Voltando às adaptações directas e aos filmes mais recentes, que dependem em grande medida de CGI, podemos listar o primeiro remake, Jason and the Argonauts (2000), uma mini-série da Hallmark Entertainment e da Panfilm, com a duração total de quase três horas. O mito que a história adapta, com alguma frivolidade, é o de Jasão e o velo de ouro1. A série conta a vida de Jasão (Jason London). Enquanto criança, o herói testemunha o assassínio do pai, às mãos do seu tio, Pélias (Dennis Hopper). Depois de conseguir escapar ao atentado que fazem à sua vida, Jasão foge de casa. Passados trinta anos, o herói regressa para reclamar o trono que era seu por direito. Pélias, conquanto, ao saber que o seu sobrinho regressou, condena-o à morte. De modo a salvar a sua própria vida, Jasão promete capturar o Velo de Ouro. Com este intuito, o herói cria um grupo que virá a ser conhecido como Argonautas. Juntos, embarcam numa viagem arriscada para capturar o Velo e cumprir os seus destinos.
Zeus (Angus Macfadyen) e Hera (Olivia Williams) são as primeiras figuras a surgir no ecrã. Os deuses aparecem como dois gigantes antropomórficos no meio de nuvens e montanhas (a única possível menção ao Olimpo). Estas são as únicas divindades representadas com maior destaque.
Ilustração 28 – Hera como estátua e a sua verosimilhança clássica. Dois planos de Hera como κόρη em Jason and the
Argonauts (2000). No segundo plano, vemos, à esquerda, o pormenor do rosto e, à direita, a transposição para o rosto da actriz que interpreta o papel (Olivia Williams). Última imagem, kore do peplos, estátua de uma serva (apontada como hipótese), usa um peplos sobre o chíton, ACMA 679 Kore 1, c. 530 a.C.
Na Terra, Jasão tem um encontro com uma idosa que pretende passar o rio. Com a ajuda do jovem, a velha consegue fazê-lo. Pouco depois, vimos a descobrir que se trata de Hera no corpo de um ser humano2. Ela é a primeira a falar-lhe do velo. A deusa toma
1 Vide em especial AP. RHOD., Argon.; OV, Met. 7.1 e segs; vide ainda LORDKIPANIDZE, Otar, “The
Golden Fleece: myth, euhemeristic explanation and archaeology”, Oxford Journal of Archaeology, 2001, 20(1) / 1-38.
2 Esta forma de representar os deuses é recorrente no cinema, mas também no mundo antigo. É um tipo de
representação teomórfica. Esta representação é conhecida como antropoteísmo, a percepção de um, ou vários seres divinos sob forma humana, podendo também ser o reconhecimento de características humanas
esta forma esporadicamente. Mais tarde, filho e mãe comunicam através de uma κόρη arcaica associada no filme à deusa; uma estátua que ganha vida (vide ilustração 28). No mundo uraniano, o conflito que os dois imortais têm relaciona-se com as aventuras de Jasão. O casal divino usa vestes idênticas às presentes noutras obras cinematográficas. Hera trata Zeus como “o seu senhor”. Ele ordena como se ela fosse sua serva.
O centro do embate entre os dois é as relações extraconjugais com mulheres mortais, mulheres que Zeus acha irresistíveis e que Hera despreza. Como vingança, a deusa ajuda Jasão, um belo jovem. Isto aborrece o pai dos deuses, que roga maleficências ao herói. Zeus tem a habilidade de criar nevoeiros, tornados, mas também de aliciar jovens formosas, chegando mesmo a dizer: “Eu sou o irresistível”.
Ilustração 29 - Representações de divindades em Jason and the Argonauts (2000). Da esquerda para a direita, de cima para baixo. Eros agarra o seu arco, enquanto ouve as ordens de Hera. Hera segura Eros na palma da sua mão (isto é equidistante a um passo da Argonáutica, cf. AP. RHOD., Argon., 3.25 sq.). Posídon ameaça a segurança dos Argonautas, nesta imagem o deus está de pé, à frente da embarcação, mas por ser tão colossal, a Argos não é visível. Grande plano de Zeus, com barba e cabelo similar a outras interpretações cinematográficas, mas com um aspecto mais jovem. Zeus e Hera olham para a Terra, a partir do Olimpo. Hera (Freda Dowie) como uma mulher idosa.
Posídon também marca presença. Durante a viagem marítima dos aventureiros, o deus dos mares é confundido com uma ilha. Ele ameaça a segurança dos Argonautas (ao contrário do que acontece no filme original)1 e, devido à sua dimensão, consegue gerar
ondas gigantescas. Posídon é, todavia, um colosso e não um deus, não se encontra na mesma categoria que Zeus ou Hera. Apesar deste seu tamanho, Posídon não é igual aos
nestes seres. Vide KENNEDY, J.S., The New Anthropomorphism, Cambridge University Press, Cambridge, 1992, pp. 9-33.
1 Tanto na Argonáutica de Apolónio de Rodes como na de Valério Flaco (imitador do primeiro), Posídon
não marca sequer presença. Aventuras em ilhas, contudo, são uma recorrência nas viagens do grupo de heróis.
outros dois deuses. Os criadores da mini-série decidiram representar, de forma clara e distintiva, apenas os governantes do Olimpo. A faceta de rei dos mares não chega a ser perceptível. A sua representação aproxima-se mais de um Polifemo disforme do que de um Posídon. O nome do actor que desempenha este papel nem sequer aparece nos créditos. No entanto, é identificado como irmão de Zeus, acatando todas as suas ordens.
Eros (Adam Cooper) também surge em Jason and the Argonauts. Ele é o deus do amor. Na mitologia grega, porém, esta divindade relaciona-se mais com o desejo e a atracção sexual1. Eros tem uma dimensão corporal menor que Hera ou Zeus, e é representado como um adolescente que se encontra, literalmente, em chamas2. O jovem segue as ordens da deusa-rainha.
Muitas das cenas que aqui podemos encontrar são influenciadas pelo filme em que se baseia, não deixando de se implementar alterações significantes. O modo como os deuses observam os mortais, por exemplo, vai variando, estando geralmente posicionados nas nuvens a olhar para baixo, mas chegando a ver o destino de Jasão ao olhar para a palma de Zeus. Nesta adaptação, os deuses gregos são menosprezados. A personagem “Hera” chega a admitir que os mortais são melhores, ao afirmar: “somos envergonhados por eles [i.e., somos envergonhados pelas acções dos mortais]”. Esta é uma afirmação estranha se tivermos em conta a quantidade de narrativas mitológicas em que um mortal é castigado por se achar igual ou superior aos deuses. Não nos podemos esquecer, contudo, que esta é a perspectiva dos criadores de Jason and the Argonauts. O filme é mais um espelho de como os deuses gregos são percepcionados na contemporaneidade. Zeus e Hera podem fazer parte de uma narrativa, terem a sua zanga e influência na história. Mas é o homem que funciona como bússola moral. O panteão grego, preenchido por “deuses pagãos”, não pode ocupar esse papel central.