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Buscamos obter também, através dos questionários, alguns dados de como os jovens ocupam o seu tempo livre. As respostas nos apontam para o fato de que eles desejam ocupar o tempo livre, seja com cursos ou com o lazer. O lazer, como uma das formas de ocupação desse tempo livre, foi investigado. A resposta dessa questão era múltipla, ou seja, o jovem poderia escolher mais de uma atividade de lazer. A questão investigava basicamente as atividades de lazer dentro de casa e fora dela.

Quadro 08 – Atividades de lazer dos jovens do 7 de Setembro

Feminino Masculino Atividades dentro de casa

Assiste TV, filme 25 Atividades domésticas 18 Ouve música 10 Lê 06 Dialoga com a família 02 Namora 02 Estuda 02 Não faz nada/fica à toa 02 Toca instrumento musical 01

Total 68

Atividades fora de casa Festas/baladas 05 Shopping 03 Cinema 02 Agente Jovem 02 Igreja 02 Visita casa de amigos/

parentes 02 Joga bola 02 Anda de bicicleta 01

Total 19

Atividades dentro de casa Assiste TV, filme, vídeo game 22 Ouve música 05 Toca instrumento musical 04 Atividades domésticas 03 Estuda 03 Não faz nada/fica à toa 03 Fica no computador 02 Dialoga com a família 01 Lê a bíblia 01

Total 44

Atividades fora de casa Joga bola/futebol 16 Sai com amigos 08 Solta papagaio 06 Anda de bicicleta 04 Namora/paquera 03 Fica na rua 02 Joga basquete 01 Igreja 01 Shopping 01 Total 42

Quadro 09 – Atividades de lazer dos jovens do Pinheirinho

Feminino Masculino Atividades dentro de casa

Atividades domésticas 25 Assiste TV, filme 17 Não faz nada/fica à toa 08 Ouve música 05 Lê 05 Estuda 05 Dialoga com a família 01 Namora 01 Lê a bíblia 01 Arruma coisas pessoais 01 Total 69

Atividades fora de casa Visita casa de amigos

/parentes 05 Sai/anda à toa 04 Pratica algum esporte 04 Estuda música 01 Joga baralho 01

Total 15

Atividades dentro de casa Assiste TV, filme, vídeo game 08 Atividades domésticas 07 Não faz nada/fica à toa 05 Ouve música 01 Fica no computador 01 Dialoga com a família 01 Lê 01

Total 24

Atividades fora de casa Joga bola/futebol 15 Fica na rua/conversa com os vizinhos 08 Solta papagaio 01 Anda de bicicleta 01 Namora/paquera 01 Fica em bares 01 Joga basquete 01 Pagode 01 Curso de música 01 Total 30

No 7 de Setembro, as atividades de lazer das jovens são, em sua maioria, dentro

de casa (68 citações) e a principal atividade é “assistir TV ou filme” (25). Em seguida,

temos as “atividades domésticas” (18) e “ouve música” (10). Poucas foram as citações de atividades de lazer fora de casa, apenas 19. Ou seja, as moças se divertem mais

dentro de casa. (Quadro 08)

Já os rapazes se divertem tanto dentro de casa (44) quanto fora de casa (42), sem grande diferença. Os dados coletados deixam claro que os jovens saem muito mais para se divertir que as jovens, no 7 de Setembro. (Quadro 08)

Dentro de casa, jovens do sexo masculino e feminino têm como principal atividade de lazer “assistir filme, ver TV ou jogar vídeo game” (25 moças e 22 rapazes lembraram-se dessas atividades). A grande diferença está nas “atividades domésticas”. Enquanto 18 moças citaram-nas, apenas 3 rapazes fizeram o mesmo. (Quadro 08)

Fora de casa, os rapazes se divertem mais “jogando bola” (16), “saindo com

amigos” (8) e “soltando papagaio” (6). As moças se divertem indo a “festas/baladas”

(5) e a “shopping/cinema” (5).

No Pinheirinho, assim como no 7 de Setembro, as atividades de lazer das moças são realizadas dentro de casa (69 citações). Porém, no primeiro, percebemos uma inversão: enquanto no 7 de Setembro as “atividades domésticas” estão em 2º lugar (18) entre as moças, no Pinheirinho elas representam a principal atividade (25) e, em segundo lugar, “ver TV, filme” (17), que no 7 de Setembro é a principal atividade (25). (Quadro 09)

Os rapazes do Pinheirinho se divertem mais fora de casa (30) do que as moças (15) e a principal atividade, assim como no 7 de Setembro, é “jogar bola” (15). Dentro de casa, as moças (25) de dedicam mais às “atividades domésticas” que os rapazes (7), embora estas estejam em 2º lugar dentre as atividades realizadas por eles. A principal atividade de lazer dos rapazes, dentro de casa, é “assistir TV, filme ou vídeo” (8); enquanto que para as moças essa atividade aparece em 2º lugar, porém em número bem maior (17). (Quadro 09)

A principal atividade de lazer dos rapazes do Pinheirinho é realizada fora de

casa, e das moças, dentro de casa. No 7 de Setembro, a principal atividade de lazer dos

rapazes e também das moças é dentro de casa. Fora de casa, os rapazes dos dois lugares se divertem jogando bola. As jovens no 7 de Setembro, fora de casa, vão a

“festas, shopping, cinema”, enquanto as jovens do Pinheirinho “visitam amigos e parentes”. (Quadros 08 e 09)

Nos dois locais, as moças saem bem menos que os rapazes. Dentre as jovens, as principais atividades são: no Pinheirinho, realizam “atividades domésticas” e, em segundo lugar, “assistem TV e filme”; no 7 de Setembro, há uma inversão, “assistem

TV e filme” e, em segundo lugar, realizam “atividades domésticas”.

Independentemente do lugar, vale ressaltar que grande parte das moças, na verdade, tem um lazer limitado dentro de casa, já que realizar atividades domésticas não constitui um lazer, e sim uma obrigação. Já os rapazes dos dois locais “jogam bola”, em primeiro lugar e “assistem TV, filme ou jogam vídeo game”, em segundo lugar. (Quadros 08 e 09)

A maioria dos amigos dos jovens de ambas as microáreas são da vizinhança. No 7 de Setembro, não houve diferença quanto ao sexo: os amigos dos jovens do sexo masculino e feminino são da vizinhança, em primeiro lugar, e da escola, em segundo lugar. Já no Pinheirinho, percebemos uma pequena diferença: os amigos dos jovens do sexo masculino são da vizinhança e da escola. As moças também possuem amigos nesses dois lugares, no entanto, são também seus amigos os parentes e jovens de outros bairros em maior número que os rapazes, o que indica uma ampliação do circuito de trocas no universo feminino.

Nas duas faixas etárias, os amigos dos jovens são da vizinhança. No 7 de Setembro, os amigos dos jovens da faixa etária de 18 a 24 anos são da vizinhança, em primeiro lugar, e de outros lugares, em segundo lugar. Amigos da escola ficam em

terceiro lugar. Na faixa de 15 a 17 anos, a diferença está no segundo lugar, amigos da escola, e em terceiro, amigos feitos nos programas de que participam.

No Pinheirinho, na faixa etária de 15 a 17 anos, os amigos são da vizinhança, em primeiro lugar. Do colégio, ficam em segundo lugar, e de outros bairros, em terceiro lugar. Na faixa etária de 18 a 24 anos, em segundo lugar, os amigos são os parentes dos jovens, e, em terceiro, da escola e de outros bairros e do trabalho.

Com relação ao tempo livre, buscou-se investigar o que o jovem gostaria de fazer, que ainda não fazia. Em ambas as microáreas, a maioria dos jovens disse querer fazer cursos e aulas. A questão permitia resposta múltipla, ou seja, o jovem poderia citar mais de uma atividade de interesse.

Tabela 35 - Algumas atividades de interesse citadas pelos jovens/microárea

O que gostariam de fazer/microárea 7 de Setembro Pinheirinho

Cursos/aulas Trabalhar Não quer fazer nada Tocar um instrumento Praticar esportes Sair mais Qualquer atividade 45 21 12 02 06 02 05 50 30 21 - 04 01 03

No 7 de Setembro, dos 108 jovens, 45 demonstram esse interesse e no Pinheirinho, dos 115 jovens, 50 deles desejam fazer cursos e aulas. O trabalho foi citado como atividade desejada de 21 jovens do 7 de Setembro e de 30 jovens do Pinheirinho. Interessante observar que tanto no 7 de Setembro quanto no Pinheirinho houve jovens que disseram “não querer fazer nada”. No primeiro, 12 jovens não querem “fazer nada

em seu tempo livre” e no Pinheirinho, 21. (Tabela 35)

Como “cursos e aulas” foram as atividades mais citadas por eles, perguntei quais cursos eles desejam fazer. Os cursos ligados à informática, digitação e à computação foram os mais citados pelos jovens. No 7 de Setembro, por exemplo, dos 45 que desejam fazer cursos, 14 dizem querer fazer cursos nessas áreas. No Pinheirinho, dos 50 jovens, 15 manifestam interesse nessas duas áreas. (Tabela 36)

No 7 de Setembro, o curso de telemarketing foi citado por 9 jovens. Os demais jovens do 7 de Setembro citaram cursos variados: dança, auxiliar de escritório, costura e bordado, pintura, torneiro mecânico, artesanato, metalurgia, vendedor, inspetor de

qualidade, gestante, web design, atendente de comércio, violão, cultura, “qualquer curso profissionalizante”, cursinho pré-vestibular, mecânica, inglês, “curso do Agente Jovem”.

No Pinheirinho, os jovens citaram: dança, artes cênicas, artes plásticas, manicure, baby sitter, enfermagem, mecânica, inglês, artesanato, “qualquer curso profissionalizante”.

Tabela 36 - Cursos de interesse dos jovens/microárea

Área/ Cursos e aulas 7 de Setembro (%) Pinheirinho (%)

Informática, digitação e computação Telemarketing Padeiro/ajudante de padeiro Cabeleireiro Outros cursos 14 09 0 0 22 31 20 0 0 49 15 0 02 02 31 30 0 4 4 62 45 100% 50 100%

Todos os entrevistados queixaram-se da pouca possibilidade de terem lazer em seus locais de moradia. No entanto, exatamente por essas limitações, os jovens foram despertados para a inventividade e criatividade. São capazes de improvisar e buscam formas alternativas e diversificadas de lazer.

Os jovens do Pinheirinho dividem suas atividades de lazer entre a casa e a rua, e nessa última também fora da microárea. Em casa os jovens jogam vídeo game, lêem, ouvem músicas e assistem TV ou filmes no vídeo/DVD. Fora de casa, mas dentro da microárea, os jovens moradores do Pinheirinho brincam na quadra de vôlei, jogam peteca, handebol ou futebol e praticam esportes variados. Na rua, ficam conversando com os colegas, passeiam na praça, vão à igreja, andam de bicicleta, ficam na “esquina do cachorro-quente”, assistem o “jogo de futebol dos rapazes”, andam de skate, namoram, soltam papagaio/pipa, etc.

Quando saem da microárea normalmente visitam parentes e amigos, passeiam com os amigos, vão ao shopping ou parques, freqüentam o Centro Cultural, barzinhos, assistem “pegas” de moto, vão a clubes, danceterias, pagodes e também acampam.

Perguntados sobre o que demandariam para o bairro em termos de serviços e equipamentos declaram preferir: praças, quadra gratuita, discoteca, cinema, lan house, salas de vídeo game, quadra de futsal, piscina, baile funk, parque de diversão, um local

para “fazerem” som, pista de skate, praça de esportes, clubes, teatros, feira de artesanato e shows.

Os jovens do 7 de Setembro também dividem suas atividades entre dentro de casa e fora dela. Também costumam sair da microárea em busca de outras atividades de lazer. Em casa, os jovens jogam vídeo game, assistem filmes e TV, as moças cuidam da estética (fazem unha, arrumam cabelo, etc.). Fora de casa, porém dentro da microárea, os jovens andam de skate, soltam papagaio, jogam basquete, futebol, vão à igreja e na casa dos colegas, brincam de “pique”, freqüentam a pracinha ou simplesmente ficam conversando com amigos na rua ou na esquina de suas casas.

Buscam, também, se divertir fora da microárea, viajando nos finais de semana, acampando, fazendo churrasco ou almoçando na casa de parentes, passeando com a família, indo ao cinema, shopping, pizzaria, festas, forró, clube e zoológico.

Sobre o que os jovens do 7 de Setembro gostariam de ter em seu local de moradia, declararam desejar uma quadra gratuita de basquete, vôlei e futebol, mais praças, um parque, uma oficina de instrumentos musicais, um lugar onde os jovens pudessem se encontrar, divertir, comer alguma coisa com preço acessível, pista de skate, clube, oficinas profissionalizantes, um espaço cultural (grafite, dança, artes plásticas) e um espaço para ensaio de bandas e grupos de dança, cinema, um comércio mais amplo, mesa de ping-pong e rua de lazer nos finais de semana.

Como pudemos observar, as atividades de lazer são, de fato, bastante diversificadas, tanto no 7 de Setembro quanto no Pinheirinho. Para se ter algum divertimento diferente, quase sempre é preciso deixar o local de moradia, nas duas microáreas. As atividades normalmente são aquelas realizadas nas proximidades da rua de moradia ou em casa. O “sair para outros lugares” considerado como alternativa para quase todos os jovens encontra um impedimento: nem sempre os jovens têm dinheiro para se deslocar.

Alguns entrevistados apontaram, também, que o lazer é ameaçado pela violência presente nas microáreas. Sendo assim, há um clima de tensão e medo, pois o lazer, quando ocorre fora de casa, acontece nas vias públicas.

A dinâmica de ocupação do tempo livre pelos jovens é de significativa importância para se compreender os sentidos do próprio tempo da juventude Os jovens da pesquisa “Perfil da Juventude Brasileira” revelam

[...] situações de vida e processos sociais que reafirmam os traços da diversidade da cultura brasileira ao tempo que denunciam que esta se processa sobre bases socioeconômicas desiguais que incidem sobre as possibilidades de acesso, experimentação, consumo e criação dos mundo da cultura, do lazer e do tempo livre (CARRANO; DAYRELL; BRENNER, 2005, p. 176)

Outro ponto importante a ser considerado é que o lazer, segundo os autores citados acima, é uma atividade social e historicamente condicionada pelas condições de vida material e pelo capital cultural que constitui sujeitos e coletividades.

Os jovens entrevistados não têm essas condições materiais, o que representa um limite de inserção no mundo do lazer, como também se queixam de ainda estarem isolados no tocante às informações sobre o que acontece na cidade e em outros bairros.

As microáreas são, sem sombra de dúvida, desprovidas de equipamentos culturais suficientes para seus jovens moradores. Até mesmo a prática esportiva, atividade muito comum entre os jovens dos dois locais, é dificultada pela infra-estrutura exigida. Há poucos espaços para a realização dessa atividade e, quando ela existe, a situação física é precária, segundo os jovens. De todo modo, mesmo com problemas, percebemos uma inventividade do tempo livre nessas áreas desprovidas de equipamentos públicos de lazer e sem condições econômicas que favoreçam atividades recreativas com custo para o jovem.

Constatamos que há, sim, uma ausência do Estado na formulação e implementação de espaços e equipamentos de lazer que possibilitem experiências culturais, ficando os jovens entregues quase que unicamente às suas improvisações ou criatividade, um pequeno espaço de exercício da autonomia e da liberdade.

As atividades de lazer e o exercício do tempo livre são necessários para os jovens construírem suas normas e expressões culturais, ritos, simbologias e modos de ser que os diferenciam do mundo adulto (CARRANO; DAYRELL; BRENNER, 2005, p. 176). Os jovens elaboram subjetividades coletivas a partir de culturas juvenis. A sociedade brasileira tem associado o tempo livre e o lazer à maior possibilidade de marginalidade entre os jovens, ou seja, os lazeres juvenis são considerados como tempo social potencialmente negativo. Esse quadro de reapresentações que é também normativo acaba por recobrir a fala de muitos jovens das áreas investigadas.

Ao contrário, o tempo livre e o espaço de lazer podem ser considerados como espaços de aprendizagem das relações sociais em contexto de liberdade de experimentação.

É preciso considerar o lazer como tempo sociológico no qual a liberdade de escolha é elemento preponderante e que se constitui, na fase da juventude, como campo potencial de construção de identidades, descoberta de potencialidades humanas e exercício de inserção efetiva nas relações sociais. (CARRANO; DAYRELL; BRENNER, 2005, p. 176)

Também investigamos através do questionário o tema “participação em grupos

juvenis”. Os dados apontaram para uma participação bastante tímida nos dois lugares.

(Quadro 09)

Quadro 09 – Participação em grupos juvenis/sexo/microárea

7 de Setembro Pinheirinho

Grupo Moças Rapazes Moças Rapazes

Grupo religioso 03 03 01 01 Grupo musical/dança 01 0 02 0 Grupo esportivo 0 01 01 01

Outros 01 0 0 01

Total 05 04 04 03