Masud Khan conta que certo dia foi procurar Winnicott, empolgado com um livro que queria sugerir que ele lesse (Freud and the crisis of our culture, de Lionel Trilling), ao que Winnicott respondeu:
“Não adianta, Masud, me pedir para ler qualquer coisa! Se me cansar eu caio no sono no meio da primeira página, e se me interessar eu vou começar a reescrevê-la no fim daquela [mesma] primeira página”. Claro que ele estava tirando sarro dele mesmo, e de mim mais ainda, e ele de fato tinha talento nisso. Mas ele também estava falando a verdade, e a verdade entre nós, humanos, acontece apenas através de metáfora ou paradoxo (KHAN apud NEWMAN, 1995, p. 456).
Winnicott era claramente um homem muito inventivo; ao mesmo tempo, essa inventividade parecia assumir certo tom angustioso, quase como se ele não pudesse se submeter ou depender, como se a cada momento seus pensamentos tivessem de ser radicalmente seus. Essa imagem coincide com a imagem do Winnicott que escolheu cursar medicina para nunca mais depender de um médico, quando quebrou a clavícula na adolescência (KAHR, 1996; PHILLIPS, [1988] 2007; RODMAN, 2003); coincide com o Winnicott que dormia nas palestras (GOLDMAN, 1993b; CLANCIER e KALMANOVITCH, [1984] 1987); com o Winnicott quase indiferente ao “mundo lá fora” quando envolto em pensamentos (GOLDMAN, 1993b). Coincide sobremaneira com a compreensão winnicottiana de que a intelectualidade pode funcionar como uma defesa, e com o Winnicott que tinha uma repulsa pessoal pelo intelectualismo erudito (RODMAN, 2003).
Essa inventividade levada às últimas consequências parece ter uma dimensão defensiva; revela, ao mesmo tempo, a singularidade de um pensador capaz de habitar sua própria condição e retirar desta contribuições significativas para um campo de pensamento compartilhado. Mesmo que tenha dificultado as coisas para os psicanalistas em função de sua impossibilidade de pegar emprestado ou simplesmente fazer referência às ideias de outros autores, Winnicott pôde contribuir de forma decisiva para o pensamento psicanalítico compartilhado – e me parece que a denominada psicanálise trans-escolas ou a filiação à psicanálise em transferência nômade é profundamente dependente do tipo de lógica que Winnicott propõe. A impressão que se tem, retrospectivamente, é de que
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Winnicott adiciona um tom de Escher31 ao edifício metapsicológico da psicanálise, permitindo que se transite entre autorias e formas de compreensão que seriam incomunicáveis não fosse a incorporação por Winnicott da lógica do paradoxo à psicanálise. E aí acredito que a dimensão defensiva do estilo winnicottiano levou-o a criar
um novo mundo para morar: o mesmo Winnicott que tinha dificuldade para se deter no
texto freudiano, que recusava o formalismo, que não conseguia fazer referências explícitas às influências em seu pensamento favoreceu a criação de uma forma de circulação em psicanálise em que as filiações perdem sua ascendência autoritária, em que as separações entre os edifícios metapsicológicos são desconstruídas com uma pitada de paradoxalidade e surrealismo.
Em A angústia de influência, Harold Bloom ([1973] 2002, p. 25) afirma que “chegar atrasado, em termos culturais, jamais é aceitável para um grande escritor, embora Borges fizesse carreira explorando sua secundariedade”. Podemos compreender a colocação de Bloom como uma referência aos textos de Borges sobre autores que o precederam – suas conferências sobre autores ingleses, seus prólogos e comentários. A parte que me parece mais significativa da obra de Borges, e certamente a parte que o imortalizou na literatura ocidental moderna, não passa por aí: seus trabalhos efetivamente imortais são seus contos, e neles, segundo me consta, a afirmação de Bloom é igualmente precisa, mas por outros motivos. Se em seus contos Borges explora sua secundariedade – e me parece efetivamente que o faz –, ele a explora de forma muito similar à forma como Winnicott “explora” a tradição psicanalítica: quando ele faz referências diretas à tradição, elas no geral são diagonais ou obscuras; muitas vezes, são inventadas ou desencaminhadoras. A grande diferença entre a relação de Borges e de Winnicott com a influência talvez seja que Borges tinha orgulho e prazer em ser um erudito, e conciliava sua erudição com seu trabalho de criação; a tradição conforme retratada por Borges, no entanto, assemelha-se a uma construção escheriana tanto quanto a metapsicologia a partir de Winnicott32. Se em Winnicott as inovações estão obscurecidas e os paradoxos devem ser tolerados e não resolvidos em todas as suas dimensões, em Borges, as construções mais
31 M. C. Escher (1898-1972) foi um pintor cujas obras mais famosas se assentam na ambiguidade, no
paradoxo e na ilusão.
32 Tomando a influência do ponto de vista do “conjunto de mecanismos em última análise de natureza
defensiva”, o caso de Winnicott parece ser mais grave do que o de Borges, já que Borges aparentava tranquilidade em nomear influências e situar-se como retardatário. O que ambos parecem conjugar é a distorção paradoxal da influência enquanto filiação e enquanto submissão, no que chamei de “revolução não- violenta”.
notáveis da literatura erudita são fantásticas (inventadas), os autores posteriores são referência aos antecessores, as histórias se comunicam subterraneamente.
No epílogo de um de seus últimos livros, Borges afirma: “Espero que as notas apressadas que acabo de ditar não esgotem este livro e que seus sonhos continuem se ramificando na hospitaleira imaginação daqueles que agora o fecham” (BORGES, [1975] 2009).
Goldman nos leva a crer que Winnicott compartilha a expectativa que Borges declara nessa citação. Segundo ele, “Winnicott preferiria que as pessoas transformassem criativamente suas ideias, usando-as para suas próprias necessidades, a que aderissem a elas como uma nova ortodoxia” (GOLDMAN, 1993b, p. xii-xiii).
Talvez esta seja a grande convergência entre as propostas de Borges e de Winnicott: o estilo alusivo, paradoxal, escheriano convida o leitor a habitar o texto, depois de fechado o livro, para apropriar-se dele – desconstruí-lo enquanto coisa pronta, sonhá-lo a partir de seus impossíveis ângulos, criá-lo como coisa própria. As notas apressadas são só o começo; o autor convida o leitor, após o fim do livro e tendo-o já fechado, a ramificar os sonhos que o livro é: fechar o livro para sonhá-lo, para reescrevê-lo.