A 4 de dezembro, por volta das 21h00, o número das Posses sai do Largo da Feira, fazendo-se anunciar pelo estralejar de foguetes, com toda a Comissão envergando o traje de trabalho, acompanhada por uma charanga que toca o Hino Escolástico, ao ritmo do qual os estudantes vão dançando, marchando e saltitando, ora avançando ordenada e compassadamente, alinhados com as mãos sobre os ombros uns dos outros, ora correndo desalmadamente, de mãos dadas, por entre a multidão que os segue, numa coreografia que se repete incansavelmente até ao fim do número, muitas horas depois. A primeira posse é habitualmente dada no restaurante da Piedade. Os locais não são sempre os mesmos, mas alguns, mais emblemáticos (o antigo Liceu, as casas de certos nicolinos, a Torre dos Almadas no fim do número, por exemplo), mantêm-se de ano para ano. Na realidade, a primeira posse do dia já fora realizada, ao fim da tarde, em Urgezes. Por sugestão do nicolino-mor Hélder Rocha, o relançamento encenado do «dízimo de Urgezes», que havia sido suprimido em 1834, foi assumido pela Junta de Freguesia em 1998. Promovido como «a mais antiga posse das Nicolinas», o Dízimo não faz parte do calendário das Festas, nem oficialmente nem de facto: realizado a alguma distância do centro da cidade, ainda é pouco conhecido do público vimaranense.
Em contrapartida, tem crescido o interesse pelas Posses realizadas à noite no centro da cidade. À chegada a cada local, com o saco ou cesto da posse geralmente visível numa varanda ou numa janela e contendo os mais variados géneros alimentares e garrafas, a Comissão é recebida com a récita de um pequeno texto satírico rimado. O regresso anual às mesmas casas é, por vezes, motivo de humor repetitivo. Muitos consideram que o empenho da ACFN e a elaboração e declamação destes textos tem sido o fator crucial do renovado interesse pelas Posses. De facto, o número parece atrair uma assistência cada vez mais numerosa, nos limites de umas centenas que vão minguando ao longo das muitas horas que antecedem o Magusto. A declamação pode incluir uma parte de improviso, mais ou menos desenvolvida, mas os textos são habitualmente escritos seguindo as mesmas linhas de inspiração que o Pregão, como o ilustram os seguintes extratos de Posses assinadas por Rui Melo, também autor apreciado de numerosos Pregões.
107 Minhas senhoras e meus senhores
Sapateiros, calceteiros e atores Comerciantes, talhantes e grossistas
Advogados, serralheiros e... alfarrabistas... Cartomantes, endireitas e bruxos
Bar-menés que vendem vinho em cartuchos Agricultores, gestores e economistas
Padres, freiras e... seminaristas. Professores, alunos e boticários Médicos, fadistas e falsários Jet-set, Jet-Lag, Jet-Mete e DJ’s Camareiros, bobos e Lightjockeys. Abraços, a todos a quem se justifique O político, meus caros, que se fornique. (…/…)
Deixemos a desdita, rapaziada. Sois nossos! Vimos da mesma cidade! Dêem cá os ossos... Saibam que quem dá o pão, também dá o pau... E lá dentro temos um enorme varapau...
Sorri, rapaziada! Sorri! Estes são os vossos dias Não vos quedeis com velhas estórias e alegorias Fazei a vossa e nossa Festa... Sêde felizes... Deixem-nos por cá a lamber as cicatrizes... Cuidem da nossa Festa ao Nicolau Velhinho Sejam vocês próprios! Não copiem o vizinho. Cuidem da cidade! Queiram sempre mais... Não sejam soldados, podendo ser generais! Vinde, Comissão! Ninguém vos põe cabresto! Montem-se uns nos outros e levem-nos o cesto...
(2010. Texto das posses da mui nobre, mas sempre infame associação das comissões de festas nicolinas http://www.nicolinos.pt/uploads/documentos/2010-12-03-r1%20posse%20ACFN%202010.pdf)
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Agora estou próximo o fim
E ainda bem, estou como um gaio... Não me lembro de estar assim, Só na Queima e já foi em Maio... Tenho pena de não beber mais Mas se beber há quem me encerre Na jaula, junto com os animais Põe-me a GNR...
E se mandar vir, se estrebuchar Dão-me um murro, apagam a luz E no Benfica vou ter que acabar A fazer de conta que sou o Jesus O que vale é que ninguém me caça, Tenho uma réplica da Taaaaaça!!! Meus garçons e minhas filles Vous ne se deixez pas enganez.
Nous sommes jolies come les ervilhes, Viens cá cima e tu logo vês.
E A POSSE! O raio do cestinho? Fumaste-ze-li-o? Deu-lhe o eclipse C’a porra, c’a granda cheiro a vinho, Isto hoje parece o apocalipse... Sai a Posse! Juízo na mioleira Nós cá estaremos para investigar. A melhor POSSE da cidade inteira É vossa! Esperainde... Está a chegar...
(2013. Posse da inenarrável e sempre infame (cada vez mais…) Associação das Comissões de Festas Nicolinas http://www.nicolinos.pt/uploads/documentos/2013-12-04-Posse%20ACFN%202013.pdf)
109 Jovens nicolinos, fregueses e clientes
Gente da alta, média e pedintes O Fortaleza é um café democrata
Onde se serve um copo e também uma nata. O Nicolino sabe que connosco pode contar Que estaremos sempre aqui neste lugar Para quando haja alguma coisa que precise, Algum evento que queira se realize.
Mas perdoe-me o povo, a malta costumeira Que está na hora de dar um golo de Macieira. Orgulho temos de sermos patrocinador Destas Festas de grandioso fulgor É indubitável que estas não têm igual Nem no País, nem à escala Mundial Mas, oh meus rapazes da vida airada Pareceis-me malta pouco entusiasmada Sempre quereis a cesta dos comes e bebes Ou será que é para deitar antre as sebes? Mas perdoe-me o povo, a malta costumeira Que está na hora de dar um golo de Macieira. Bem parecia! Temos aqui vinho sonante D’arregalar o olho a qualquer estudante O belo manjar também está presente Para deglutir e p’ra dar ao dente. Nós não falhamos nesses prazeres É nosso trabalho, sem mais afazeres E para acompanhar o texto que recito Até vos convido a beber um copito.
Mas perdoe-me o povo, a malta costumeira Que está na hora de dar um golo de Macieira.
(2006. Texto recitado no dia de Posses no Café Fortaleza http://www.nicolinos.pt/uploads/documentos/2006- 12-04-TEXTO%20DAS%20POSSES%20FORTALEZA%202006.pdf)
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É possível encontrar os textos completos de diversas Posses disponíveis na Internet, mas ninguém parece ter pensado na possibilidade de uma recolha tão exaustiva quanto possível: este corpus de documentos complementaria o conjunto dos Pregões e permitiria seguir de mais perto a evolução das ideias acerca das Festas e de como deveriam ser. Assim, numa Posse realizada na praça de São Tiago em 2017, a mãe de duas alunas exprimiu o seu vivo desejo de ver as raparigas poderem ser eleitas para a Comissão, suscitando um murmúrio de comentários na assistência.
No fim do discurso, os estudantes pedem a posse, «E venha a posse! E venha a posse!», de maneira insistente até que alguém da casa coloque o cesto, pendurado de uma corda, mais ou menos ao seu alcance: ainda devem saltar, pular ou trepar para o recolherem e, quando estão prestes a conseguir, quem dá a posse pode voltar a puxá-la para cima. A gente da casa pode também dar a ordem repentina «E toca a banda», o que obriga os jovens, de braços entrelaçados, a saltitarem mais uma vez no meio do público até ao fim da música.
Bastante físico e cansativo para os rapazes, este número exsuda boa disposição e humor, e várias dezenas de pessoas acompanham-no até ao seu termo: o Magusto noturno nas arcadas entre as praças de São Tiago e da Oliveira, onde são partilhados os produtos obtidos com as Posses e as castanhas assadas, tradicionais na sociabilidade festiva do início do inverno.
As Posses são uma performance coletiva, em contraste com a versão atual do Pinheiro, que permite uma participação ativa mas anónima da população. O Pinheiro assume cada vez mais um papel de projeção das Festas Nicolinas para o exterior, mas as Posses são uma manifestação de identidade coletiva de uma cidade que olha para si própria. São mais discretas, desprovidas de imponência, repletas de referências humorísticas que, em boa parte, não são compreensíveis para os forasteiros, como é o caso das referências recorrentes à Macieira. Nessa noite, os habitantes da cidade dispõem de várias possibilidades, mais individuais e diretas, de se envolverem e interagirem com a Comissão: acompanhando o cortejo, reagindo às piadas, mas também preparando e dando uma posse ou partilhando o Magusto.
Este é o momento mais intimista das Festas Nicolinas. Muitos já rumaram de regresso a casa e o grupo reduziu-se a poucas dezenas de elementos. Se é possível dizer que quem não viveu o Pinheiro não pode perceber as Nicolinas, o mesmo poderá ser verdade do Magusto: tarde numa noite fria, em pleno coração da cidade, sentir que o inverno está à porta mas abrigando-se no relativo aconchego das arcadas entre a praça da Oliveira e a praça de São Tiago, segurar na mão o reconfortante calor de uma oferta de castanhas assadas, partilhadas com um grupo jovial. Depois das farpas e da brejeirice das Posses, o Magusto traz um sentimento de apaziguamento e de reconciliação. Os estudantes que acompanharam o início da noite já regressaram a casa, provavelmente por causa das aulas cedo na manhã seguinte, e durante este momento das Festas a Comissão convive de perto com Velhos Nicolinos e com moradores do centro. Um antigo nicolino contemplava, pensativo, a Igreja da Oliveira: «Venho todos os anos. Em momentos assim, parece-me que sinto o tempo a passar.» E uma nicolina ao seu lado, olhando para a capela, dizia: «E o são Nicolau está aqui perto.»
111 As coletas de alimentos destinados a uma redistribuição entre os membros da comunidade são uma constante das festas tradicionais europeias, em particular no Carnaval, mas também em diversas outras ocasiões do ciclo anual, momentos em que o tempo e as atividades do quotidiano ficam suspensos. O contexto das Posses e do Magusto não mudou menos do que as condições sociais que davam o seu sentido às antigas Roubalheiras: a atual (sempre relativa, mas objetivamente maior) afluência da sociedade portuguesa tornou a partilha de alimentos menos carregada de significados. Mas outras dificuldades persistem em fomentar a necessidade da reatualização regular de um sentimento de comunidade. Será porventura o momento das Festas que mais se tem aproximado das suas funções e significações antigas e que mais hipóteses parece apresentar de as conservar.
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O Pregão
António Amaro das Neves
Rafael Bluteau define pregão como uma «publicação de qualquer coisa que convém que todos saibam», sendo sinónimo de bando. O Pregão ou Bando Escolástico, que tem lugar na tarde do dia 5 de dezembro, véspera de São Nicolau, serve para anunciar publicamente as festividades do dia seguinte. Faz-se anunciar pelo toque de caixas e bombos e compõe-se de um pequeno cortejo acompanhado por estudantes, a pé e a cavalo, com o Pregoeiro (o membro da Comissão que foi escolhido para dizer o pregão) a ser conduzido num vistoso carro puxado por cavalos, até aos diferentes locais onde irá executar a sua função.
Em tempos em que não havia meios de comunicação à distância eficazes, notícias ou anúncios com relevante interesse público eram levados ao conhecimento das pessoas através de bandos anunciadores, uns mais solenes do que outros. Ainda hoje no Brasil, em especial na região da Baía, é através de bandos que, de véspera, se anunciam as festas populares. Em Guimarães, como nas outras povoações portuguesas, era frequente a saída à rua do bando municipal, para fazer anúncios e proclamações de diferentes naturezas (nascimentos, mortes e casamentos na família real, visitas oficiais, anúncios militares, etc.). Data de 1929 a última notícia que temos em Guimarães desta forma de propaganda, com um bando municipal que anunciava uma visita do presidente da República. Esta tradição ainda hoje persiste na véspera do dia de São Nicolau, funcionando como uma espécie de anuário crítico e satírico dos acontecimentos locais, do país e do mundo, mas que, nas versões mais antigas, servia apenas para anunciar, em texto rimado, os festejos que teriam lugar a cada 6 de dezembro.
O bando nicolino era formado por um pequeno cortejo, integrado por estudantes mascarados, uns a pé, outros a cavalo, rodeando um carro, decorado a preceito, onde seguia o Pregoeiro, com mascarilha de veludo e rica e elegantemente vestido (desde o ressurgimento das Festas em 1895, o Pregoeiro, assim como o Ponto, enverga o trajo de gala, sem capa e com camisa de colarinho em aba, laço branco e luvas também brancas). O cortejo fazia o seu percurso ao som de tambores, que tinham a função de chamar o povo a reunir. Em chegando aos lugares do costume, o cortejo estacionava, aguardando que a gente se juntasse à volta do carro. Quando tudo estava pronto para se iniciar a leitura do pregão, soava um clarim, indicando que era o momento de impor o silêncio, para que o Pregoeiro se pudesse fazer ouvir. Este ritual repetia-se em vários locais da povoação. Com o tempo, desapareceu o clarim e o acompanhamento ficou limitado a caixas e bombos.
Não se consegue precisar quando é que esta prática começou a ser adotada pelos estudantes de Guimarães para anunciarem os festejos do dia 6 de dezembro. O pregão nicolino mais antigo que chegou até nós data de 1817 e é, como todos os que se lhe seguiram, mais do que um anúncio de folias, uma interessante peça literária e informativa. Entre os seus autores, contam-se diversos escritores que alcançaram posições de destaque nas nossas letras, em diferentes géneros literários, como João Evangelista Morais Sarmento, António de Oliveira Cardoso, Pereira Caldas, João Machado Pinheiro (visconde de Pindela), Francisco
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Martins Sarmento, Bráulio Caldas, João de Meira, Delfim de Guimarães, Jerónimo de Almeida ou Gaspar Roriz.
João Evangelista de Morais Sarmento (1773-1826)
João Evangelista de Morais Sarmento é natural do Porto, onde nasceu a 26 de dezembro de 1773, filho de oficial da Vedoria e Tesouraria Geral das Tropas, que o deixou órfão aos 14 anos. Entregue aos cuidados da sua mãe viúva, fez os estudos de humanidades na sua cidade natal. Desde cedo evidenciou a sua inclinação para poesia, mas a necessidade de encontrar um meio de sustento levou-o a matricular-se, aos 18 anos, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, onde se formou em 1801. Depois de alguns anos de exercício da medicina no Porto, durante os quais firmou créditos como médico e como poeta, fixou-se em Guimarães, na casa dos senhores de Vila Pouca.
Em 1816, foi estabelecido um partido de médico nas Caldas de Vizela. João Evangelista foi o seu primeiro titular, ficando com a obrigação de ali residir durante a época balnear e de prestar assistência gratuita aos pobres — o que ele já fazia desde que se instalara em Guimarães. Também foi médico da Misericórdia de Guimarães, função a que resignou em meados de 1818, «por falta de forças».
Poeta distinto, com uma robusta formação clássica, que sobressai nas suas composições mais elaboradas, era também conhecido pelo seu talento para o improviso. Apaixonado pela oratória, estudou retórica nas Aulas dos Congregados, no Porto, e na sua biografia consta que «compusera muitos sermões, que foram por alguns pregadores recitados como próprios.»
Em Guimarães recitou poesias suas em diversos atos públicos, destacando-se por ser o autor dos quatro primeiros pregões da festa dos estudantes de Guimarães a São Nicolau que se conhecem, os que foram recitados nos anos de 1817, 1818, 1819 e 1822. Nos bandos escolásticos que compôs, João Evangelista fixou um modelo que seria replicado até ao final do século XIX, com a evocação recorrente de personagens da mitologia clássica (Lísia, Minerva, Marte), com as reprimendas ao rendeiro do dízimo de Urgezes, ou com os avisos aos ginjas, ao sórdido taful e ao audaz caixeiro, a quem estavam destinadas duras penas, caso se intrometessem nos festejos. Mas, acima de tudo, com os versos que eram dedicados àquelas que seriam o centro da atenção dos estudantes no dia de São Nicolau, as raparigas, as «belas — o condigno ornamento das janelas».
115 Atormentado por uma saúde frágil, João Evangelista de Morais Sarmento faleceu a
20 de outubro de 1826, alguns meses depois de ter ficado viúvo pela segunda vez, na sua casa na rua da Tulha, em Guimarães. Foi sepultado na capela dos Terceiros de S. Francisco.
António Amaro das Neves
Bráulio Lauro Pereira da Silva Caldas (1865-1905)
Nasceu em Vizela, no dia 8 de maio de 1865. Era filho de um professor do ensino primário, António Pereira da Silva Caldas, e sobrinho de Pereira Caldas, o prolífico erudito que foi professor no Liceu de Braga, autor de um pregão de 1844 que não chegou a ser lido, provavelmente pela ousadia com que se dirigia às belas (Vossos peitos
abri, sexo mimoso, / Fruí hoje de amor ardente gozo). Como o seu tio mais famoso, Bráulio
Caldas também seria professor do Liceu de Braga e escreveria pregões memoráveis. Bráulio fez o Liceu em Braga, onde, em 1883, concluiu os estudos preparatórios. No ano seguinte, matriculou-se nas faculdades de Teologia e de Direito da Universidade de Coimbra, onde se destacou pela sua capacidade de trabalho, aliada a uma ânsia insaciável de saber e de desvendar os segredos da natureza. Rapidamente se tornou um modelo a seguir pelos estudantes mais novos (as sebentas de Bráulio serviriam, durante muitos anos, a outros estudantes). Em 1888, concluiu a formatura em Teologia. No ano seguinte, terminou o curso de Direito, iniciando a sua carreira na advocacia, e cedo se destacou pela eloquência e sabedoria que colocava ao serviço dos seus clientes, muitas vezes pobres a quem não cobrava pelos seus serviços. Tinha fama de conseguir, quase sempre, a absolvição daqueles que defendia na barra do tribunal, fosse pela lei, fosse pela compaixão que suscitava com as suas intervenções apaixonadas.
Foi também professor. Depois de alguns anos a lecionar aulas particulares, em 1903 foi nomeado professor do Liceu Central de Braga, onde regeu as cadeiras de Português, Latim, Alemão e Geografia. Dedicou-se às letras. Escreveu em jornais, mas hoje é recordado, acima de tudo, como o poeta dos versos ternos e maviosos com que cantou os murmúrios do rio que atravessa a sua terra natal e pelos versos de canções que alcançaram grande sucesso, como a Canção da Noite (Murmura Rio, Murmura), inicialmente batizada com o título de Fado das Três Horas, por ter sido àquela hora da madrugada que foi improvisado, num barco a vaguear pelo rio Vizela, com o poeta e o autor da música, Reinaldo Varela, a bordo.
A ligação de Bráulio às festas de São Nicolau vinha de longe. Em 1881, quando não tinha mais de 16 anos, publicou no jornal humorístico Formigueiro uns versos dedicados a
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uma ingrata Beatriz:
E contemplando os jovens, no folgar, De Nicolau mirava a festa airosa, Maçãzinhas colhendo à mão briosa Que buscava co’a a lança amor domar. E p’ra mim, nem ao menos ela olhava!
Bráulio Caldas foi o autor do pregão do ressurgimento das Festas Nicolinas de 1895, uma composição inovadora, que introduz um novo modelo, afastando-se das fórmulas quase intemporais que vinham desde João Evangelista de Morais Sarmento e passando a cumprir, para além do seu papel de anúncio das festas do dia 6 de dezembro, uma função de crítica satírica aos tempos que se viviam.
Bráulio seria o autor dos últimos seis pregões do século XIX, todos eles compostos, como se escreveu no jornal Vimaranense de 7 de dezembro de 1897, de «primorosos alexandrinos, que irrompem com ciclópico arrojo para terminar num mavioso lirismo, como só o sabe fazer o nosso ilustre amigo Sr. Dr. Bráulio Caldas.».
Além dos pregões e de diversos poemas nicolinos, Bráulio Caldas é o autor das Danças
dos Velhos de 1901. Faleceu em Vizela, aos quarenta anos, no dia 17 de outubro de 1905.
Em 31 de março de 1935, Guimarães homenageou-o na Penha, por iniciativa daquele a quem Bráulio chamava o meu demo, Jerónimo Sampaio.
António Amaro das Neves
Jerónimo de Almeida (1886-1975)
Jerónimo António de Almeida nasceu em Guimarães a 23 de junho de 1886. Era filho de Eduardo Manuel de Almeida, figura destacada da burguesia vimaranense, e irmão de Eduardo de Almeida, destacado advogado, escritor e político vimaranense. Estudou no Colégio de São Dâmaso, no antigo Convento da Costa, que abandonou, sem completar o curso liceal, para ir para a Inglaterra, frequentar o St. George’s College. Prosseguiu