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DISCUSSION OF RESULTS AND PLANS FOR THE FUTURE

In document Title Author (sider 55-63)

Outros dois filmes que incluem semelhanças com a mini-série anterior, por serem do género fantástico e por serem remakes, são Clash of the Titans (2010) e Wrath of the

1 Vide NONNUS, Dion., 1.400 e segs, 24.325 e segs; OPP., H., 4.10 sq.

2 Este é um dos exemplos de uma interpretação literal dos textos clássicos. Nestas obras antigas, refere-se

realmente a chama de Eros, mas num sentido metafórico, em relação à paixão, e não como um fogo real. Vide OPP, C., 2.410 e segs: “Para o teu fogo até a luz concede espaço por medo e os raios de Zeus, de igual modo, dão lugar. Setas tão ardentes, espírito feroz que tens […]” (traduzido do inglês a partir da tradução de A.W. Mair); NONNUS, Dion., 1.400 e segs: “Como deus fogoso, arma-te contra Tífon, e com a tua ajuda deixa que os raios ardentes voltem à minha mão” (traduzido do inglês a partir da tradução de W.H.J. Rouse).

Titans (2012). A principal diferença em relação à longa-metragem original encontra-se,

desde logo, no maior destaque oferecido ao panteão, não só pelo facto de surgirem bastantes mais divindades, mas também por estas terem uma importância central na história.

O primeiro blockbuster, realizado por Louis Leterrier1, conta a história do semideus Perseu (Sam Worthington), filho de Zeus que combate contra os inimigos provenientes do Submundo, de modo a evitar que eles estendam a sua influência ao reino terrestre e olímpico. O primeiro filme copia indiscriminadamente a narrativa do original, pelo que as referências clássicas utilizadas são as mesmas. As representações dos deuses, apesar disso, são consideravelmente diferentes.

Ilustração 30 – Os três irmãos, e deuses-reis, em Clash of The Titans (2010). Primeira Imagem, Zeus (Liam Neeson) com uma águia atrás de si. Segunda e terceira imagens, Posídon (Danny Huston) segura o tridente. Quarta imagem, Hades (Ralph Fiennes), cromaticamente contrastante com os outros deuses. Atrás de Hades está o mundo terrestre.

O prólogo começa nas estrelas, plano de fundo para brevemente mencionar a Titanomaquia2, dando-se maior importância a Zeus (Liam Neeson), Posídon (Danny Huston) e Hades (Ralph Fiennes). O maior conflito deste enredo não se encontra entre o casal olímpico, mas sim entre dois irmãos: o rei dos deuses e o rei do Submundo. Em relação ao filme original, existem easter eggs3, como a inclusão de pequenas e débeis

estátuas que representam os homens, o voo de uma ave no início (que vagueia pelos corredores do palácio olímpico), a coruja mecânica de Atena4 ou a presença de uma arca com uma mãe e um filho no seu interior – tudo elementos que podem ser encontrados no filme original. Os actores que representam os deuses são, mais uma vez, profissionais reputados, célebres e premiados.

1 Escrito por Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi.

2 Vide HES, Th., 617-643. Vide também BREMMER, J., “Remember the Titans. Greek fallen angels:

Kronos and the Titans”, The Myth of the Fallen Angels, University of Groningen, Groningen, 2004, pp. 35- 61.

3 Expressão que tem origem nos videojogos e que se refere a uma mensagem escondida ou elemento secreto

da obra em questão. Cf. WOLF, Mark, Encyclopedia of Video Games: The Culture, Technology, and Art

of Gaming, Greenwood, Santa Barbara, California, 2012, p. 177.

4 Esta coruja é uma possível alusão a um Αὐτόμᾰτων, criado na mitologia por Hefesto e Dédalo. Sobre os

autómatos de Hefesto, vide Il. 18.371, Od. 7.87; sobre os de Dédalo, vide PL., Euthphr., 11d, Menex., 97d; PHILOSTR., Imag., 1.16.

O Olimpo também partilha as mesmas características do seu predecessor. Existe no filme, deste modo, um palácio preenchido por templos, aquedutos e arcos que emergem das montanhas e se localizam entre as nuvens. Utilizando-se, portanto uma gramática arquitectónica clássica. Hades é o primeiro deus a surgir. Ele é um pouco velho, calvo, rouco e aparece a partir de uma mistura de cinzas pretas, que podem tomar a forma de asas e nas quais se consegue metamorfosear. O deus do Submundo usa uma armadura sem qualquer tipo de brilho1. Ele controla e admira a morte. Traz destruição de imediato, pois este é um dos objectivos da personagem. O panteão grego demonstra algum desprezo em relação à Humanidade.

Ilustração 31 - O Olimpo em Clash of The Titans (2010). À esquerda, o cume da montanha olímpica. À direita, o concílio dos deuses, com Zeus destacado no centro; Posídon, à sua direita, segura o tridente e Hera, à sua esquerda, não é incluída na narrativa deste filme.

Os restantes deuses são introduzidos em concílio2, de que Hades não faz parte. Zeus, que é adulto/maduro, mas não chega a ter cabelos brancos, tem longas barbas e ocupa um lugar central sentado no seu trono, apesar todos terem um assento similar. Os deuses masculinos são considerados guerreiros, pelo que Zeus, Posídon, Apolo (Luke Evans), Hermes (Alexander Siddig) ou Ares (Tamer Hassan), usam uma armadura resplandecente. Todos têm vestes que brilham, porém, as divindades menos guerreiras usam tecidos. Ao lado do trono de Zeus posa uma águia3. O Crónida é claramente confundido com o Deus cristão, pois ele é “o criador [dos homens]”, obra por que demonstra enorme respeito. Apolo segura uma lança com um pequeno brilho na sua ponta (vide ilustração 32) e tem uma aparência juvenil. Posídon segura um tridente4, a sua idade é a mesma que a dos seus irmãos. Zeus tem a habilidade de tomar a forma de humanos e

1 O que cria, mais uma vez, um afastamento em relação aos deuses olímpicos, mas também o liga ao mundo

inferior onde a luz é escassa. Sobre a escuridão do Tártaro vide AESCH., Eum., 75: “[…] visto que habitavam as trevas do mal e o Tártaro subterrâneo […]” (Trad. Manuel Pulquério). Vide também OV.,

Met., 1.113: “Depois de Saturno ser enviado para a negridão do Tártaro […]” (Trad. Paulo Farmhouse

Alberto).

2 Vide, Il., 8.2-4: “[…] enquanto Zeus , que com o trovão se deleita, reunia os deuses no píncaro mais

elevado do Olimpo de muitos cumes. Ele próprio tomou a palavra e todos os deuses escutaram […]” (Trad. Frederico Lourenço). Vide ainda Il., 20.4 sq.

3 Para um exemplo demonstrativo da sua relação com este animal ver ilustração 12. 4 Vide ilustração 11.

animais1. Ele vem à terra no mesmo corpo que tem no Olimpo, apesar de se tornar num simples viajante e perder o seu brilho. Os deuses sobejantes são visíveis, mas difíceis de identificar, apenas compõem o grupo conciliar, sem terem nenhuma outra relevância narrativa.

Ilustração 32 – À esquerda: Apolo, em pé, segura uma lança (pormenor). Ânfora ática. Rf. Oxford, Ashmolean Mus. 1885.671 (271, c. 480-470 a.C. À direita: plano de Apolo, Luke Evans, em Clash of The Titans (2010) curiosamente o mesmo actor que representa Zeus em Immortals (2011). Aqui podemos observar o descrito acima. Também há que realçar o facto de Apolo vestir uma armadura dourada, enquanto a maioria dos restantes deuses se veste de prateado. Tanto o brilho da sua lança, como a cor do seu vestuário são uma associação com a luz.

Estas longa-metragens também têm a particularidade de incluir uma menção ao Submundo. No primeiro filme, esta dimensão é atingível através de uma cratera que se encontra debaixo do mar. O grupo que acompanha o protagonista começa por atravessar o Estige, um rio nebuloso, escuro e rochoso. Quem navega o barco, identificável com o Caronte mitológico2, é um esqueleto vivo, sem falas, quase um adereço que mimetiza os

gondolieri de Veneza. O rio tem mortos nas suas águas3. Eles prosseguem para este local, pois, de acordo com o argumento, é onde se encontra Medusa4. Não existe uma associação directa entre este rio e o deus-rei do Submundo. No último acto do primeiro filme, Hades é enviado pela espada de Perseu para o seu reino, ao ser atirado por um raio, atravessar o mar e uma cratera de lava que se fecha lentamente, pelo que parece existir alguma confusão sobre o que é o mundo mitológico dos mortos.

Wrath of the Titans (2012), realizado por Jonathan Liebesman5, conta a história

de como Ares e Hades tentam destronar Zeus, ao soltar os titãs. Perseu tem, por isso, de se aventurar pelo Submundo de modo a salvar o pai. Nesta sequela, o Tártaro, “a grande

1 Para o primeiro, vide OV., Met., 6.113 e para o segundo OV., Met., 5.327-328; 10.155-161, meramente

como exemplos. Sobre uma análise mais profusa desta personagem ao longo das Metamorfoses vide SEGAL, Charles, «Jupiter in Ovid's "Metamorphoses”», Arion: A Journal of Humanities and the Classics, Boston University, 2001, 9 (1) / 78-99.

2 Caronte é um barqueiro que leva as almas de mortos recentes ao longo dos rios Estige e Aqueronte, os

quais dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Vide, por exemplo, EUR., Alc., 252 sq.; PAUS., 10.28.2.

3 Referência aos rios que ligavam o mundo superior com o inferior, vide, por exemplo, PL., Resp., 387c:

“[…] devem ainda rejeitar-se todos os nomes terríveis e medonhos relativos a estes lugares, «Cocito» e «Estige», «espíritos dos mortos» e «espectros», e outras designações do mesmo jaez que fazem arrepiar quem as escuta” (Trad. Maria Helena da Rocha Pereira).

4 Vide HES., Theog., 270-280; VER., Aen., 6.287 sq.; Ovídio sugere que a górgone habitava perto de Atlas,

no Tártaro, portanto; vide OV., Met., 4.772.

prisão do Submundo”, tal como lhe chamam no filme, está presente e claramente definido como tal. O mundo inferior é um lugar rochoso, que não é totalmente desprovido de luz. Os criadores do filme associam, claramente, este local com o Inferno cristão. A única forma de lá entrar é através de um labirinto, com um minotauro no seu interior1, e não de um rio, pelo que o filme deixa-se contaminar por outros mitos. Só depois de matar a besta é possível destrinçar a entrada do Tártaro. O segundo filme é sobre como a descrença nos deuses pode levar ao fim do mundo, nomeadamente, com a subida de parte dos seus habitantes à terra.

Ilustração 33 – Ares e Hades em representações clássicas e com influência clássica. Primeira imagem: Ânfora com representação de Ares barbado e armado, Paris, Louvre F32. Segunda imagem: Cântaro ático em que Ares está barbado e usa couraça e lança, London, Br. Mus. E 155, de Nola, c. séc. V a.C. Terceira imagem: Hídria ática em que Hades de cabelos brancos, com chíton e himation segura numa cornucópia, na mão esquerda, e num cetro, na mão direita, London, BM E 183, c. 430 a. C. Quarta imagem: pintura do concílio dos deuses, no qual se representa Hades com uma forquilha (pormenor), Palácio Nacional da Ajuda, sala D. João VI, séc. XIX. Quinta imagem, pormenor de Hades no seu reino,

Hades e Perséfone de Luca Giordano, séc. XVII.

Em Wrath of the Titans, Zeus tem a capacidade de visitar o filho de Perseu, Hélio (John Bell)2, nos sonhos da criança. Num sentido mais prático, o deus-rei empunha uma lança e veste uma armadura, com que se defende. Posídon usa os mesmos tipos de roupa que o irmão, mas é caracterizado como sendo mais envelhecido. Ares (Edgar Ramírez) é mais jovem, usa uma armadura com dois carneiros3, simbolismo que preenche o resto do seu traje. O deus da guerra maneja uma arma similar a um martelo. Hades segura uma forquilha4, vestindo-se com algum tipo de armadura. Logo no início do filme é com a

1 Sobre o mito do Minotauro vide, por exemplo, APOLL., Biblioth., 1.7-1.9, 3.8-11, 3.213; DIOD. SIC.,

4.77.1; PLUT., Thes., 15.1, 17.3, 19.1.

2 Perseu e Andrómeda tiveram nove filhos, nenhum deles chamado Hélio, como se poderia prever. Esta

será mais uma tentativa de tornar ténue a linha que separa o mortal do imortal, dado que Hélio é a personificação do Sol, que era muitas vezes referido como Apolo, cf. BURKERT, Op. Cit., 1993, p. 120.

3 A associação a este animal pode dever-se a dois factores. O primeiro relaciona-se com o nome latino Aries,

que significa carneiro. O segundo tem que ver com o facto de o carneiro ser iconograficamente associado a figuras malignas, em especial com o Diabo dos escritos bíblicos.

4 Na iconografia clássica usava antes um simples bastão ou lança, a forquilha é um tipo de representação

ajuda curiosa de Ares1, que consegue capturar Zeus e assassinar o seu outro irmão (Posídon acaba por morrer mais tarde, transformando-se em pó, voltando assim à terra, tal como acontece com todos os outros deuses, à excepção de Hades). O deus da guerra fica com os raios de Zeus e Hades dá início à destruição final.

Hefesto (Bill Nighy) é mais uma novidade. Primeiramente referido como “o que caiu”, referência à sua tradição mitológica2, é também responsável pela forja das armas

dos três irmãos, que juntas dão origem a um dos macguffins3 do filme. Ele é velho, com barbas, corcunda e veste-se sem qualquer luxo ou brilho, usa um chapéu de metal. Foi composto como se fosse um Gollum/Sméagol ou um Dr. Jekyll/Mr. Hyde, tendo dupla personalidade.

Ilustração 34 – Ares, Hades, Andrómeda e Hefesto em Clash of The Titans (2010) e Wrath of the Titans (2012). À esquerda, pormenor da armadura de Ares, com a iconografia de um carneiro. Segunda imagem, Ares (Edgar Ramírez). Terceira imagem, Hades com a sua forquilha (comparar com ilustração 33). À direita, Andrómeda guerreira, e Hefesto.

Ártemis não é mencionada, mas a personagem de Andrómeda (Rosamund Pike) veste-se como a deusa caçadora e usa arco e flecha como armas4; contudo, esse é o único traço que partilha com a divindade. Este pouco investimento em entidades divinas femininas diz muito sobre o papel que a mulher tem na mente dos criadores destes filmes. Hefesto menciona a sua mulher, Afrodite. O deus metalúrgico afirma que Andrómeda é parecida com esta deusa.

Alguns diálogos parecem assumir que os deuses vão perecer ou ser esquecidos, enquanto os homens, os heróis, como o protagonista, assumem o papel de seres divinos. Em ambas as adaptações existe desprezo pelos deuses:

1 Como se sabe, Ares não era um deus muito apreciado no Olimpo, visto que, como deus da guerra,

ameaçava a ordem que Zeus e muitos dos seus filhos queriam proteger. Também de salientar. é o facto de, em Roma, o culto a Marte ter sido enaltecido.

2 Existem duas tradições referentes à queda do deus. A primeira entidade divina a perpetrar o acto foi Hera,

a sua mãe, vide Il., 18.395-405, e Hymn, Hom. Ap., 316-321. A segunda foi Zeus, vide Il., 1.590-594; VAL. FLAC., 2.8.5; APOLLOD., Biblioth., 1.3.5.

3 Esta palavra refere-se a um engenho do enredo que toma a forma de um objectivo, um objecto desejado,

ou outro motivador que o protagonista quer alcançar, muitas vezes, com pouca ou nenhuma explicação narrativa. Hitchcock foi quem popularizou o termo, vide DEUTELBAUM, Marshall, et POAGUE, Leland A, A Hitchcock reader, Wiley-Blackwell, Oxford, 2009, p. 114.

“[HÉLIO] I want to be a good god. “[PERSEU] Good gods don’t exist”;

“[ZEUS] You will learn someday that being half human, makes you stronger than a god […]”. “[HADES – to Zeus] When your precious humans die, at least their souls go to another place. When a god dies, it isn't death. It's just absence. It's nothing. It's oblivion! It's oblivion...”.

Ambos os filmes dominam melhor a narrativa de Clash of the Titans (1981) do que a mitologia grega porque, apesar de conhecerem esta última, a sua utilização nunca deixa de ser superficial ou inteiramente modelada.

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