Há em Otelo outros elogios à Espanha espalhados por toda a obra, não se restringe apenas à representação da luta contra os turcos em 1571. São diferentes referências culturais ao universo ibérico, sua literatura, poderio militar e larga extensão dos domínios sob a Monarquia Hispânica. Os romances de cavalaria ibéricos, presentes em outras peças do autor, parecem revividos dessa vez até mesmo na trama, como na narração da vitória marítima em Chipre, ou na caracterização do protagonista - mouros exóticos destacavam-se também nesses romances.484 Otelo foi aprisionado, vendido como escravo, viu em “paisagens surpreendentes” “canibais” que comiam uns aos outros, conseguiu comprar sua própria liberdade e se destacar na carreira das armas (I, iii, 129-171). 485 O romanesco herói consegue conquistar a donzela disputada, enganar o pai da moça com a narração de aventuras, ganhar a condescendência do duque de Veneza e ainda salvar a exótica Chipre das mãos de maldosos vilões infiéis com o auxílio de uma tempestade providencial.
Outro importante símbolo na trama associado à Espanha, em seu aspecto militar, não deixa de ser elogiosamente retratado. A arma que serviu como companheira do protagonista em suas maiores aventuras é uma “espada de Espanha”, referência direta às espadas fabricadas em Toledo, consideradas as melhores da Europa.486 Em Romeu e
Julieta (c.1595), Shakespeare já havia mobilizado este signo em trecho conhecido pelos
483 Como afirmou o estudioso Emrys Jones em seu clássico texto ‘Othello’, ‘Lepanto’ and the Cyprus
Wars, “The connexion of Othello with the ‘Cyprus Wars’ is not only of a general kind; there are one or two precise details which suggest that Shakespeare had the events of 1570-1 in mind”. Emrys Jones. ‘‘Othello’, Lepanto’and the Cyprus Wars’. In.: Shakespeare... Op. cit. p. 50. É também possível que estes detalhes tenham sido fornecidos pelo próprio poema de Jaime que Shakespeare utilizou como fonte.
484 Shakespeare até mesmo no final da carreira usou como fonte para a última peça - a desaparecida
Cardenio - a obra prima de Cervantes, Dom Quixote. Para referências, ver nota 108.
485 A descrição de “canibais” em “paisagens surpreendentes” parece feita sob a projeção que as Índias de
Castela tinham sobre o imaginário inglês. Como vimos, os índios canibais americanos sob a Monarquia Hispânica também serviriam posteriormente como inspiração a Shakespeare na composição de Caliban em A Tempestade (c. 1611). Ao menos neste último texto, o dramaturgo usou como fonte o ensaio de Montaigne, “Dos Canibais” (1580), em que o autor francês discorre sobre os índios tupinambás da Baía da Guanabara, que estava naquela época sob domínio Habsburgo. Sobre a representação dos índios tupinambás brasileiros como elemento de composição em Caliban, ver: Ricardo Cardoso. ‘Shakespeare, Montaigne and Rio de Janeiro’. British Library – American Collections Blog, 14 october, 2016. Disponível em: http://blogs.bl.uk/americas/2016/10/shakespeare-montaigne-and-rio-de-janeiro.html Acessado em 24/11/2016. Ricardo Cardoso. O Brasil de Shakespeare: Calibans tupinambás e o mito da
‘Ilha Brazil’ na imaginação renascentista inglesa. Anais do XXVII Simpósio Nacional de História –
ANPUH, 2013.
486 William Shakespeare. Romeo and Juliet. Edited by Brian Gibbons. Arden Shakespeare Second Series.
atores como um dos mais difíceis para interpretação na dramaturgia mundial, aquele em que o personagem Mercucio descreve o efeito gerado pela cavalgada da rainha das fadas sobre os sonhadores:
E assim ela cavalga noite por noite
No cérebro dos amantes, e então eles sonham com o amor; Nos joelhos dos cortesãos, que sonham com cortesias; [...]
Às vezes ela passeia sobre o pescoço de um soldado
E então ele sonha que está cortando gargantas de estrangeiros, Com estupros, ambuscados, espadas espanholas,
Brindes e tragos com cinco braças de altura; e então ressoam Tambores em seus ouvidos, com os quais ele salta e acorda, E cheio de medo faz uma oração ou duas
E dorme de novo. [...]
(Romeu e Julieta, Ato I, cena iv, ref. versos 71-73; 82-88).487
Mercucio nesta fala, em espiral dramática que salta da doçura dos sonhos para a violência dos pesadelos, narra como os desejos e temores de alguns tipos sociais são mobilizados pela rainha das fadas durante o sono. Assim, vemos que o melhor sonho de um soldado comportava “ambuscados”, “espadas espanholas”, “brindes e tragos de quatro braças de altura”. 488 A julgar pelas palavras utilizadas e a sequência em que aparecem, há uma possível evocação das batalhas entre soldados ingleses e espanhóis em alto mar, como em 1588, e parece ser exatamente a lembrança deste tipo de embate que transforma aventuras oníricas em pesadelos na fala. Se nos primeiros versos há a narração de sonhos singelos, Mercucio a partir das referências militares à Espanha descreve o pior pesadelo de um soldado adormecido, o ressoar de “tambores em seus ouvidos”, que provavelmente o chamavam para a luta contra soldados espanhóis e suas espadas feitas em Toledo.489 O terror é tanto que o soldado acorda, para depois cheio de
487 “And in this state she gallops night by night | Throug lovers’ brains, and then they dream of love; |
O’er courtiers’ knees, that dream on curtsies straight [...] Sometime she driveth o’er a soldier’s neck, And then | dreams he of cutting foreign throats, | Of breachs, ambuscados, Spanish blades, | Of healths five fathom deep; and then anon | Drums in his ear, at which he starts and wakes, | and being thus frighted, swears a prayer or two, | And sleeps again”. Este trecho faz parte da tradução que empreendi como exercício intelectual em 2013 para encenação de Romeu e Julieta, feita na Biblioteca Mário de Andrade na cidade de São Paulo no ano seguinte.
488 “Ambuscados” é uma palavra com ressonância espanhola que significava “emboscadas”.
489 Não deixa de ser curioso o fato de que a região de Birmingham, próxima à cidade natal de Shakespeare,
medo rezar e poder dormir novamente.
Antes de Otelo temos outra representação significativa dessas espadas temperadas na Espanha. Em Bem Está o que Bem Acaba (c.1604) há um solilóquio engraçado que gira em torno da carga simbólica que esta arma possuía. O personagem pernóstico com o significativo nome de Paroles se vê em uma enrascada: precisa provar ao rei que lutou bravamente contra soldados inimigos, quando nem sequer trocou um olhar com eles.490 Paroles logo tenciona forjar provas para comprovar sua pretensa coragem na luta. Pensa primeiro em criar feridas em si mesmo, que seriam mostradas como vestígios da batalha, depois em rasgar suas próprias roupas para evidenciar a ferocidade da luta travada, por último pensa em quebrar sua “espada espanhola” para exibi-la como prova irrefutável de coragem guerreira.
Ao final de Otelo, após descobrir as artimanhas de Iago que o levaram a assassinar Desdemona, o mouro decide matar-se, e em discurso cheio de nobreza dirigido às autoridades venezianas mostra sua relação com a arma que escolhe:
Tenho outra arma neste quarto. É uma espada da Espanha temperada em água fria... Oh! Aqui está! [...] Melhor jamais pendeu da coxa de um soldado. Já vi o dia em que, com este braço fraco e esta boa espada, abri caminho através de obstáculos vinte vezes mais poderosos do que vossa resistência. Mas, oh! Inútil fanfarronada, quem pode controlar seu destino? Agora não é mais assim. Não temais, mesmo estando eu armado. Cheguei ao fim de minha viagem, minha última etapa, ponto de referência de minha vela extenuada.
(Otelo, Ato V, cena ii, ref. versos 250-2; 257-66)
Em importante momento final de sua trajetória heroica, quando olha para trás e vê suas glórias militares em um passado cheio de bravura, Otelo se lembra da espada espanhola que o acompanhou e que agora lhe servirá na morte. Percebe-se a carga simbólica que a Espanha sinalizava no universo militar europeu: uma nação que produz as melhores espadas, companheiras de grandes guerreiros em suas aventuras, o pior pesadelo de soldados inimigos. Não à toa, este discurso evoca as primeiras linhas do poema London, Routledge, 2002. p. 22. A comparação das espadas espanholas e aquelas feitas próximo a sua casa provavelmente foi feita por Shakespeare em algum momento antes que escrevesse os trechos citados.
490 “Paroles” é “palavras” em francês, a ação se passa na França. Nas obras de Shakespeare os nomes dos
personagens geralmente carregam sentidos muito esclarecedores quanto às suas personalidades. Muitas vezes o nome por si funciona como alegoria, como no caso do discutido Dom Armado.
Lepanto.491A peça aparentemente servia de forma adequada aos interesses pessoais e diplomáticos de Jaime Stuart, foi reapresentada outras vezes na Corte durante os anos seguintes.492