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6 DISCUSSION

6.2.1 P-T section

Com a chegada do Príncipe Regente português ao Brasil, a situação política, econômica, cultural e educacional começa a sofrer considerável mudança. D. João, fugindo de uma ocupação francesa do território português, instala-se em sua colônia brasileira com a família Real e a Corte. O Brasil transforma-se em Reino Unido e experimenta a abertura de seus portos (1808). Na Europa, já se sente a transformação causada pela Revolução Industrial e, consequentemente, pelo progresso tecnológico, que vão influir diretamente na expansão do sistema capitalista e em uma nova concepção de bens e serviços de consumo. Apesar do ambiente propício às mudanças, a cultura e a educação no Brasil continuarão refletindo os padrões intelectuais e estéticos vigentes na Europa, verificando-se, mais uma vez, enorme distanciamento entre o povo e as “elites”.

O Rio de Janeiro, como sede da Corte Portuguesa, ganharia um impulso significativo nas artes, nas ciências e na educação em geral, com a criação dos primeiros cursos superiores, tais como a Academia Real da Marinha (1808) e a Academia Real Militar (1810), destinados à formação de oficiais e engenheiros civis e militares; os cursos de Cirurgia,

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ABRACALDABRA Uma aventura afeto-cognitiva na relação museu-educação

Anatomia e Medicina (1808/9), que formaria cirurgiões e médicos para a Marinha e o Exército; e os cursos técnicos em áreas como economia, agricultura e indústria. Criaram-se, ainda, a Imprensa Régia, o Banco do Brasil, o Jardim Botânico, a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional e o Museu Real.

Considera-se a criação do Museu Real como o marco oficial do surgimento dos museus no Brasil. O Príncipe Regente, em decreto de 06 de junho de 1818, afirmara:

Querendo propagar os conhecimentos e estudos das ciências naturais no Reino do Brasil, que encerra em si milhares de objetos dignos de conservação e exame (...) Hei por bem que nesta Corte se estabeleça um Museu Real, por onde passem quanto antes os instrumentos, máquinas e gabinetes que existem dispersos por outros lugares ficando tudo a cargo das pessoas que eu para o futuro nomear (TRIGUEIROS, 1953, p.53- 54).

O Museu Real compunha-se das antigas coleções da Casa dos Pássaros e de doações realizadas pelo príncipe D. João – peças de arte, gravuras, objetos de mineralogia, artefatos indígenas – expostos como verdadeiros Gabinetes de Curiosidades, primando pela ausência de qualquer rigor científico, nesse primeiro momento. Em funcionamento até julho de 1892, no prédio que posteriormente foi ocupado pelo Arquivo Nacional, o museu passa por uma reorganização em 1876, lançando, inclusive, uma revista científica. Ainda em 1892, é transferido para o antigo palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista. Em 1946, foi incorporado à Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, como Museu Nacional e, dentre as suas competências, cita-se “participar do ensino em nível superior, divulgar conhecimento por todos os meios ao seu alcance, inclusive exposições públicas, bem como os resultados dos estudos que tiver realizado” (MORO, 1972, p.234).

Apesar de o Museu no Brasil ter surgido com finalidades educativas, podemos verificar que, por herança,

Nossos primeiros museus nasceram como obrigação copiada de museus europeus, sem o menor equacionamento aos nossos anseios. Durante todo o século XIX, vão surgir em várias capitais de províncias os Museus Enciclopédicos, muito mais preocupados na acumulação de coleções e nas pesquisas realizadas por “homens sábios”, do que na comunicação e no diálogo com a população (MORO, 1980, p.4-6).

Nesse caso estavam os Museus de História Natural e Etnográficos, cujas coleções englobam espécimes de História Natural (plantas e animais exóticos), Arqueologia clássica, pré-histórica e histórica, objetos africanos, objetos indígenas, etc. Como exemplo, podemos citar o próprio Museu Real (posteriormente Museu Nacional) no Rio de Janeiro, o Museu Paulista ou Museu do Ipiranga, criado em 1895, em São Paulo, e o Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém do Pará, que data de 1891.

Sobre essas questões, Schwarcz (1993, p.69) explica que, “no país, esses centros cumprirão papéis específicos. Cópia dos modelos europeus, estabelecerão uma prática bastante isolada em relação aos demais estabelecimentos científicos nacionais, dialogando basicamente com os museus europeus e americanos”.

Observa-se também que, ao contrário da Europa, as coleções de natureza arqueológica, no Brasil, vão pertencer a museus científicos, ainda que naquele momento (final do XIX) os museus fossem constituídos por coleções bastante ecléticas, como, por exemplo, o Museu Paulista, “museu especializado em História do Brasil, particularmente de São Paulo, e Etnografia”. E, quanto ao acervo: “coleções de história brasileira e paulista, numismática, arqueologia e etnografia do Brasil” (HOLLANDA, 1958, p.209).

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Quanto ao ensino, nesse período conservam-se as aulas de Latim, Filosofia e Retórica, acrescidas das línguas vivas, o Inglês e o Francês; também as cadeiras de Botânica e Agricultura, devido à preocupação em aclimatar plantas europeias e asiáticas. Com relação às Artes, em 1816, chegava ao Rio de Janeiro a Missão Artística Francesa, chefiada por Joaquim Le Breton e, em 1820, era criada a Academia de Desenho e Pintura. Dois anos antes, em 1818, surgia a cadeira de Música.

Em Vila Rica, aparecem as cadeiras de Desenho e História, apesar de que, “nos primórdios do século XIX, na Província de Minas Gerais, a existência de colégios era raridade”, segundo Andrade (2000), que explica:

Por colégio estamos entendendo a instituição em seu sentido europeu (francês), tal qual se configurava no Brasil do século passado: uma instituição que recruta alunos em determinados segmentos sociais, fornece um tipo particular de ensino centrado nas humanidades clássicas, preparando-se eventualmente para a academia. (p.71)

Como podemos verificar, os avanços educacionais e culturais implementados no período continuavam reforçando o distanciamento existente entre as elites e o povo, cujas concepções artísticas e culturais vão se desenvolver com certa autonomia, e se tornar elemento fundamental nas diferenciações regionais brasileiras.

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CAPÍTULO 4

Surgimento da História como tema de