No Brasil, a pesquisa em ciência e tecnologia é abordada por Schwartzman (2005), que mostra como essa atividade se desenvolveu ao longo do tempo. Conhecer um pouco sobre o desenvolvimento da pesquisa no Brasil auxilia no entendimento dessa atividade
principalmente nas universidades. Parte inicialmente da percepção do que é pesquisa como atividade intelectual. Essa pesquisa é realizada pelo professor por meio da leitura de livros e artigos para manter-se atualizado e ter conhecimento para ser transmitido em forma de conteúdo em sala de aula. Entretanto, Schwartzman (2005) traz outro conceito de pesquisa, que é a pesquisa como atividade profissional. Esse tipo de atividade “produz conhecimentos novos que circulam em certos meios, que são aplicados ou difundidos, que tem algum tipo de reconhecimento, onde o pesquisador não é simplesmente um professor, mas sim um profissional da pesquisa.” Para Schwartzman (2005), a pesquisa profissional existe em muitas universidades. Nessas instituições, “a atividade da pesquisa passa a ser prioritária e a atividade de ensino passa a ser vista como um aspecto secundário ou derivado.” Isso quer dizer que a pesquisa, enquanto atividade intelectual para o ensino, é necessária, e a pesquisa como atividade profissional com um fim prático deve ser constante.
No Brasil, a pesquisa profissional variou ao longo do tempo. De acordo com Schwartzman (2005), “há 100 anos, predominava a visão positivista, sobretudo entre os engenheiros e os militares. Para eles, havia um conhecimento científico, técnico, que era superior a outras formas de conhecimento, e que deveria ser utilizado para tornar o país mais moderno, racional e eficiente.” Essa visão da ciência não estava associada à pesquisa enquanto prática profissional. O que ocorria é que “não havia um mundo desconhecido a descobrir, mas uma tecnologia já definida para aplicar.” Segundo Schwartzman (2005), há uma noção que prevalece até os dias atuais de que a sociedade deve estar sob o comando de especialistas, ou seja, deve estar organizada como se fosse um projeto de engenharia. Para o autor, os conceitos de ciência não desapareceram, o que ocorreu foi que esses conceitos adquiriram formatos em épocas e locais diferentes.
Schwartzman (2005) diz que, no Brasil, o conceito de ciência que sucede a ciência positivista é o conceito da ciência pura. “Quando falamos de ciência pura, pensamos na criação da USP nos anos 30 e também no surgimento de um novo tipo de intelectuais, de matemáticos, de astrônomos fundadores da Academia Brasileira de Ciência.” A ciência para este caso não era instrumento de ação da sociedade, mas era um conhecimento que tinha a ver com a cultura e a formação humanística. “Nesta nova visão, o poder dos técnicos e engenheiros é substituído pela ideia de uma comunidade de pesquisadores livres e independentes, onde confirmar a exploração das fronteiras do desconhecido tem precedência sobre a prioridade da aplicação e da pesquisa voltada para fins determinados.”
A partir dos anos 50 no Brasil, ocorre uma mudança muito importante com o inicio da ideia da ciência como poder do Estado. Essa mudança ocorreu com a criação do CNPq. “Essa
visão, que retoma o otimismo tecnológico dos positivistas associado à ideia de poder, está no embrião da criação do CNPq e ressurge com toda força no período militar.” (SCHWARTZMAN, 2005).
A história da ciência no Brasil e, em particular, do fomento à ciência, de acordo com Borges (2011), é muito recente e tem pouco mais de meio século.
Comparado ao contexto mundial, especialmente o europeu, cuja história é milenar, apresenta uma realidade que precisa ser bem equacionada se se deseja colocar o país entre as potências produtoras de conhecimento. Logo no início da década de 50, o Brasil cria suas principais agências de fomento: a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Essas iniciativas seriam responsáveis pelo crescimento da pós-graduação e da ciência e tecnologia e – consequentemente – por grande parte do sucesso que hoje o país apresenta no cenário internacional no que diz respeito à produção científica.(BORGES, 2011, p. 177-178).
Na época que o Brasil viveu sob o domínio do regime militar, de acordo com Schwartzman (2005), a ciência foi “tomada pelos estrategistas militares, que compartilhavam com alguns economistas a ideia de que a pesquisa científica e tecnológica deveria ser planejada e integrada em projetos de desenvolvimento de longo prazo.” O desenvolvimento desses projetos seria de responsabilidade dos Planos Nacionais de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Também faz parte deste período “a criação da pós-graduação brasileira nos moldes americanos, com a reforma de 1968, onde se criam as pós-graduações nas universidades.” O que ocorria no Brasil eram duas políticas diferentes, uma desenvolvia grandes projetos tecnológicos de interesse militar e a outra formava recursos humanos para a educação superior.
Nos anos 80, para Schwartzman (2005), o Brasil entra em crise e o regime militar é substituído pela democracia. Nesse período aconteceram inúmeras mudanças e aos poucos foram atendidas as reivindicações dos pesquisadores e professores, o que permitiu que a pós- graduação crescesse. “O crescimento da pós-graduação, estimulada pela exigência de professores titulados nas universidades, e controlada em sua qualidade pelo sistema de avaliação da CAPES, marca o período mais recente.” A CAPES tem “um papel muito importante, colocando a pesquisa como um dos critérios centrais para a avaliação da pós- graduação, reforçando o sistema de mérito, e estabelecendo uma referência clara de qualidade para os cursos de mestrado e doutorado.”
De acordo com Schwartzman (2005), o desenvolvimento de pesquisa, como critério de avaliação de programas de pós-graduação, trouxe problemas “entre os quais a valorização
talvez excessiva dos aspectos formais de pesquisa – sobretudo publicações internacionais [...] para muitos setores foi a transformação da pesquisa em um ritual de atendimento aos requisitos da Capes.” Para o autor, esses critérios podem fazer com que as pessoas realizem suas atividades tendo por foco essas avaliações do que o interesse genuíno em desenvolverem suas pesquisas com um fim útil: “os grandes problemas sociais requerem pesquisa, requerem conhecimento.”
A forma de pensar e fazer ciência, segundo Schwartzman (2005), se modifica em nosso país a partir dos anos 90. Essa mudança passou a estimular um vínculo com o setor produtivo. “A ideia é que, vivendo somente à custa de dinheiro público, a ciência tenderia a se burocratizar, não produzir resultados significativos, e acabaria não conseguindo recursos adicionais para continuar se desenvolvendo.” Se a pesquisa científica desenvolvida “fizesse parte de um sistema de inovação mais amplo, que incluísse também o setor produtivo e empresarial, ela passaria a ser avaliada pelos seus resultados, se tornaria muito mais relevante, e teria muito mais facilidade de conseguir apoio.” Essa forma de fazer ciência, de certa forma, “trata-se de uma volta à concepção utilitarista da ciência que vem dos positivistas de 100 anos atrás. Ela gera uma forte pressão dentro da área científica para buscar resultados, buscar parcerias, o que em nosso caso é complicado, pois a nossa pesquisa continua muito fechada dentro das universidades e institutos governamentais.”