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Apesar dos vários participantes envolvidos, o segredo fica em geral ciosamente guardado. Mas as datas da possível realização das Roubalheiras são escassas, e só os mais desprevenidos são surpreendidos. A Comissão informa os serviços de segurança pública do período em que tenciona realizar essa atividade que não tem data atribuída no programa. Os interessados em participarem numa noite repleta de gargalhadas, habitualmente membros de Comissões de anos anteriores, podem pedir autorização ao Presidente da Comissão vigente. O grupo pode chegar a totalizar entre vinte a trinta elementos, entre os quais o Manel das Vacas é uma presença habitual.

Todos os interessados chegam ao Toural por volta da meia-noite e seguem depois numa carrinha emprestada, na qual vão colocando os mais diversos objetos que conseguem surripiar: placas, vasos, mobília de esplanadas, roupa estendida a secar, casotas de cão, brinquedos, carrinhos de compras, etc., deixando em troca um bilhete indicando que «Amanhã no Toural poderá levantar os seus pertences até ao meio-dia», assinado pela Comissão de Festas Nicolinas. Os mais velhos evocam os tempos em que o número se realizava a pé, o que o tornava muito mais físico. Os objetos roubados são depositados no Toural, onde alguns «ladrões» os vigiam até à chegada dos seus legítimos proprietários, que, regra geral, reagem com boa disposição. Alguns chegam a ser vítimas dos nicolinos durante vários anos consecutivos, com o cómico da repetição substituindo a surpresa.

Os participantes apreciam muito o divertimento proporcionado pelas Roubalheiras. No entanto, os artigos de jornais e as reportagens televisivas locais que todos os anos relatam as Roubalheiras adotam um tom bastante blasé. E a crítica principal dirigida a um número festivo supostamente irreverente é que a sua repetitividade de ano para ano o tem tornado demasiado previsível. O roubo das balizas do Vitória Sport Club já se transformou, por exemplo, num exercício quase obrigatório. Em contrapartida, ainda se fala da motorizada da PSP que a Comissão de 2012 conseguiu furtar.

O furto ritual e a trasladação de objetos são traços, marcadamente carnavalescos, de uma subversão temporária da ordem social. É sabido que são presentes em inúmeras festas, em particular nos universos rurais europeu. Mas encontram-se em claro declínio e, mesmo no contexto atual de revitalização e reatualização de muitas festas, visível na Europa desde a década de 1990 (Boissevain 1992; Bromberger

et alii 2004), não são das práticas relançadas e reapropriadas com maior frequência, mesmo tendo sido

adaptadas. Atentar contra a propriedade privada não é hoje objeto de menor censura do que nos antigos contextos rurais; contudo, numa sociedade incomparavelmente mais abastada do que era o caso em épocas passadas, os simulacros de roubos de bens em geral pouco valiosos perdem parte da sua relevância. Atualmente, as Roubalheiras perpetuam-se mais em virtude do forte apego nicolino à tradição (embora facilmente se esqueça que esta mesma tradição tem sofrido eclipses e que o seu reaparecimento é, na realidade, relativamente recente) do que em razão do seu significado inicial no contexto social da sua primeira aparição.

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As Posses

António Amaro das Neves

Sendo certo que a posse principal acontecia no dia de São Nicolau, 6 de dezembro, quando os estudantes iam receber a renda de Urgezes, este número já tinha data fixa no programa das Festas em meados do século XIX: tal como ainda hoje, acontecia na noite de 4 de dezembro, seguindo-se-lhe o Magusto.

Tem-se dito que as Festas Nicolinas terão raízes na renda deixada aos meninos do coro da Colegiada de Guimarães por certo cónego da Colegiada de Guimarães, cujo nome se desconhece, em data que ninguém precisa. Essa renda, que era composta por «duzentas maçãs, meia rasa de tremoços curtidos, meia rasa de nozes, dois alqueires de castanhas assadas, duas dúzias de palha de grandes molhos e dois almudes de vinho bom», seria retirada dos dízimos de Urgezes, de que a Colegiada de Guimarães de Guimarães era proprietária e trazia arrendados. O cumprimento desta costumeira era uma das obrigações contratuais do rendeiro dos dízimos de Urgezes. No dia de São Nicolau, três coreiros, montados a cavalo, iam a Urgezes receber a renda. O mais velho ia paramentado de bispo, com batina, murça e meia preta, os outros iam vestidos como cardeais, com batina, murça e meia vermelha. Eram acompanhados por grande número de estudantes. Quando regressavam à vila, iam oferecer as castanhas assadas aos cónegos, às freiras e a outra gente grada da terra. Esta renda foi extinta após a abolição dos dízimos em Portugal, determinada pelo decreto de Mouzinho da Silveira de 30 de julho de 1832, que só teve eficácia a partir de 1834, com a assinatura da Convenção de Évora Monte, que consagrou a vitória definitiva dos liberais.

Mas havia outras posses, de diferentes naturezas, que, desde tempos remotos, eram reclamadas pelos estudantes. A mais carismática era dada pelo Cucúsio, alcunha de um célebre sapateiro da rua Nova que, em resposta aos gritos dos estudantes que lhe reclamavam a posse, se chegava à janela e lhes mostrava o rabo, iluminado por velas que ardiam em dois castiçais. A Posse do Cucúsio foi magistralmente descrita por Raul Brandão, em «A Farsa». Havia também a Posse da Chasca, em que os estudantes tomavam um mata-bicho de aguardente e figos secos, ou a Posse das Uvas, em que os estudantes tinham de trepar uma videira que subia por uma casa da rua de São Dâmaso, para colherem os cachos que ali se deixavam ficar para eles. E nunca falhava a Posse do Mato, oferecido pelos oleiros da Cruz de Pedra, com que os estudantes acendiam a fogueira do Magusto.

No início do século XX, segundo a descrição do jornal Independente, de 1 de Janeiro de 1904, eram assim as Posses:

«O dia 4 de dezembro é o chamado dia das posses. Os estudantes, à noite, à luz de archotes e acompanhados por uma filarmónica vão primeiro aos oleiros da Cruz da Pedra que lhe fornecem cada um uma panada de mato e lha conduzem ao local onde se acha levantada a bandeira. Depois sucessivamente percorrem várias ruas sendo-lhes lançadas das janelas as posses que é de uso darem-se. Esta parte das festas está hoje muito decaída do seu antigo esplendor. O mato fornecido pelos oleiros destina-se a um magusto que se faz terminadas as posses.»

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Por sua vez, O Comércio de Guimarães, na sua edição de 27 de novembro de 1906, descrevia as Posses deste modo:

«No dia 5 de dezembro, pela uma da madrugada, saía uma música, indo na frente os estudantes, que iam às posses, isto é, a certas casas, em que os recebiam dando-lhes umas uvas (rua de São Dâmaso), outras figos e aguardente (casa do professor Venâncio e António Pereira da Silva) e outras doces e vinho tinto. Muitas dessas pessoas que obsequiavam os estudantes já faleceram. Na Cruz de Pedra, os oleiros davam o mato para o magusto que se fazia no largo do Toural, distribuindo-se as castanhas e o vinho da comissão pelos músicos e homens que traziam o mato, sendo defeso aos estudantes partilhar deste magusto, pois, como diziam os Padres Abreu e Vinhós, quando algum lhe aparecia, o magusto desta noite não era dos estudantes propriamente dito. O destes era em Santo Estêvão de Urgezes, na manhã do dia 6.»

O Coronel António de Quadros Flores, nas suas memórias (Guimarães na última quadra do romantismo,

1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XVII, pág. 54), registou que as Posses e o Magusto terminavam «no

alpendre da igreja de S. Pedro, dentro das grades, na distribuição das castanhas e da vinhaça à garotada, oleiros e música.»

No passado, havia também posses particulares, que eram dadas de portas adentro. No virar do século XIX para o século XX, a mais carismática era a Posse do Padre Monteiro, cuja edição de 1904 foi descrita por João de Meira no jornal Independente. Percebe-se que parodiava alguns dos formalismos de uma qualquer assembleia, com presidente e dois secretários. Lida a ata da reunião do ano anterior, «passou-se à ordem da noite que consistiu em fazer passar ao estômago maçãs, uvas, nozes, pinhões, castanhas, figos de ceira, doce sortido, pastéis e vinho verde, de Lamego, de Murça, cognac e aguardente de bagaço». Ergueram-se brindes e fizeram-se discursos, a que seguiu a Dança do Rei David, «magistralmente executada». Por fim, cantou-se o Hino Escolástico, que «seis vezes foi bisado e seis vezes foi extraordinariamente aplaudido». No final da reunião, os convivas dirigiram-se à janela para saudarem os estudantes, que foram render homenagem aos «velhos entusiastas» das festas a São Nicolau.

Em 1881, o jornal Religião e Pátria classificava as Posses como «uma das mais entusiásticas e especiais brincadeiras destas festas escolásticas.». Assim continua a ser nos dias que correm.

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Havia um outro género de posse, a que hoje se costuma chamar Moina (sinónimo de pândega, de onde deriva o vocábulo moinante, que designa alguém que é malandro ou festeiro). As Moinas eram visitas que os estudantes faziam, correspondendo a convites, a casas ilustres do concelho, onde lhes serviam lanches, por regra abundantes e bem regados. Algumas dessas casas ficavam a vários quilómetros de distância da cidade, que os estudantes venciam a zurzir nas peles das caixas e dos bombos, regidos por um colega que ia indicando a cadência dos toques com os movimentos verticais de uma moca, de uma bengala ou de uma haste de couve. Além da recompensa do lanche, estas romagens, que aconteciam ao

105 longo do mês de novembro, tinham também o propósito de adestrar os jovens estudantes nas subtilezas dos gestos que envolvem a arte de rufar.

O Magusto

António Amaro das Neves

O Magusto realiza-se na mesma noite das Posses, muitas vezes já no início da madrugada do dia 5 de dezembro. Por definição, segundo Rafael Bluteau (1736), magusto é «o chão em que assam muitas castanhas, ou as mesmas castanhas, assadas debaixo de brasas.» Assim era o Magusto das Nicolinas. Com o mato que lhes ofereciam os oleiros da Cruz de Pedra, os estudantes acendiam uma fogueira junto ao pinheiro, onde assavam castanhas que depois distribuíam pelos que aparecessem, acompanhadas de vinho e aguardente. A distribuição, a que não faltaria acompanhamento musical, tinha lugar dentro das grades do portal da basílica de S. Pedro, no Toural. Acesa a fogueira, assadas e distribuídas as castanhas, os estudantes iriam correr as Posses que ainda faltavam, com a banda de música a abrir caminho. Não sabemos ao certo quando é que o Magusto Nicolino tomou a forma que lhe conhecemos na segunda metade do século XIX, altura em que este número já aparece classificado como um clássico das festas dos estudantes de Guimarães.

Em boa verdade, mais correto seria falarmos nos magustos nicolinos, já que eram dois. O magusto que se seguia às Posses da noite do dia 4 de dezembro não era destinado aos estudantes, que nele estavam impedidos de participar. As castanhas e o vinho recolhidos pela Comissão eram distribuídos pelos oleiros que ofereceram o mato, pelos homens que o carregaram em forcados, pelos músicos da banda que os acompanhava e por quem mais aparecesse, desde que não fosse estudante. O magusto dos estudantes aconteceria em Santo Estêvão de Urgezes, na manhã do dia 6 de dezembro. Depois de receberam a renda, os estudantes concentravam-se numa eira previamente varrida pelo mais novo de entre eles, onde recebiam castanhas (que o rendeiro tinha a obrigação de lhes entregar já assadas), maçãs e vinho. No final, formavam o cortejo que descia ao velho burgo de Guimarães, para procederem à distribuição das maçãs e das castanhas pelos cónegos da Colegiada, pelas freiras de Santa Clara e pelas damas e donzelas que os aguardavam nas janelas.

Excluídos do magusto da véspera de São Nicolau, os estudantes não ficariam a seco, já que temos notícia de que, em meados do século XX, ao magusto se seguia uma ceia dos novos, para os estudantes reconfortarem o estômago antes de se dedicarem às «demais proezas nicolinas» da longa noite e madrugada de 4 para 5 de dezembro.

Apesar da sua natureza de dádiva e de partilha, o Magusto era um dos números que mais antipatias suscitavam entre os habitantes de Guimarães, por atentar contra o sossego de quem queria dormir, em especial quando os ânimos se alteravam, ativados por excessos etílicos ou pela falta de maneiras de

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alguns, que metiam «as garras no cesto das castanhas» e perturbavam, ou até impediam, o bom curso da sua distribuição.

Em tempos recentes, o Magusto deixou de ser um verdadeiro magusto. Desapareceu a fogueira onde as castanhas eram assadas, que antigamente ardia junto do pinheiro. Permanece a partilha das oferendas das posses, que agora acontece na praça de São Tiago. As castanhas que são distribuídas no final das Posses são encomendadas pela comissão a profissionais que as assam nos carrinhos que nos habituámos a ver nas ruas da cidade, nos dias frios de inverno.

Posses e Magusto: partilhar o inverno