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6.6 Conclusion and mitigation of radiation effects

6.6.3 PA3

A atribuição de características a grupos sociais é uma parte fundamental dos estudos sobre a discriminação, os quais têm contribuído para a aprendizagem da norma domi- nante por parte da população que, por isso, entre outras razões, começa a recusar as atitudes e preconceitos discriminatórios, contrários ao Zeitgeist. Por esse motivo, os investigadores têm adoptado várias estratégias que lhes permitam medir por meios menos directos aquilo que, de forma directa, é difícil captar. Um dos métodos utilizados passa pela medição das pequenas diferenças entre avaliações positivas atribuídas a gru- pos com estatuto social diferente (por ex., Ogay et al. 2001). Em boa parte dos casos, o participante mostra atitudes positivas face ao Outro, mas não tão positivas como as que assume face ao seu grupo ou a outros grupos diferentes do primeiro.

No presente estudo, optou-se, porém, por um outro procedimento de aproximação ao tema, embora não muito distante deste. Foi pedido aos participantes que indicassem, a partir duma lista de atributos positivos, a saber – ‘1: Alegres e bem dispostos’, ‘2: Bons profissionais’, ‘3: Simpáticos e de trato fácil’, ‘4: Competentes e cumpridores’, ‘5: Bem educados’ e ‘6: Sérios e honestos’ – quais os que consideravam adequados à caracte- rização de cada grupo de imigrantes, bem como dos portugueses, segundo uma forma de operacionalização semelhante à que tem vindo a ser adoptada por vários autores (Moscovici e Pérez 1999; Pérez et al. 2002).

Uma primeira abordagem aos resultados passa necessariamente pela análise do número de portugueses dispostos a atribuir características positivas a cada grupo social (Tabela 62).

Alguns trabalhos na área das representações sociais (Pérez et al., 2002) têm demonstra- do a importância de aferir a discriminação, não apenas segundo modelos atitudinais e comportamentais mas também através das ideias, das representações e dos estereótipos existentes sobre os grupos sociais. Esta segunda orientação metodológica permitiria ace- der ao que alguns autores designam como ontologização, que «consiste numa operação de classificação pela qual a minoria pode, não somente ser classificada com exogrupo, mas também ser representada como fora do mapa social da identidade humana» (Pérez et al., 2002: 53). Os mesmos estudiosos relatam um estudo experimental em que as principais classificações atribuídas à maioria pertenciam à esfera do humano e as clas- sificações aplicadas às minoria pertenciam ou eram associadas ao mundo animal, um mundo animal positivo que faria a ponte entre os humanos (a cultura) e aquilo donde vimos (a natureza). Outros autores (Lima 2003; Lima e Vala 2004), para designar o mesmo fenómeno, preferem falar de infra-humanização, que seria um dos elementos de expressão do racismo tomado como «um processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra um indivíduo (ou toda uma categoria social), que é definido como diferente com base em alguma marca física externa (real ou imaginária), a qual é resig- nificada em termos de uma marca cultural interna que supostamente define padrões de comportamento» (Lima e Vala, 2004: 11).

Procurou-se testar esta última abordagem a partir dos dados deste estudo. Tratando-se de um exercício que envolve várias aproximações conceptuais, as hipóteses interpretativas aqui avançadas devem ser olhadas com cautela. Estando, porém, o estudo baseado numa amostra significativa de âmbito nacional é possível dizer com alguma segurança que os traços encontrados correspondem a características expressas, a única dúvida estando em saber se os dados não correspondem mais ao que as pessoas consideram que devem dizer do que ao que realmente pensam. Estas são porém incertezas que não podem ser ultrapassadas em nenhum estudo de opinião como aquele que comentamos.

Seja como for, o facto é que se pediu aos portugueses inquiridos que indicassem se os vários grupos sociais em estudo (imigrantes africanos, brasileiros, de Leste e portugue- ses) tinham os atributos positivos atrás referidos. Da análise das respostas referentes a cada um dos grupos, resulta haver correlações significativas entre todos estes atributos: sejam adequados a distinguir entre as imagens positivas da população portuguesa relati-

vamente aos diversos grupos sociais. Nesta hipótese, significariam uma clara preferência pelos brasileiros e, também, uma menor sintonia com os africanos.

Uma segunda etapa necessária à apreciação destes dados consiste em passar do número de características para os seus aspectos qualitativos, a respeito dos quais se observa um forte consenso em torno da definição dos imigrantes brasileiros como alegres e bem dispostos. Estes também são tidos pela maioria dos portugueses como simpáticos e de trato fácil. A alegria é também o atributo maioritariamente indicado relativamente aos imigrantes africanos. Por outro lado, quando questionados acerca da competência pro- fissional de brasileiros e africanos, são muito menos os portugueses que utilizam estas características na hetero-descrição. Com os imigrantes de Leste passa-se exactamente o oposto – são mais vistos como bons profissionais e competentes do que como pessoas alegres ou simpáticas. Tomando como referência a auto-descrição dos portugueses, observa-se que estes imaginam os africanos e os brasileiros como mais alegres e bem dispostos do que eles próprios, mas piores profissionais, menos competentes e não tão sérios (Tabela 63).

Tabela 63. Características atribuídas a imigrantes e portugueses

Africanos Brasileiros De Leste Portugueses

Alegres e bem dispostos 51% 75% 23% 40%

Bons profissionais 29% 31% 51% 48%

Simpáticos e de trato fácil 37% 63% 35% 45%

Competentes e cumpridores 26% 30% 48% 43%

Bem educados 35% 47% 48% 44%

Sérios e honestos 24% 26% 32% 40%

Por outro lado, vêem os imigrantes originários da Europa de Leste como menos alegres e bem dispostos, menos simpáticos e menos sérios, mas mais competentes e cumpridores e mais bem educados. Quanto à qualidade profissional, não existem diferenças significa- tivas segundo o teste de Wilcoxon para duas amostras dependentes.

Gráfico 106. Médias das características positivas, por grupo de origem

Quanto aos imigrantes de Leste, talvez em razão do quase consenso acerca da sua elevada preparação profissional e intelectual, os portugueses não se destacam deles em termos de rectidão190 e reconhecem-lhes mesmo superioridade no capítulo da compe- tência191. Por outro lado, enunciam a ‘simpatia’ como dimensão primeira de brasileiros e africanos, sobretudo dos primeiros, que nela têm a sua marca distintiva. Os africanos ocupam, na apreciação dos portugueses, o lugar mais baixo em termos de ‘rectidão’ e ‘competência’192. Estes dois grupos teriam uma representação inversa da de portu- gueses e imigrantes de Leste, quanto à nomeação de atributos. Neste caso, primeiro a simpatia, depois a rectidão e finalmente a competência.