4.1 Analysis
4.1.2 Participant’s response
O tema da “participação em projetos ou programas” (públicos ou não governamentais) também foi objeto de indagação. Constatamos que apenas 24% dos jovens participam de algum tipo de programa no 7 de Setembro, ou seja, dos 108 jovens, apenas 26 participam. No caso desse local, todos os jovens que participam são do Programa Agente Jovem. Já no Pinheirinho a participação dos jovens em programas foi ainda menor (18%), ou seja, dos 115 jovens, apenas 21 deles participam. Nesse local, os jovens são participantes, em sua maioria (11 jovens) do Programa Agente Jovem. (Tabela 37)
Os outros (10 jovens) são participantes dos seguintes programas: projeto Arte da Saúde (oferecido pelo Fórum Mineiro de Saúde Mental), Escola Aberta (monitor de basquete), curso de áudio visual e de informática oferecidos pelo NAF, curso de cabeleireiro oferecido pelo Centro de Apoio Comunitário (CAC), curso de crochê e aula
de dança oferecidos pelo CIAME (público), programa fornecido pela Cruz Vermelha, curso de informática oferecido pelo PRONAI (público/estadual) e curso de informática oferecido pela escola.
Embora os jovens do Pinheirinho sofram o estigma e estejam, de certa forma, mais isolados, percebemos que há mais atividades para eles do que no 7 de Setembro. Isto talvez seja explicado pelo fato de haver, no bairro onde se encontra o Pinheirinho, uma grande ação de ONGs e também do poder público, que já se inseriu no local antes mesmo do Programa BH Cidadania. O local é bastante conhecido por ser “alvo” de muitas ações. Dos jovens participantes de programas no Pinheirinho, apenas 3 são do sexo masculino (Escola Aberta, Cruz Vermelha e Informática), o que nos aponta que as moças, podendo circular mais que os rapazes, acabam participando mais das atividades que são oferecidas no local do que os rapazes.
Tabela 37- Total de jovens em participação em programas/microárea
Área/ Participação em programas 7 de Setembro (%) Pinheirinho (%) Participam Não Participam 26 82 24 76 21 94 18 82 Total 108 100% 115 100%
A maioria dos jovens que participa de algum programa, nas duas microáreas, encontra-se no Ensino Médio e na faixa etária de 15 a 17 anos, em geral mais presente na oferta pública em virtude dos dispositivos do ECA. Por outro lado, poucas são as alternativas existentes para os mais velhos129.
Quanto ao sexo, no 7 de Setembro, os jovens participantes se dividem entre masculino e feminino, na mesma proporção, ou seja, 50%. Já no Pinheirinho, a maioria dos participantes é do sexo feminino.
Tentamos, no decorrer deste capítulo, revelar o modo como os jovens têm vivido suas condições juvenis a partir de alguns processos que marcam a juventude como singularidade. Trouxemos as atividades nas quais as vidas desses jovens estão centradas, seja na escola, família, no trabalho, no lazer ou na religião.
As relações entre juventude e a escola, família, trabalho e religião foram temas investigados junto aos jovens e trouxeram dados para entendermos melhor a
configuração de suas condições de vida, bem como sua entrada no mundo adulto. Os processos de socialização na experiência juvenil aparecem de formas diversas, seja através da escola, seja através da família e dos amigos. A análise aponta para uma pequena importância do poder público como participante ativo nessa vivência da condição juvenil, enquanto a família ainda aparece como agência central e formativa para os jovens. Com menor expressão, a escola entra no universo dessa experiência. A religião também entra na vida desses jovens, seja na forma de participação mais ativa da instituição, especialmente a evangélica, seja no “crer em Deus” como algo que “faz
diferença” na vida de muitos desses jovens.
Os jovens, nas entrevistas, conseguiram expressar o que lhes faz falta, o que desejam e o que almejam para viver de forma mais satisfatória. Da mesma forma, conseguiram definir quem são eles, ou melhor, em movimento especular dizer quem e como são os jovens daqueles lugares. Ao dizer do outro, dizem também de si. Reconhecem que há mais de um tipo de juventude e ora se identificam com um, ora com outro. É a imagem de si através do outro.
Os jovens das duas microáreas identificaram basicamente dois tipos de juventude existentes em seus locais de moradia. No entanto, eles não se colocavam claramente em qual delas eles estavam inseridos. Uma delas, poderíamos dizer, é a juventude “do bem”. Nesse grupo estão os jovens que trabalham, estudam, são confiantes, lutam pelo que querem, “correm atrás”, são otimistas, não desistem frente aos obstáculos, os que não estão no mundo do crime e das drogas, são inseguros vivem com medo e com o “pé atrás” e tentam ter “cabeça forte”. O outro grupo, a “juventude do mal”, reuniria, segundo eles mesmos, os jovens que permanecem na “bandidagem”, seriam os “malandros”, os que estão envolvidos no mundo do crime e das drogas, os que não sabem interagir, são desanimados, não querem fazer nada, os que usam arma, são descomprometidos, são os que perderam a esperança, os folgados, enfim, os de “cabeça fraca”.
As percepções sobre eles mesmo apontam um quadro preocupante com relação a uma identidade com vários atributos negativos, como pudemos observar. Mas, ao mesmo tempo, há também sinais de uma juventude que “corre atrás”, que quer mudança e quer também ter novas perspectivas de vida. Sobretudo, conseguiram ser bastante críticos, tanto com relação a algumas características, como a acomodação, o desinteresse, a desmobilização juvenil, como também com relação ao fato de não terem apoio, de não serem ouvidos pela família e pelo poder público.
O mais importante é que foi reconhecido pela maioria dos jovens que, de fato, existem várias juventudes, com as quais eles podem, nesse processo de constituição pelo qual estão passando, identificar-se.
Mas podemos nos questionar até que ponto esses jovens introjetaram um discurso adulto sobre a juventude, ou seja, eles mesmos enxergam uma juventude “sem vontade”, “que não gosta de fazer nada”, “desesperançosa”, “desunida, “que só quer diversão” ou “preguiçosa”. Além disso, percebemos pelas entrevistas que os jovens também apresentam um discurso de demanda de ordem e, simultaneamente, reivindicam o tempo livre e a mobilidade.
São jovens que vivem em dois mundos porosos, em muitos momentos intercambiáveis: alguns jovens interagem com outros que pertencem à “juventude do mal” em momentos de lazer como o futebol, por exemplo. Mas esse intercâmbio é bastante restrito, pois temem o envolvimento. Vimos que os jovens, especialmente no Pinheirinho, temem a influência negativa dos “jovens do mal”, mas ao mesmo tempo os respeitam, pois a segurança, muitas vezes, é proporcionada exatamente por eles. No Pinheirinho, um ponto em comum das “duas juventudes” é a insegurança frente à polícia.
No Pinheirinho, percebemos que os jovens têm um discurso bastante rigoroso sobre a juventude, com atributos negativos. Pareceu-me que desde esse momento da vida os jovens já começam a introjetar o estigma vivenciado por seus pais, amigos ou conhecidos. O discurso desses jovens, de alguma forma, reforça o estigma que tanto lhes custa.
Pensar sobre o outro é também pensar sobre si. Ao serem perguntados sobre as juventudes existentes em seus locais de moradia, os jovens falaram dos jovens concretos, mas também falaram do que gostariam de ser. Só existimos na relação com o outro, que, portanto, é fundamental. Através do outro nos auto-organizamos, nos auto- reconhecemos. Os jovens precisam do diferente e do seu semelhante e carregam, ao mesmo tempo, a força da mudança e o desânimo, a coragem e o medo, a (suposta) completude, mas também a incompletude.
Falar de um outro permite diferenciar-se, construir a própria identidade. A identidade é o resultado simultaneamente estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, em conjunto, constroem os indivíduos (DUBAR, 1997). A identidade se dá pela identificação pela e na atividade com os outros. Vivendo com amigos, colegas,
vizinhos, esses jovens experimentam a construção de suas identidades juvenis a partir dos diversos campos de possibilidades que lhes são apresentados. Esses são os jovens que, ao falarem dos outros jovens, também falaram de si mesmos.