• No results found

Existe na literatura uma discussão sobre as relações entre ciência, tecnologia e inovação tecnológica ou, pesquisa básica (entendimento) e pesquisa aplicada (uso). Para alguns autores, as atividades que levam à produção de tecnologias e inovações não devem ser responsabilidade de pesquisadores que buscam o conhecimento básico ou puro. Outros, ao

contrário, enfatizam a ligação entre os diversos tipos de conhecimento e, portanto, sua produção. A discussão existente acerca das relações entre ciência e tecnologia é proveniente, em grande parte, do papel que foi atribuído para a pesquisa básica, que é o entendimento das coisas. Para os países em desenvolvimento, esse papel da pesquisa básica não está inteiramente definido e pode ser bastante complicado na prática. E no que diz respeito à educação, segundo Ziman (1981, p. 293), a “formação de cientistas, tecnólogos e técnicos não se resume a uma simples questão de se criar um grande número de universidades ou institutos de tecnologia copiando o modelo europeu, e precisa ser discutida dentro de um novo enfoque.” Dessa forma, a relação entre ciência, tecnologia e inovação “não pode ser estabelecida através de uma fórmula válida para todas as circunstâncias políticas e econômicas.”

O ponto de vista moderno de que o desenvolvimento da tecnologia e inovações não provém dos pesquisadores que buscam o conhecimento foi estabelecido após a Segunda Guerra Mundial. Mas, de acordo com Stokes (2005, p. 51-52), a origem dessas ideias pode ser percebida ainda na Antiguidade, e seu desenvolvimento perpassa as civilizações seguintes.

Na verdade, as origens ideológicas desse ponto de vista remontam às origens do ideal de investigação pura do mundo grego, embora devamos ao início da Europa Moderna a crença corolária de que tal investigação pode aprimorar o ser humano. As contribuições institucionais para essa visão podem ser encontradas na Europa e na América nos séculos XIX e XX. A crença de que a pesquisa pura e a pesquisa aplicada constituem empreendimentos separados foi integrada aos arranjos institucionais para a ciência e a tecnologia na Inglaterra e na Alemanha no século XIX, e nos Estados Unidos no século XX. A essas influências somaram-se as motivações políticas, por parte da comunidade científica, para aceitar um paradigma que justificava o contínuo apoio governamental à ciência básica, ao mesmo tempo [em] que restabelecia a autonomia científica que havia existido antes da Segunda Guerra Mundial. Muitas das questões atuais em torno da ciência e da tecnologia podem ser esclarecidas acompanhando-se o surgimento dessa visão paradigmática mediante as experiências clássica, europeia e norte- americana, examinando-se o contexto político da política científica após a Segunda Guerra Mundial. (STOKES, 2005, p. 51-52).

Segundo Macedo e Barbosa (2000, p. 29), o vínculo entre ciência e tecnologia começa a se evidenciar a partir do século XIX, “nos primórdios do processo de apropriação do conhecimento científico pelo tecnológico.” A história mostra que muitos cientistas que contribuíram para o avanço da ciência também se destacaram por suas invenções de caráter mais prático (MACEDO; BARBOSA, 2000; STOKES, 2005; ZIMAN, 1979, 1981). A interação entre as duas formas de pesquisa é hoje consenso entre estudiosos do tema. Ziman (1979, p. 41), por exemplo, afirma que a ciência e a tecnologia “se acham tão intimamente

ligadas hoje em dia que fazer uma distinção entre as duas chega a parecer pedantismo.” Da mesma forma, “não nos cumpre decidir se um laboratório é tecnológico ou científico para em seguida rotularmos apropriadamente os seus produtos. A definição está no próprio trabalho, na forma com que é apresentado e no público ao qual é dirigido.” Existem muitas teorias referentes às relações históricas entre a ciência e a tecnologia. Para Ziman (1981, p. 46), “às vezes, uma técnica precede uma ciência; outras vezes, uma nova tecnologia evolui a partir de uma série de descobertas motivadas pela simples e pura curiosidade.”

Ziman descreve a relação da ciência e da tecnologia da seguinte forma:

O tecnologista propõe-se a satisfazer uma necessidade; cabe a ele fornecer os meios para a execução de um trabalho específico, como por exemplo, a construção de uma ponte sobre determinado rio, a cura de determinada doença, a fabricação de uma cerveja de melhor qualidade. Ele deve empregar todos os meios ao seu alcance, para esse fim, e usar todo o conhecimento disponível sobre o assunto. Esse conhecimento é quase sempre insuficiente para que ele obtenha a solução ideal para o seu problema, mas ele não pode esperar que todas as pesquisas estejam terminadas para chegar a uma solução. A ponte tem que ser construída neste ano, o paciente precisa ser salvo hoje, a fábrica de cerveja irá à falência se o seu produto não for melhorado. (ZIMAN, 1979, p. 39).

Ziman (1979, p. 39) considera que, “para o público em geral, a ciência e suas aplicações são praticamente a mesma coisa, ao passo que os cientistas, propriamente, fazem questão de estabelecer a diferença entre o conhecimento puro, sem finalidade prática, e o conhecimento tecnológico, aplicado às necessidades do homem.” Entretanto, “houve um tempo em que a ciência era acadêmica e sem utilidade, e a tecnologia era uma arte prática; hoje, porém, elas se acham de tal forma interligadas que não é de admirar que o povo, em geral, não consiga distinguir uma da outra.” Ziman (1979, p. 82) complementa que, “o ensino científico tem por finalidade a pesquisa; o tecnológico a prática.” Mas não há grande diferença entre os dois tipos de ensino, assim, “velhas tecnologias são modificadas pelo acréscimo de novos e vastos conhecimentos científicos, velhas ciências passam a ter tantas aplicações práticas que aqueles que se diplomaram nelas passam a [ser,] de fato, tecnologistas.”

Grinspun (2001) também afirma que a ciência e tecnologia são inseparáveis tanto em termos do conhecimento estruturado e fundamentado quanto em termos da prática efetivada.

A ciência está comprometida com os princípios, as leis e as teorias, enquanto a tecnologia representa a transformação deste conhecimento científico em técnica que, por sua vez, poderá gerar novos conhecimentos científicos. Em outras palavras, é um conhecimento e uma ação que não para jamais, em constante reciprocidade, na medida em que a tecnologia está buscando,

permanentemente, aperfeiçoar as mudanças trazidas pela ciência. Esta dá o suporte teórico e a tecnologia, a infraestrutura com seus instrumentos tecnológicos, surgindo assim uma nova produção técnica que está sempre em busca de novos conhecimentos científicos. (GRINSPUN, 2001, p. 51-52).

Narin (2013, p. 68) é outro autor que percebe forte interação entre ciência e tecnologia, afirmando que embora a pesquisa básica vise principalmente aumentar o conhecimento científico, com frequência, contribui significativamente para o bem-estar da sociedade. “Entre cientistas é amplamente aceito que a pesquisa básica sobre questões científicas fundamentais é a força motriz por trás da alta tecnologia e crescimento econômico.”

Nesta pesquisa, o foco está na segunda fase mencionada por Freire-Maia (1998, p. 17): a divulgação dos resultados. Tendo em vista que a criação dos Institutos Federais teve entre seus objetivos dar ênfase à produção de tecnologia, razões pragmáticas na classificação de Viotti (2003, p. 47-48), mas que a lei que os criou também cita o fazer ciência, esta pesquisa pretende perceber como estão sendo realizadas, em termos quantitativos, essas atividades, por meio da caracterização da divulgação dos resultados das atividades de pesquisa realizadas pelos professores/pesquisadores nos Institutos Federais.