Um dos fatos que marcaram seu passado político foi ter mandado três indivíduos, espancar, em 11 de junho de 1883, o cônego Marcelino Bittencourt e seu coadjutor o Padre Francisco Morano Rositi. 34
Saindo estes sacerdotes da Igreja Matriz, após acabar uma novena, e dirigindo-se para sua residência, foram atacados por homens montados a cavalo e surrados por cabo de relho. Tentando se defender “da ação rápida dos agressores o padre Morano esboçou uma reação, mas tomou um golpe no rosto que quase lhe fez perder o olho direito”. Enquanto isso o vigário Marcelino Bittencourt, atingido na cabeça, “desviava-se das patas do cavalo até chegar numa casa de esquina onde se encontravam algumas pessoas que o acudiram”. 35
Figura 1 – Pe. Marcelinho de Souza Bittencourt. Fonte: KARSBURG, 2007: 140. Os assaltantes logo foram reconhecidos como sendo João Fiel da Silva Filho, José da Costa Leite e Patrício Machado de Souza. Os dois primeiros foram presos ainda no dia 11
34 BELTRÃO, Op. cit., p.72.
35 KARSBURG, Alexandre de Oliveira. Sobre as Ruínas da Velha Matriz: Religião e Política em Tempos de
de junho de 1883, já Patrício de Souza conseguiu evadir-se logo após ter ajudado no espancamento.
A primeira testemunha a depor no inquérito aberto para apurar os fatos foi Eliza, escrava de 25 anos de idade, cujo proprietário era Nicanor Becker. Contou que na noite do dia 11 de junho, depois de ter acabado a novena, viu três indivíduos agredirem e darem bordoadas nos padres, reconhecendo, na mesma ocasião, o indiciado João Fiel que dava “diversos relhaços no Cônego Marcelino”. Disse mais, que “enquanto os dois companheiros fugiam do lugar do conflito viu o indiciado Fiel, montado a cavalo, ficar sozinho e continuar a tocar o mesmo vigário”. 36
Perguntado se sabia de alguma indisposição entre o cônego e o agressor João Fiel, Eliza falou que em uma das noites do leilão, ocorrido na Festa do Divino Espírito Santo, “deu-se uma alteração entre o mesmo Cônego e o indiciado ignorando o motivo”. 37
A segunda testemunha, Porfírio Gomes Maidana, praça da secção policial, com 20 anos de idade, afirmou em seu depoimento que “ouviu e viu o indiciado João Fiel declarar que havia de dar uma surra no Cônego (...) por ter dito em uma noite de leilão, que ele João Fiel estava bêbado e não devia estar ali”. 38
Os primeiros depoimentos apontam para o fato de que João Fiel teria sido motivado a agredir o cônego Marcelino Bittencourt e seu coadjutor Francisco Rositi por questões pessoais. Entretanto, outros indícios sinalizam para uma interpretação diferente. É o caso da declaração da quinta testemunha, Izabel Francisca. Quando perguntado se sabia quem eram os assaltantes dos padres ela respondeu que:
Não sabe nem ouviu dizer, porém que lamentando esse fato e chamando os autores de desgraçados, Cândida de tal lhe dissera que não falasse assim porque os autores dos ferimentos haviam sido mandados e por pessoa grande dizendo-lhe Senhoria de tal que o Subdelegado de Polícia Tenente Carlos David Haag lhe dissera, a ela Senhorinha, que lamentava era que os ofendidos não tivessem sido mortos e que os agressores não se tivessem evadido. 39
Izabel Francisca foi a primeira pessoa que levantou a possibilidade de haver um mandante para o espancamento, porém não soube citar nomes dos possíveis mentores do atentado. O sub-delegado supracitado, pela forma como se expressou, provavelmente
36 Processo-crime. Nº. 1040, Maço. 30, Ano. 1883, p.9. APERS. 37 Processo-crime. Op. cit., p.10.
38 Processo-crime. Op. cit., p.12.
também nutrisse inimizade pelo cônego, porém seu nome não foi mais relacionado com o episódio.
A ideia de um possível mandante foi reforçada quando José Ignácio Tenório, carpinteiro, foi dizer o que sabia sobre o ocorrido. Segundo José Tenório era “voz pública que fora a mandado do Tenente Coronel Martins”. 40 Mais adiante, no seu segundo depoimento, quando o promotor perguntou-lhe se sabia “se os denunciados presentes cometeram o fato criminoso de modo próprio ou mandado de alguém” respondeu que estando ele no dia seguinte ao ocorrido “em casa do Padre Marcelino, aí chegou o Major Duarte José de Oliveira, muito zangado e falando em voz alta, que quem tinha mandado praticar aquele atentado, havia sido o coronel Martins Höehr”. 41
Desta maneira, o testemunho de José Tenório corroborou a possibilidade de a agressão ter sido motivada por outros fatores. No Auto de Perguntas do acusado João Fiel, a ligação dos agressores com o coronel Martins Höehr ficou ainda mais evidente, pois quando indagado se conhecia os outros dois acusados respondeu que:
Conhece os dois, porém que não é amigo íntimo de nenhum e que no dia onze estava com os dois, José da Costa Leite e Patrício Machado, na casa do Tenente Coronel Martins Höehr e aí estiveram os quatro conversando - conversa que não pode relatar porque não prestou atenção. 42
Talvez nessa ocasião tenham tratado dos últimos detalhes da agressão planejada contra os padres, entretanto, João Fiel, alegando esquecimento, tentou esquivar-se de esclarecer o que teriam conversado naquela tarde evitando complicações. Segundo ele, depois de ter acabado esta reunião separou-se de seus companheiros indo para o “Hotel Leon onde tomou café” e que, portanto, não teria nada a ver com o incidente.
O outro agressor, José Costa Leite, também confirmou o encontro na casa do coronel, mas negou envolvimento com o crime, contudo, não soube explicar como sua arma estava descarregada e com vestígios de pólvora, tendo em vista que afirmara em seu depoimento tê-la deixado, carregada, em casa, antes de ir para a reunião com Martins Höehr.
Ao longo do inquérito policial, a ligação dos acusados com o crime ficou evidente. O Dr. Felipe Alves de Oliveira, juiz de direito interino e integrante do Partido Liberal,
40 Processo-crime. Op. cit., p.23. 41 Processo-crime. Op. cit., p.59. 42 Processo-crime. Op. cit., p.29.
concluiu os autos e sustentou a pronúncia dos réus “por ser isso conforme o direito e as provas dos autos” marcando a terceira sessão do júri para o dia 27 de setembro de 1883. 43
Na referida sessão, os jurados absolveram os réus de qualquer participação na agressão contra os padres. Diante desta sentença, Felipe Alves de Oliveira resolveu apelar para o Tribunal da Relação “por entender que as decisões do Júri eram contrárias às provas dos autos”. 44
Em 25 de julho de 1884 o Tribunal da Relação, em Porto Alegre, decidiu anular a sentença e o respectivo julgamento “visto ter-se acumulado, quando deveria ter sido distinto e separadamente sobre cada um dos réus”. 45 Com este resultado acabou o processo-crime analisado, não sendo possível apurar a decisão final deste caso pela ausência de documentos.
Apesar da existência desta lacuna, se pode inferir que o coronel Martins Höehr provavelmente esteve envolvido com o atentado. Para não deixar evidente a sua participação, de maneira hábil, arregimentou para fazer o “serviço” quem já tinha alguma querela com o cônego Marcelino Bittencourt mascarando, assim, uma possível ligação. Apesar de seu nome ter sido mencionado por algumas testemunhas não chegou a ser chamado para depor.
Acredita-se que isso esteja relacionado com o fato de que, nesse momento, ainda ele fazia parte do Partido Liberal, o qual dominava a situação política local, e por isso recebeu proteção e foi livrado de um julgamento. Apesar do benefício recebido pelo coronel, depois desse episódio, sua relação com a agremiação liberal teria ficado insustentável porque o partido não teria apoiado a atitude violenta planejada pelo mesmo, vindo este, então, a passar para o Partido Conservador, onde permaneceu até momentos finais do império quando então aderiu ao PRR.
Diante do que se pode notar, parece que o Partido Liberal oficialmente ignorou o possível envolvimento de Martins Höehr, não chamando-o para prestar depoimento nem investigando uma possível participação, entretanto, a represália houve, tanto que deixou de militar nas suas fileiras.
Ao certo, não se sabe que motivos teriam influenciado o coronel para intentar contra a vida dos párocos, já que nem os padres nem o coronel depuseram no processo. O espancamento pode ter ocorrido tanto por questões políticas quanto por questões pessoais. Sabe-se que ambos, nessa época, faziam parte do mesmo partido e da comissão de obras da
43 Processo-crime. Op. cit., p.122. 44 Processo-crime. Op. cit., p.155. 45 Processo-crime. Op. cit., p.177.
capela do Divino Espírito Santo, assim talvez algum desentendimento nas questões relativas a esta obra fosse o suficiente para causar a rixa que resultou nessa violência física.
Alexandre Karsburg, transcrevendo parte do relatório enviado pelo cônego Marcelino Bittencourt ao bispo Dom Sebastião Dias Laranjeira, salientou a possibilidade de a motivação para o crime ter sido política. O autor ressaltou o seguinte trecho da carta do cônego:
Em uma das novenas do Espírito Santo, estando no Império João Fiel Filho muito embriagado e inconveniente, pedi ao delegado que o fizesse retirar (...) e dizem que jurou vingar-se de mim (...). Isto crê- se agradou a um dos nossos homens políticos, que assentou de aproveitar para por em prática um axioma nefasto: em política um assassinato não é um crime, é sim remover um obstáculo! Insuflou e auxiliou os sicários e satisfez seus maus instintos! É voz publica e há os mais veementes indícios que [a agressão] parte do Tenente Cel. Martin Höehr! 46
Da leitura dos depoimentos dos réus, das testemunhas e do próprio fragmento do relatório do cônego Marcelino Bittencourt, não é possível saber, com certeza, quais foram os motivos do atentado. Apesar de o cônego afirmar que o coronel foi o mandante e relacionar o caso com política ele não apresentou subsídios concretos para estas acusações.
Dessa retrospectiva, feita sobre o passado do coronel, se verifica que, já em 1883, ele não parecia nutrir o seu temperamento com boas doses de calma e prudência frente às possíveis críticas ou contrariedades que poderia sofrer. E, de fato, não foi animado pelo espírito da concórdia que agiu, seis anos mais tarde, diante da censura que fizeram aos festejos de regozijo à república, por ele comandados.