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Faremos uma pequena explanação sobre o fundamentalismo e o conservadorismo, para abrir nosso estudo e compreender as posições dos grupos religiosos em questão.

O pentecostalismo brasileiro é herdeiro do pentecostalismo norte-americano. Portanto, herdeiro de alguns aspectos ideológicos pertinente a esse povo. Vamos partir do conceito de fundamentalismo a partir de fatos da Modernidade.

Segundo Flávio Antônio Pierucci (1992, p. 144), quando o Reverendo Curtis Lee Laws, editor do jornal batista Watchman Examiner, inventou o termo «fundamentalista» em 1920, o nome foi honrosamente assumido por seus colegas batistas e presbiterianos como algo que denotava seu empenho de ir à luta «pelos pontos fundamentais da fé». Esses fundamentals of Faith estavam contidos em doze livretos de teologia conservadora, escritos entre 1910 e 1915, momento coincidente com o clímax do Integrismo católico. Os «cinco pontos fundamentais» contidos na declaração adotada pela Igreja Presbiteriana em 1910, considerada como profissão de fé fundamentalista são: a inerrância da Bíblia, o nascimento virginal de Jesus, a ressurreição física de Jesus, a expiação dos pecados de Jesus, a autenticidade dos milagres de Jesus. Sendo que o primeiro ganhou destaque máximo no ativismo fundamentalista e acabou fazendo da narrativa bíblica da criação do homem uma espécie de obsessão permanente.

Esse movimento fundamentalista surgiu, em parte, como uma reação aos pensamentos que a Modernidade trouxe. De certo modo, com os ideólogos franceses e seus discursos antiteológico. O discurso religioso foi excluído dos pilares da sociedade, da economia e da política. O homem conseguiu se libertar das amarras da religião, pode optar por seguir outro grupo religioso ou mesmo abdicar da religião.

Foi nos Estados Unidos da América, no final do século XIX e início do século XX, no campo da teologia dos protestantes históricos calvinistas e baptistas onde essa reação aos pensamentos antiteológicos achou terreno fértil. O movimento fundamentalista tinha o propósito de trazer os preceitos do cristianismo de volta para o centro da vida do indivíduo e da sociedade. Começou dentro do próprio contexto religioso, reestruturando as igrejas e suas posições eclesiásticas. Depois se dirigiu à sociedade secularizada. E por último o discurso fundamentalista se expandiu para o âmbito cultural e político. Tendo por princípios o combate a laicidade do Estado, os movimentos feministas, a legalização do aborto, os direitos dos homossexuais, o ensino nas escolas da teoria darwinista e o comunismo ateu soviético.

O movimento fundamentalista considera que a sociedade moderna está secularizada, distante dos preceitos cristãos. A razão disso, foi a amplitude dos ideais de liberdade e igualdade que abriram precedentes para movimentos sociais acima mencionados, produzindo uma mudança profunda na sociedade. Essa mudança, no entendimento dos fundamentalistas, deixou Deus de fora do convívio social, principalmente no que diz respeito aos valores da família. Motivo pelo qual deveriam ser combatidos a qualquer custo, e um dos meios para isso foi o avanço na política.

A atuação massiva dos meios de comunicação como pregação do evangelho foi imprescindível para o sucesso do movimento fundamentalista. O uso de “Satanás”, como protagonista de seus discursos, serviu para pontuar a decadência da sociedade. Alinhado aos seus discursos, estava o medo do processo de comunismo ateu soviético da época (O comunismo começa onde começa o ateísmo – Karl Marx37), o que ajudou no sucesso do movimento.

37 Karl Marx - Essa propriedade privada material, diretamente perceptível, é a expressão material e sensória da vida humana alienada. Seu movimento produção e consumo - e a manifestação sensória do movimento de toda a produção anterior, e a realização ou realidade do homem. A religião, a família, o Estado, o Direito, a moral, a ciência, a arte, etc., são apenas formas particulares de produção e enquadram-se em sua lei geral. A substituição positiva da propriedade privada como apropriação da vida humana, portanto, é a substituição de toda alienação, e o retorno do homem, da religião, do Estado, da família, etc., para sua vida humana, é social. A alienação religiosa como tal, ocorre somente no campo da consciência, na vida interior do homem, mas a alienação econômica e a da vida real, e por isso, sua substituição afeta ambos os aspectos. Está claro, a evolução em diferentes nações tem início diferente, conforme a vida efetiva e estabelecida das pessoas estejam mais vinculadas ao reino da mente ou ao mundo exterior, seja mais uma vida real ou ideal. O comunismo começa onde começa o ateísmo (Owens), mas o ateísmo de início está bem longe de ser comunismo; de fato, ele é, na maior parte, ainda uma abstração. Assim, a filantropia do ateísmo é, a princípio, unicamente uma filantropia filosófica abstrata, enquanto a do comunismo é desde logo real e orientada e voltada para a ação. (Marx, Manuscritos Econômico-Filosóficos, Terceiro Manuscrito, Propriedade Privada e Comunismo-XXXIX, V)

O movimento fundamentalista avançou combatendo a secularização da sociedade. Pelo lado político, os fundamentalistas apoiaram os EUA no período da Guerra Fria, acreditavam que era um modo de defender o país e aproveitar para difundir e integrar os valores cristãos à democracia. Nessa luta contra o comunismo ateu, os fundamentalistas ajudaram a produção de um «espírito americano», ou seja, um nacionalismo tão comum ainda nos dias de hoje. Esse nacionalismo, essa defesa da pátria, da bandeira, esse sonho americano foi gerado nesse contexto.

A atuação massiva não ficou somente no campo da comunicação. Os religiosos fundamentalistas ajudaram a financiar os governos conservadores contra o avanço dos partidos de esquerda. Faziam um forte ativismo atacando as minorias homossexuais, as iniciativas de legalização do aborto, e as teorias darwinistas. Com a pretensão de frear as políticas públicas baseadas nestas questões, adentraram na política.

Segundo Martin Dreher (2006, p. 8) todos os fundamentalistas se parecem, os religiosos e os do mercado. Os religiosos porque vivem dogmas de fé; os do mercado, porque, para eles, o mais importante são as leis que regem a compra e venda de seus produtos. Desprezam vidas humanas. O trágico é que, enquanto desprezam vidas humanas, o fazem em nome de uma Verdade única.

Nos discursos fundamentalistas os valores cristãos são os pressupostos para toda ação política. Uma vez que, somente através da verdade do texto sagrado cristão, é que a sociedade chegará à perfeição onde há prosperidade e felicidade para todos. É somente através das leis divinas, transformadas em leis políticas que a sociedade perfeita se construirá.

Pierucci (1992) nos aponta que a Igreja Católica também se manifestou. Com a publicação da Rerum Novarum (1891) aconteceram mudanças no catolicismo na última década do século XX. Começava a surgir a chama do espirito integrista. A Rerum Novarum foi recebida por alguns clérigos como uma condenação a moderna sociedade burguesa e uma conclamação à restauração da velha ordem social, pré-burguesa e confessional cristã. Em torno da interpretação do texto papal veio a se estabelecer «um verdadeiro cisma interno, extremamente duro, violento, entre de um lado, aqueles que se chamarão «católicos sociais» e, de outro, aqueles que os católicos sociais vão chamar de «os integristas». O movimento integralista que tem como princípios:

• A autoridade sacra para a qual se pretende a inerrância literal, é o texto papal (melhor dizendo, certos textos, de certos papas, e não a Sagrada Escritura; • A motivação do zelo militante é a defesa de valores religiosos ameaçados de

decomposição pelos efeitos da Modernidade:

• A Modernidade, por conseguinte, é pensada como síndrome antagônica à tradição que se quer preservar;

• Numa sociedade condenada a se desagregar pelos próprios erros, o único e legitimo portador da boa ordem sociopolítica a restaurar é a Igreja hierárquica, o alto clero; • Para a restauração de uma sociedade integralmente cristã, ou seja, confessional em seu conjunto, é indispensável a manipulação ou o exercício do poder político.

Tendo em vista a perpetuação de uma tradição declarada imutável, o integralismo opera necessariamente uma recuperação do político para fins religiosos.

O Papa Pio XI, na encíclica Divini Illius Magistri (educação cristã), de 31 de dezembro de 1929, também almejava fazer uma certa modelagem na sociedade através dos dogmas da Igreja Católica. Defendia que a sociedade sob a luz da Igreja Católica é a referência de sociedade espiritual e temporal. «Contam-se três sociedades necessárias, distintas entre si e, pela vontade de Deus, harmoniosamente interligadas; às quais o homem pertence por nascimento. Duas delas, a comunidade doméstica e a civil, são de ordem natural, a terceira, a Igreja, de ordem sobrenatural. […] a Igreja, sociedade certamente sobrenatural, abrangendo todo género humano e “perfeita em si”, já que dispõe de tudo para alcançar seu fim, a salvação eterna dos homens, e, portanto, suprema em sua ordem. Os direitos preeminentes da igreja […] não entram em conflito e até estão de acordo com os direitos da família e do Estado e até os próprios direitos que cada cidadão tem no que respeita à justa liberdade cientifica, aos métodos científicos e à cultura profana em geral. […] os direitos são concedidos a sociedade civil pelo «próprio autor da natureza» (Ef 3,15), não a título de paternidade como à Igreja e a família, mas sim em razão da autoridade que lhe compete promover o bem comum na terra, que é precisamente e o seu fim próprio. […] Esse fim, «o bem comum de ordem temporal», consiste na paz e na segurança de que gozam as famílias e cada um dos cidadãos no exercício de seus direitos e, ao mesmo tempo, na maior abundancia de bens quer espirituais, que perecíveis, de que seja capaz a vida presente mediante o consenso de todos». (Denzinger, 2015, p. 789) No empenho de trazer os preceitos cristãos para o centro da sociedade, os fundamentalistas atuaram em protestos sociais e culturais. Ganharam a atenção da sociedade e peso público, e se tornaram base de plataformas e projetos políticos. Assim, movimento fundamentalista, se tornou um grupo de pressão e a seguir, também partido político, com sua ideologia.

O movimento fundamentalista protestante não ficou confinado somente aos grupos religiosos calvinistas e batistas. Alguns desdobramentos do protestantismo também absorveram esses ideais e acataram as ideias de que os princípios cristãos deveriam retornar ao centro da vida social. Logo, as ideias de que as leis políticas deveriam ser baseadas nas leis do texto sagrado cristão tomou força.

Pierucci alerta que a generalização de termos como integrismo, intransigentismo e fundamentalismo passou a ser difundida na vida cotidiana como fenômenos situados em qualquer lugar do planeta, em qualquer cultura e qualquer esfera da vida social. Na imprensa, sobretudo no rádio e na televisão. Assim como os intelectuais intercambiaram esses termos para qualificar e desqualificar redemoinhos políticos-religiosos. Não deixando de ser fato significativo que no final do século XX, o jargão dos analistas políticos não consiga mais dar conta de fenômenos de mobilização e participação política sem recorrer as esses termos cunhados no campo religioso. É assim que o islamismo político ganha o status de fundamentalista e integrista nos noticiários da imprensa. Caso paradoxal, pois juntar fundamentalismo e integrismo na mesma realidade é como, guardada as proporções, juntar

revolução e tradicionalismo, modernismo e reação, sendo que o fundamentalista que se preze abomina aquilo que mais se apega um integralista: a tradição clerical e vice-versa. É importante, portanto, tomarmos cuidado com as comunicações midiáticas e suas referências a esse respeito.

O fundamentalismo também pode ser aplicável às vertentes do catolicismo, do judaísmo, do islã e até mesmo a síndromes político-ideológicas formalmente não religiosas. Constitui hoje uma prática discursiva cuja significação não pode menosprezar, sobretudo, por seu efeito discursivo de multiplicação de fenômenos até bem pouco tempo circunscritos culturalmente, particulares ao cristianismo ocidental.

O conservadorismo, por seu turno, possui o exercício de idéias enraizadas na sociedade e também estão sub judice de princípios religiosos. Existem vários tipos de conservadorismo, como o liberal, o socialista, o neoconservadorismo, o conservadorismo de direita ou o conservadorismo de esquerda. Em regra geral, as ideias conservadoras estão sempre de acordo com as regras tradicionais da sociedade em questão. Estas ideias podem variar de acordo com o período histórico e de local para local.

Considerado uma das maiores influências do pensamento conservador, Edmund Burke (1729- 1797) defendia, entre muitas idéias, as políticas de caráter conservador levando em consideração os princípios religiosos e as idéias de liberdade de mercado, alegando que se houvesse uma flexibilidade dos valores tradicionais e que se isso se expandisse, destruiria a estrutura social que já existe.

Estamos por demais aptos a considerar as coisas no estado em que as encontramos, sem ponderar suficientemente, sobre as causas que as produziram e que devem possivelmente sustentá-las. Nada é mais certo, do que o fato de que nossos costumes e nossa civilização, e todas as boas coisas que deles decorrem, dependem há séculos na sua Europa de dois princípios, e resultaram sem dúvida, da combinação de ambos: quero dizer o espírito do cavalheirismo e o espírito da religião. A nobreza e o clero, o primeiro por profissão e o segundo por patronato, vêm há inúmeras existências, aprendendo, mesmo no meio de armas e confusões, e mesmo quando os governos ainda estavam sendo formados. (Burke E. , 1982, p. 102)

Burke em sua obra «Reflexões sobre a Revolução em França», analisa que o povo inglês não considerava a instituição religiosa como um acessório do Estado, mas sim, e antes de tudo, como parte essencial da estrutura estatal. Ele não a vê como algo heterogêneo ou descartável, que foi agregado ao Estado por mera questão de comodidade e que se possa ter direito de preservá-la ou recusá-la em consonância com ideias do momento. Ou seja, na sua concepção Igreja e Estado são idéias inseparáveis e é dificil que se possa falar de uma sem fazer menção à outra.

No espaço político brasileiro as principais idéias conservadoras que podemos apontar são: • As instituições políticas devem ser preservadas com seu funcionamento tradicional • Deve haver mais liberdade para o mercado, ficando o Estado limitado em questões de

regulamentações de mercado, os impostos devem ser reduzidos; possibilitando mais liberdade econômica;

• A propriedade privada deve ser defendida;

• Defesa dos valores nacionais, costumes e hábitos tradicionais preservando a ordem moral;

• Reduzir os gastos do governo com políticas sociais e assistencialistas;

Nos dias atuais, com a política brasileira sendo movida por grupos religiosos, não há como deixar de observar dentro da arena política os ideais de conservadorismo e fundamentalismo. Os políticos eleitos estão sempre a exercer a administração pública, levando em conta os princípios cristãos e em termos de econômica tendem ao liberalismo e ao neoliberalismo. Principalmente o grupo neopentecostal que defende o lado empresarial de seu corporativismo religioso, como veremos mais à frente.

5.4 Fundamentalismo (Pós-modernidade) – Religião e consumo