Os primeiros resultados, apresentados no Gráfico 98, referentes a uma questão que inqui- ria dos portugueses se os imigrantes trabalhavam mais do que eles mesmos, não têm em si mesmos nenhum elemento de surpresa. A seus olhos, os imigrantes de Leste são os que mais trabalham: mais de metade (52%) di-lo, ao passo que a respeito dos africanos a percentagem desce para 35% e para 26% no que se refere aos brasileiros.186
Gráfico 98. Imagens dos portugueses a respeito de os imigrantes trabalharem mais do que eles mesmos
Para quem está atento à análise espontânea que ressuma das conversas do dia-a-dia, torna-se claro que a recente vaga de imi- gração oriunda de Leste foi, desde a primeira hora, encarada de modo mais positivo do que as restantes vagas de imigrantes; de facto, os números vão nesse sentido.
186 Todas as diferen- ças são significativas (p<0,00) (testes Cochran e McNemar).
A proposta inicial para esta investigação retinha como ponto central o conhecimento das imagens que imigrantes e portugueses têm uns dos outros. Como se viu na Introdução, o termo imagens é impreciso e difuso, permitindo por isso uma pluralidade de abordagens, desde as representações sociais, aos estereótipos, às atitudes, às crenças, etc. Não podendo ser convenientemente tratadas todas estas dimensões no inquérito, optou-se por equacionar a problemática em termos de estereótipos e de atitudes, de forma a facilitar a comparação com os dados recolhidos na sondagem realizada em 2002 pela mesma equipa (Lages e Policarpo, 2003). E tendo-nos debruçado, no capítulo anterior, sobre as atitudes, prossegui- mos neste uma das intenções da presente investigação estudando os estereótipos.
Diga-se, no entanto, que só a população portuguesa foi inquirida a este respeito. A questão foi retirada do inquérito aos imigrantes de forma a não o sobrecarregar dema- siado. No entanto, as questões colocadas aos portugueses são suficientes para se fazer uma ideia das suas imagens a respeito dos grupos sociais não autóctones, sendo esta dimensão porventura mais importante para os objectivos deste trabalho do que as que resultariam das imagens dos imigrantes relativamente aos portugueses. De resto, a com- paração entre os resultados das sondagens de 2004 e 2002 torna possível o exame de como é que esses estereótipos eventualmente mudaram entretanto.
A primeira parte deste capítulo incide sobre a relação entre imigrantes e trabalho, nela se tentando compreender o que os portugueses pensam a esse respeito. De seguida, olha-se para um conjunto de características positivas atribuídas aos imigrantes. Houve a preocupação de introduzir no inquérito vários aspectos positivos da imigração, no sentido de contrabalançar os aspectos negativos a ela mais frequentemente associados. Neste mesmo ponto, procura-se demonstrar que, embora não descurando o seu carácter essencialmente valorativo, a atribuição de diferentes características positivas pode ser, por si mesma, uma manifes- tação de favoritismo, identificação e valorização de alguns imi- grantes preferencialmente a outros. Com a abordagem às carac- terísticas positivas não se pretende escamotear qualquer tipo de 185 Como referem
McCauley e Stitt (1978: 934, cit. in Joos, 2004: 43-44), “a stereotype trait may be seen as characte- rizing a small percentage of Germans, far less than 100%, and be seen as absolutely less probable in Germans than many other traits; it can still be a stereotype trait, can still be «typical» of Germans if it is seen as relatively more probable in Germans than in others”.
Gráfico 100. Percentagem de portugueses que pensa que os imigrantes têm habilitações a mais para os trabalhos que fazem
Uma vantagem dos inquéritos que envolvem amostras representativas de imigrantes é verificar se a realidade está de acordo com percepções como esta. De facto, o inquérito que lhes foi feito permite fazer o cruzamento do tipo de profissões que os respondentes tinham nos seus países de origem com as que têm em Portugal. Da mesma forma, é possível cruzar a profissão actual com os anos de instrução que tiveram. As estatísticas relativas ao primeiro destes cruzamentos estão sintetizados na Tabela 59.
Tabela 59. Coeficientes de contingência (cc) e τb de Kendall da profissão de origem,
em função da profissão actual, segundo os grupos de imigrantes
Grupos Teste Valor p
Africanos N=209 cc 0,585 0,00 τb 0,173 0,004 Brasileiros N=294 cc 0,515 0,00 τb 0,211 0,00 De Leste N=188 cc 0,423 0,024 τb 0,052 0,418
Por outro lado, a maioria da população considera que os imigrantes recebem menos do que os portugueses pelo mesmo trabalho, um dado particularmente relevante no que se refere aos imigrantes de Leste que são vistos como os mais injustiçados no que concerne aos rendimentos auferidos pelo trabalho que fazem (Gráfico 99)187. Não é, porém, possível estimar a partir da sondagem aos portugueses ou da feita aos imigrantes se esta convicção tem fundo de verdade. Apenas se pode dizer que, em termos médios, os imigrantes brasileiros têm rendimentos mais próximos dos dos portugueses e que os imigrantes africanos são os que menos recebem (cf. cap. 2).
Gráfico 99. Respostas afirmativas à questão ‘os imigrantes ganham menos que os portugueses pelo mesmo trabalho’
Quanto à relação entre as qualificações académicas e o emprego há a referir que aproxi- madamente 2/3 da população portuguesa estão convencidos de os imigrantes de Leste serem sobrequalificados para os trabalhos que fazem (Gráfico 100). Apenas cerca de 15% julga o mesmo acerca de africanos e brasileiros.
187 Diferenças signifi- cativas (p<0,00) (testes Cochran e McNemar).
No que se refere às habilitações académicas, as estatísticas básicas são as que cons- tam da Tabela 60, que mostra haver uma forte correlação entre as duas séries, com a particularidade de que o cc relativos aos imigrantes de Leste é mais elevado do que os dos outros dois grupos. No entanto, para todos eles o τb de Kendall é negativo e para os imigrantes de Leste não é significativo.
Tabela 60. Coeficientes de contingência (cc) e τb de Kendall do grau de instrução
em função da profissão actual segundo os grupos de imigrantes
Grupos Teste Valor p
Africanos N=419 cc 0,423 0,00 τb -0,167 0,00 Brasileiros N=341 cc 0,468 0,00 τb -0,131 0,008 De Leste N=236 cc 0,479 0,00 τb -0,103 0,091
A respeito deles, o fenómeno detectado anteriormente da degradação socioprofissional em Portugal tem a sua correspondência entre o grau de instrução ou formação adquirido e a categoria socioprofissional actual, como se pode ver no Gráfico 102, onde são apre- sentados apenas os graus de ensino a partir dos 13 anos de escolaridade, de forma a simplificar a leitura, dele resultando que poucos dos que frequentaram a universidade ou têm um grau universitário tem uma profissão das três primeiras categorias. Mais preci- samente, apenas 4% têm uma profissão superior, enquanto 12% pertencem aos quadros médios, 4% aos trabalhadores de serviços, 24% são trabalhadores especializados, 48% trabalhadores não especializados e 8% estão desempregados. Esta configuração geral do gráfico, com todas as suas distribuições inclinadas para a direita, concorda essencial- mente com o que se viu a respeito da degradação profissional.
Dela se retira que, no que respeita à correspondência entre a categoria da profissão de origem e a profissão actual, o coeficiente de contingência para os três grupos de imigran- tes é muito elevado e significativo. No entanto, vê-se que ela não é tão perfeita para os imigrantes de Leste como para os outros dois grupos. Aliás, quando olhamos para o τb de Kendall, notamos que deixa de ser significativo para esta população.
Por ser, pois, o grupo cujos indicadores são a priori mais problemáticos e cujo sentido é menos claro, representamo-lo em seguida no Gráfico 101, o qual, embora complexo, mostra, por exemplo, que, das pessoas com profissões superiores nos seus países de origem, apenas 8% as tinham mantido em Portugal, no momento do inquérito. Porém, 3% passaram a quadros médios, 5% a trabalhadores de serviços, 32% a trabalhadores especializados e 53% a trabalhadores não especializados.
Gráfico 101. Profissão no país de origem pela profissão actual entre os imigrantes de Leste
Conclusões semelhantes podem retirar-se das outras categorias. Incluímos aqui apenas os dados referentes a quem tinha no seu país de origem uma profissão que foi categori- zada como quadros intermédios: 9% mantiveram a sua categoria mas 37% passaram a trabalhadores especializados e 49% a trabalhadores não especializados, os restantes 6% estando no desemprego.
E se introduzirmos na comparação um gráfico semelhante a estes que faça o cruzamento entre as mesmas variáveis para os africanos (Gráfico 104) notaremos que a distribuição (aqui apresentada a partir do 9º ano de escolaridade) é ainda mais conforme com uma distribuição normal.
Gráfico 104. Profissão actual por habilitações académicas pela profissão actual entre os imigrantes africanos
Os dados mostram, pois, de forma clara, que uma boa parte dos imigrantes dos países de Leste exercia, antes de emigrar, profissões superiores às que conseguiu ter em Portugal e que a correspondência entre o nível educativo e a profissão exercida deixa de existir quando os imigrantes se inserem no mercado de trabalho português. Algo que, em certa medida, também existe para os outros grupos de imigrantes, pois, em regra, os imigran- tes têm dificuldade em encontrar trabalho de acordo com as suas habilitações, ficando à partida confinados às posições laborais mais baixas.
Estas observações levam a concluir que as percepções dos portugueses a respeito da correspondência entre formação e trabalho dos imigrantes (em particular, no caso dos oriundos da Europa de Leste) está fundada nos factos, embora o seu pormenor seja bastante complexo.
Gráfico 102. Profissão actual por habilitações académicas pela profissão actual entre os imigrantes de Leste
O significado destes factos torna-se ainda mais evidente quando comparamos esta distri- buição com a dos brasileiros e africanos. No que se refere aos primeiros e comparando o gráfico acima com o Gráfico 103, que lhes diz respeito, verificamos que a distribuição dos respondentes pelas categorias socioprofissionais é muito mais normal no sentido estatístico.
Gráfico 103. Profissão actual por habilitações académicas pela profissão actual entre os imigrantes brasileiros
Tabela 61. Percentagens de portugueses que concordam com várias afirmações relativas ao trabalho dos imigrantes
Afirmações Africanos Brasileiros Leste
2002 2004 2002 2004 2002 2004
Trabalham mais do que os
portugueses 27,6 35,1 15,0 26,2 44,6 51,5
Ganham menos que os portugueses pelo mesmo
trabalho 57,3 59,1 45,3 51,7 65,5 65,9
Têm habilitações a mais para
os trabalhos que fazem 12,0 12,0 16,3 16,4 67,4 70,2
No futuro vão ocupar lugares de maior importância que
muitos portugueses 13,2 16,0 16,0 18,5 23,4 28,2
Em geral, a percentagem de pessoas que afirmam que os imigrantes trabalham mais do que os portugueses é maior do que em 2002. E são também mais as que declaram que os imigrantes ganham menos que os portugueses pelo mesmo trabalho, da mesma maneira que aumenta a percentagem de quem pensa que os imigrantes no futuro irão ocupar lugares de maior importância do que muitos portugueses.
Quando analisadas estas tendências relativamente a cada grupo, vê-se que elas se man- têm. Assim, no que se refere aos imigrantes de Leste, a percentagem de portugueses que pensa que eles trabalham mais do que os portugueses aumenta 7 pontos percentuais, sendo mais de metade a considerar que os seus concidadãos são menos trabalhadores do que os imigrantes de Leste. Mas o mesmo é afirmado por mais de 1/3 a respeito dos africanos e por cerca de 1/4 a respeito dos brasileiros. A imagem dos imigrantes, no que respeita ao seu empenho no trabalho, é, pois, claramente positiva, embora a relativa aos imigrantes de Leste suplante a dos dois outros grupos.
Apesar de, nesta sondagem, uma maioria de pessoas afirmar que todos os grupos de imi- grantes ganham menos dos que os portugueses pelo mesmo trabalho, continuam a ser mais os que reconhecem os imigrantes de Leste como os mais prejudicados neste domínio. Embora reconhecendo que os imigrantes de Leste exercem funções laborais abaixo das
suas qualificações e que trabalham mais do que os portugueses, somente 28% dos inqui- ridos pensam que estas pessoas virão a ocupar no futuro lugares de maior importância do que muitos portugueses (Gráfico 105). Como se poderia prever, tendo em conta os resultados já apresentados, esse número é ainda menor para os outros dois principais grupos de imigrantes, o que mostra, mais uma vez, o diferencial de competência que os portugueses construíram acerca dos vários grupos de imigrantes.
Gráfico 105. Respostas afirmativas à pergunta ‘No futuro vão ocupar lugares de maior importância que muitos portugueses’
Comparando estes dados com os obtidos em 2002 (Tabela 61), nota-se um aumento do reconhecimento da situação de discriminação no trabalho a que os imigrantes estão sujeitos.
Tabela 62. Número de características positivas atribuídas por portugueses a portugueses e imigrantes
Africanos Brasileiros Leste-Europeus Portugueses
N % N % N % N % Nenhuma 497 32,3 239 15,5 417 27,1 381 24,8 uma 261 17,0 196 12,7 209 13,6 205 13,3 duas 219 14,2 313 20,3 205 13,3 199 12,9 três 202 13,1 272 17,7 207 13,5 182 11,8 quatro 132 8,6 202 13,1 213 13,8 202 13,2 cinco 99 6,4 158 10,3 173 11,2 179 11,6 seis 129 8,4 159 10,3 115 7,5 191 12,4 Total 1539 100,0 1539 100,0 1539 100,0 1539 100,0
Como se pode deduzir da Tabela 62, 85% dos portugueses atribuem características positivas a brasileiros, os quais constituem o grupo com quem os portugueses mais se identificam. No pólo oposto, com apenas 68%, estão os africanos: metade da amostra indica 1 ou nenhum atributo. Por outro lado, se tivermos apenas em conta a percentagem de pessoas que atribui quatro ou mais características a cada um dos grupos considerados, observamos que os portugueses são os que têm a percentagem mais alta (37%), seguidos dos brasileiros (34%), dos imigrantes de Leste (33%) e, finalmente, dos africanos (23%).
Porque a lista de atributos não é resultante de um trabalho prévio de recolha e confir- mação de caracteres habitualmente conotados com os diferentes grupos sociais conside- rados, a leitura destes resultados deve ser cautelosa, já que algumas destas qualidades podem corresponder a estereótipos culturais (cf. Garcia Marques,
1999) de um ou outro grupo, quer pela positiva, isto é, pela exis- tência do traço, quer pela negativa, ou seja, pela sua ausência. De qualquer modo, na medida em que a questão colocada estava centrada na opinião pessoal – o que permitia detectar os estere- ótipos ou crenças sociais188 –, é de crer que os dados obtidos
188 Para uma introdução à distinção entre estereóti- pos culturais e estereótipos pessoais, introduzida pelo modelo dissociativo (Devine, 1989), ver Garcia Marques (1999).