5.7 Effects on the Transport Mode SSS
5.7.1 Paradox 1 – The modal Backshift
Para realizar esta aproximação ao método, é interessante caracterizar aquele momento de crise. Santos (1996a) ao avaliar a prática cientifica da sociologia no final do século XX, indica algumas questões daquela conjuntura. A economia é a natureza dos problemas que mais absorviam as nações; as práticas transnacionais, da economia à translocação de pessoas, das redes planetárias de comunicação à lógica do consumismo estavam muito intensas. A minimização do Estado e a perda de autonomia e regulação das nações era uma conseqüência. Houve um regresso da noção de indivíduo em função da falência do estruturalismo. Mas um indivíduo devassado, público, dependente. Com o fim dos embates entre capitalismo e socialismo sobrevivia o consenso sobre um ideal moderno: a democracia. Para o autor, surpreende naquele momento que o neoliberalismo enquanto sistema de força inverso à democracia sobreviva e seja sustentador desta. Aconteciam territorializações locais e não pelos limites geográficos ou políticos em um mundo caracterizado pela globalização. Ou seja, é um tempo que pode ser considerado como modernidade tardia, pós industrialismo ou pós modernidade, mas que testemunhou abalos muito significativos nas certezas e das práticas instituídas.
Pa sua obra intitulada Um discurso sobre as ciências, Santos (1996b) entende que há um momento de crise do paradigma dominante de ciência e explicita suas convicções sobre a extenuação teórica deste paradigma resultante do próprio avanço que ele propiciou, ou seja, quanto mais avançou, mais ficou visível a fragilidade dos pilares sobre os quais se funda e estrutura. Aponta quatro condições teóricas da crise: Einstein e a relativização do rigor das leis de Pewton no domínio da astrofísica; Heisenber e Bohr e o princípio de interferência estrutural do sujeito no objeto relativizando o rigor da medida na física quântica; Gödel com o teorema da incompletude e os teoremas da impossibilidade que abalam o rigor da matemática e, por último, como representante dos avanços nos campos da microfísica, da química e da
biologia, Ilya Prigogine e a teoria da irreversibilidade nos sistemas abertos desconcertando a física tradicional.
Vinculamos a irreversibilidade a uma nova formulação, probabilística, das leis da natureza. Esta formulação fornece-nos os princípios que permitem decifrar o universo de amanhã, mas é de um universo em construção que se trata. O futuro não é dado. Vivemos o fim das certezas. Será isto uma derrota do espírito humano? Estou convencido do contrário. (PRIGOGIPE, 1996, p.193)
O autor considera esta última como uma das muitas inovações que tem sido responsáveis por uma profunda reflexão epistemológica.
Além das condições teóricas da crise do paradigma dominante, destaca ainda por condições sociais desta crise:
Referirei, tão-só que, quaisquer que sejam os limites estruturais de rigor científico, não restam dúvidas que o que a ciência ganhou em rigor nos últimos quarenta ou cinqüenta anos perdeu em capacidade de auto-regulação. As idéias de autonomia da ciência e do desinteresse do conhecimento científico, que durante muito tempo constituíram a ideologia espontânea dos cientistas, colapsaram durante o fenômeno global de industrialização da ciência a partir sobretudo das décadas de trinta e quarenta. (...) A industrialização da ciência manifestou-se tanto ao nível das aplicações da ciência como ao nível da organização da investigação científica. (SAPTOS, 1996b, p. 34)
Ao apresentar o paradigma emergente afirma a superação da dicotomia entre conhecimento natural e conhecimento social, não faz mais sentido separar ciências da natureza e sociais. Considera a fragmentação pós moderna temática e não disciplinar por isso, o conhecimento é total e local, sem ser determinista ou descritivo, trata das “condições de possibilidade da acção humana projetada no mundo a partir de um espaço-tempo local.” (SAPTOS, 1996b, p. 48)
O autor ainda menciona que no paradigma que emerge, todo o conhecimento é autoconhecimento, pois a ciência tem um compromisso maior com saber viver do que com sobreviver em nosso tempo, neste sentido o caráter autobiográfico e autoreferenciável é necessário. Por último, menciona a reabilitação do senso comum no diálogo e articulação com o conhecimento científico, sendo o destino desejável para toda produção da ciência.
Após estas afirmações sobre ciência e por conseqüência sobre método científico, quando foi necessário construir um método para este trabalho, além de considerá-lo como um caminho de invenção, como já foi dito, estava presente a convicção da emergência de novos modos de produzir conhecimento. Estava presente a indicação do quanto a análise da crise do projeto moderno, mesmo sem negá-lo, provoca a necessidade de outros compromissos, construindo possibilidades sobre as quais o método científico pode ser pensado como uma prática política.
Deste modo, a ciência deixa de ser uma instância imparcial, explicativa e “acima do mundo das pessoas comuns” para assumir o reconhecimento do caráter cultural e político de suas práticas. Por exemplo, a dicotomia teoria-prática é abandonada na medida em que o conhecimento se define como uma ação sobre o mundo. Assim, a produção teórica já se constitui como uma forma de intervenção, como uma prática que produz os objetos e os sujeitos desses objetos. (GUARESCHI; SCARPARO, 2008, p. 22)
Também haveria de se ter cuidado com a armadilha de recolocar o método no centro da regulação da prática científica, pois não se pode tomar uma proposta metodológica como a grade saída enquanto representante da diferença. Seria jogá-lo no mesmo lugar que vem sendo criticado mesmo que com outra forma de ação. Pão é então a novidade do método que se está reivindicando, mas a diferença em como e para que o organizamos. Ou seja, segue sendo instruído pelo objetivo da investigação e, por isso, pensar o que se quer politicamente com uma pesquisa é o que permite a diferença. Chega-se assim ao que é fundamental para este trabalho: pesquisar é fundamentalmente uma ação ética, o método é uma ética.
A questão que pretendo levantar aqui é que, juntamente com nossos pressupostos metafísicos e epistemológicos, caminham também pressupostos éticos. É certo que eles estão presentes, pois é impossível negar no fenômeno a dimensão valorativa, isto é, ética. Quais serão eles? Certamente estarão presentes em nossas investigações. (GUARESCHI, P., 2003, p.254)
Afirmar que o método é uma ética não se refere às regulamentações que regem as investigações científicas, mesmo que não se tenha o desejo de sem desqualificá-las. Também não é exatamente o debate proposto por Feyerabend de substituição da centralidade do método pela ética. É um ponto de vista diferente sobre esta relação. É considerar a escolha de um método a escolha de uma ferramenta política e sua execução um ato ético.
De que conceito de ética está se falando? Coerente com o que se propôs como sustentação teórica utilizada na construção do objeto de pesquisa, se volta a M. Foucault(2006) quando afirma que a “ética é uma prática e o êthos uma maneira de ser.” (p.221). Que a atitude ética e política “não consiste em apenas dizer: eu protesto, mas em fazer desta atitude um fato político tão consistente quanto possível para aqueles que governam, aqui ou ali, sejam obrigados, de certa maneira, a levá-lo em conta”. (idem, p.222). Pardi e Silva (2005) referem que
A ética pode ser entendida como a problematização dos modos de existência. Essa problematização refere-se tanto às relações com os outros quanto à relação consigo mesmo. Pessa direção, Foucault distingue a moral como o conjunto de regras e preceitos veiculados pelas instituições prescritoras – como família, a religião, a escola e o trabalho – e a ética como comportamento real dos indivíduos em relação a essas regras. Assim, a determinação da “substância ética” implica a análise dos modos de constituição da relação dos sujeitos consigo mesmo e com os outros. (p.93)
Po momento em que a prática da produção de conhecimento dentro de instituições acadêmicas tem na realização de uma investigação e escrita de uma tese, uma série de preceitos morais e legais que incidem sobre esta produção, é pertinente que a problematização erigida sobre o destino da ciência resulte em uma reflexão sobre como um método pode ser uma estratégia de liberdade; em como o exercício de pesquisa pode ser uma prática da invenção.
Para alimentar esse debate, diríamos que no âmbito das pesquisas em psicologia, assumir essa competência ética implica, portanto, a manutenção da capacidade de ser afetado pela diferença19 e de colocar em questão o saber acumulado pelos
estudos anteriores. O que importa não é investigar uma suposta metafísica da realidade, mas o sentido que damos ao mundo ao produzi-lo, uma vez que não há uma perspectiva privilegiada a partir da qual possamos ver e entender melhor a realidade. O objetivo é problematizar as certezas, as declarações de princípio, o que não significa propor um mundo sem princípios, na medida em que não há vida sem normas e valores. O que se persegue é o questionamento do que pensamos e do que fazemos. (BARROS; LUCERO, 2005, p.11/2)