que passou a ser chamado mais tarde de República Cooperativa e, sem dúvida alguma, deixou um rastro marcante neste momento histórico da Grã-Bretanha. A figura principal que sintetizou este pensamento foi Owen, o grande protagonista da economia solidária do século XIX.
Para completar estas considerações, não se pode deixar de buscar, sucintamente, a experiência francesa, na figura de Charles Fourier, cujo sonho era de que algum capitalista se interessasse pelo seu projeto. Este socialista utópico acreditava que cada pessoa poderia encontrar o trabalho que viesse ao encontro de suas paixões e trabalhar pelo prazer e não pela remuneração. Surge, então, a idéia de falanstério, comunidade de 1.800 pessoas que oferece a liberdade de escolha de trabalho. Difere da Aldeia Cooperativa de Owen porque não é coletivista. O resultado do trabalho seria repartido em proporções fixas sendo 5/12 pelo trabalho; 4/12 pelo capital investido e 3/12 pelo talento. Para que não houvesse a polaridade entre ricos e pobres, alguns mecanismos seriam criados, ou seja, os acionistas pequenos teriam um rendimento maior, proporcionalmente, em relação aos grandes. Todos, independentemente de trabalharem ou não, teriam uma renda mínima decente, pois trabalhariam por paixão. O sistema de Fourier é uma variedade do socialismo centrado na liberdade individual. Defendia ele que, para viver dignamente, é necessária uma renda mínima cidadã. Fourier teve importantes discípulos tais como: Muiron, Considerant, Godin, Mme. Vigoureux que estabeleceram a chamada Escola Associativa. Essas idéias floresceram após sua morte em 1837, abrangendo 3.700 membros. (SINGER, 2002a).
A importância do “movimento cooperativo” foi enaltecida em 28 de setembro de 1864, em Londres, no manifesto de lançamento da Associação
Internacional dos Trabalhadores (AIT) redigido por Marx. Ressalta ele a vitória da
economia política da classe operária. Para Marx, ficou comprovado que a produção, em larga escala, poderia ocorrer sem a existência de patrões e que os meios de
trabalho não precisavam ser monopolizados. Também reconheceu que o trabalho escravo e servil é uma forma transitória, com tendências a desaparecer, diante do trabalho associado, feito com alegria e satisfação. O trabalho cooperativo:
Se mantido dentro do estreito círculo dos esforços casuais de operários, isolados, jamais conseguirá, deter o crescimento da progressão geométrica do monopólio, libertar as massas, ou sequer aliviar de maneira perceptível, o peso de sua miséria (...) Para salvar as massas laboriosas, o trabalho cooperativo deveria ser desenvolvido em dimensões nacionais (...) (MARX, sd, p. 319-320).
Enfatizava Marx a importância da união entre os operários, já que existem em grande número. E pontua que o número por si só nada representa. Há de existir o laço de fraternidade entre si, dirigido pelo conhecimento, pois quando este é negligenciado, está fadado ao fracasso comum (MARX, sd).