1.3 Model and Treatments
1.3.2 Parameters and Treatments
No contexto da televisão brasileira, Cannito [36] levanta a problemática inserida na homogeneidade da grade de programação, concluindo que no Brasil existem três características que contribuem para a centralização e a pouca diversidade do conteúdo televisivo, são elas: (i) há concentração excessiva na televisão por assinatura; (ii) o fato do modelo de televisão pública nunca ter sido estabelecido com abrangência; e (iii) pela produção de televisão brasileira ser verticalizada, ou seja, ao contrário da maioria dos países, a emissora, além de veiculadora é também produtora de seu conteúdo, implicando em pouca diversidade de produtores.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a televisão surgiu como uma aliança dos estúdios de cinema, que sempre foram produtores audiovisuais, ou seja, grande parte do conteúdo veiculado nas televisões americanas é produzido por estúdios e produtoras externas.
Cannito [36] afirma que só se garante a diversidade da programação se for assegurada a diversificação dos grupos de produtores e dos processos de produção, tornando a grade de programação menos rígida, e mais aberta a novas experiências.
Sobre a centralização dos processos de produção, Mota [63] afirma que “efetivamente, nenhuma das nossas ditas televisões públicas, culturais ou educativas conseguiu transpor para a sua prática, refletida na programação, gestão e na relação com o público, formas operacionais de incluir interesses como a possibilidade de descentralizar a deliberação e os processos de produção”.
Em 1960, a Rede Globo, optou por uma grade muito rígida – naquele momento a rigidez foi importante para fidelizar os telespectadores com programas em horários específicos. Este formato continua sendo seguido pela Rede Globo, e pela maioria das grades emissoras até hoje. A televisão comercial tem receio de arriscar em novos formatos, e prende-se sempre nas mesmas fórmulas. Contudo, com a nova cultura de participação e dinâmica possibilitadas pelos fatores já mencionados, é preciso se adequar a este novo comportamento por parte dos usuários, que estão cada vez mais conectados a Internet.
42 Segundo Cannito [36], assistir televisão, antes de tudo, configura uma experiência de construção de uma esfera pública de debates em uma comunidade, uma experiência de interação, com outras pessoas que assistem. Ao contrário do cinema, o ambiente da televisão permite que se converse enquanto a programação é exibida.
Já percebemos usuários do Twitter e de outros microblogs divulgando e colocando em discussão assuntos que assistem na televisão em seu cotidiano, o que denota uma vontade de interagir, e de discutir em tempo real o que está sendo assistido. Este tipo de usuário constata que a televisão continua sendo uma opção de entretenimento, contudo, não aceita mais a cômoda posição inerte e sem participação, ou seja, além de consumir o produto televisivo, o mesmo quer ressignificar os conteúdos que recebe, quer compartilhar suas opiniões e saber o que os outros têm a dizer.
A MTV24 (Music Television Brasil) possui um modelo de organização da sua grade de programação que se contrapõe a problemática apresentada por Cannito, principalmente no quesito: diversificação de produtores; e recentemente anunciou uma nova programação baseada em blocos de 15 minutos. Estes programas procuram refletir o novo comportamento dos usuários e a dinâmica da Internet, além da inserção de conteúdo produzido pela audiência. Como são de curta duração, podem manter integrações com outras mídias, que necessitam de uma abordagem mais ágil e direta, como por exemplo, as redes sociais.
Segundo a MTV, essas atrações têm o dobro da média de audiência daquelas com maiores duração. Depois de constatar a boa audiência dos programas “15 minutos” e “Fudêncio e Seus Amigos” – ambos com 15 minutos –, a MTV decidiu criar outras quatro atrações com esse mesmo formato. A procura pela diversidade de conteúdo levou a emissora a abrir espaço para as produções caseiras e independentes, muitas delas produzidas pelo público consumidor.
Neste contexto, as estratégias adotadas pela MTV são um bom exemplo para os produtores de conteúdo e emissoras de televisão, que desejam aproveitar-se da tecnologia digital convergente para construir redes independentes de televisão. Enquanto grande parte das emissoras de televisão continua praticando um formato de programação com o objetivo de atingir todos os públicos, com produtos audiovisuais produzidos para variadas classes sociais, gênero, idade, escolaridade e preferência de consumo, o modelo de programação da MTV é mais segmentado e focado em um público-alvo específico, neste caso, a população mais jovem.
Diante disso, podemos observar que é possível utilizar outras estratégias em relação ao formato da grade de programação, contrapondo o modelo rígido implementado pela Rede Globo
43 desde o início dos anos 60, partindo para um modelo mais flexível, viabilizando construção de redes independentes de televisão.
Segundo Cannito [36], esta tendência de programação reflete em dois padrões de qualidade: (i) por um lado, as grandes redes poderão produzir conteúdo de grande qualidade técnica em alta definição; (ii) por outro lado, haverá o surgimento de inúmeras redes locais e segmentadas que deverão procurar outro padrão de qualidade. Estas redes locais serão focadas em grande parte na programação ágil, ou seja, com um foco maior na transmissão ao vivo.
Em relação à TV pública, Mota [63] afirma que a permanência e a promoção do bem comum é a razão de ser do público, destacando três aspectos de seu pensamento: comum é o que nos é próprio, apropriado e apropriável: (i) próprio, é o que se pode compartilhar, ou seja, a nossa visão de mundo, os nossos valores e o nosso conhecimento; (ii) apropriado, é o que é relevante, com que nos identificamos, que permite o crescimento e se transforma em alimento para garantir a mudança, o movimento e a transformação contínua da vida; e (iii) apropriável que conota o sentido de patrimônio de que posso me servir porque pertence a todos e é de responsabilidade de todos.
Todos os três aspectos mencionados por Mota refletem a televisão como modelo mais próximo do público, ou seja, em um contato mais intimo com a audiência, onde a mesma se torna parte integrante dos processos.
Mota, conclui que: “[...] não há justificativa plausível para a inexistência desses instrumentos nas televisões, incluindo as estatais, educativas e públicas, e que a grande maioria das emissoras que se dizem públicas não opera os seus dispositivos descentralizadores.”
Dessa forma, é preciso refletir sobre o modelo de comunicação vertical característico da televisão no Brasil. A implementação de processos horizontais tem o potencial de diversificar as opiniões, tornando a televisão um ambiente formado por múltiplas visões que vão assegurar a promoção do bem comum, destacado por Mota.