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Bergson lança mão de uma dualidade cognitiva para nos fazer entrar na dimensão do espírito: a percepção e a memória.

A percepção seria um processo quantitativo que envolveria a capacidade de captação dos órgãos sensoriais, no entanto ela, por si só, não explica a forma como o mundo se apresenta aos nossos olhos, com sua continuidade e sentido. A memória, de outro modo, é o que nos permite enxergar as coisas na sua multiplicidade dimensional. Importa saber que elas não apenas apresentam seus atributos espaciais. O tempo nelas colado as faz portadoras de uma história que as singulariza diante de nossa consciência. Nelas há as marcas do passado e o esmaecimento das cores apontando o seu devir.

A percepção seria assim um atributo atrelado à matéria, e a memória ao espírito, este transcendente àquela. É fácil perceber que a vida que pulsa na mente não parece corresponder, em relação perfeitamente biunívoca, à extensão que a matéria concede para a manifestação dos pensamentos. Em verdade, esta oferece mais resistência que fluidez e, constantemente, nos vemos cheios de ideais e imagens que os nossos órgãos efetores não dão conta de deixar passar. Conclusão: a dimensão do espírito é de fato existente, cuja noção se nos apresenta como evidência numa ordem transcendente.

De forma análoga, Bergson irá encontrar outros atributos espirituais forjados pela evolução dos seres para a sobrevivência no universo. O fio de pensamento do filósofo busca não menosprezar os caminhos de nenhuma das duas partes, a material e a espiritual, como se vinha costumando fazer ao declarar a supremacia das leis determinantes da mecânica clássica (PERNOT, 2015). Essa filosofia neoespiritualista vai percorrendo caminhos que evidenciam o idílio constante destes dois elementos como o meio mais plausível de explicar as surpresas que encontramos na história das espécies. A teoria explicativa da seleção natural darwiniana, protagonizada pelo acaso, não sustentava toda a originalidade criadora que se encontrava disseminada por todas as partes. Um élan vital, um impulso criador parecia ser mais coerente

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com as explosões de ramificações da árvore evolutiva do que o simples deixar acontecer de interações indivíduo-ambiente acidentais o seria.

Nesse contexto, surgem as dissertações sobre o instinto e a inteligência, presentes mais entre os animais o primeiro, e entre os homens o segundo. O instinto, como se poderia averiguar em detalhes entre os insetos, cuja formação corporal e social dão exemplos de perfeição, representa a máxima resposta que a matéria poderia conter para as adversidades do meio a fim de permitir a sobrevivência.

[No curso da evolução] surgiram seres cuja atividade girava infinitamente no mesmo círculo, cujos órgãos eram instrumentos completos em vez de dar ensejo a uma invenção incessantemente renovada de instrumentos, cuja consciência deslizava no sonambulismo do instinto em vez de aprumar-se e intensificar-se em pensamento refletido. (BERGSON, 1978, p. 173)

Suas soluções são exatas e fruto de uma organização evolutiva cuja sublimidade deixa entrever uma originalidade fundante prévia. Não é apenas um outro tipo de conformação de elementos previamente existente, mas, por assim dizer, uma novidade. Todavia, o inseto não gera novas formas ou mecanismos de respostas. Ele é, ao cabo de mil anos, o que sua espécie sempre foi. Já o homem é um ser cuja conformação material o deixa aquém de muitos seres que se lhe avizinham na natureza. Entretanto, ao lado do instinto, brilha a chama de inteligência que é quase o seu contrário: as respostas para a sobrevivência não estão contidas na própria matéria, mas dela o espírito pode dispor a fim de criar as soluções necessárias. Assim, se lá eram imanentes no instinto, aqui as respostas para os desafios da sobrevivência transcendem a matéria corporal humana, cuja capacidade de instrumentação da natureza os faz cocriadores em escala menor semelhantes ao grande processo universal.

A inteligência, apesar dessa excelência, é uma faculdade seletiva, subordinada à praticidade cotidiana. Tende a instrumentalizar o meio, dele aproveitando o que mais servirá ao propósito do triunfo da espécie. Essa seletividade, contudo, que também se manifesta na atividade da memória, cujos mecanismos mais elaborados conduzem-nos ao esquecimento das inutilidades imediatas mais do que às lembranças de tudo, torna a inteligência uma faculdade incapaz de apreender a duração das coisas, que seria da ordem da verdade do ser. Extremamente útil para a ciência, permitindo lidar no ponto ótimo com tudo aquilo que se pode espacializar, é uma pedra de tropeço para a filosofia que busca atingir as noções metafísicas. Bergson entende que este foi sempre o grande erro da filosofia. A inteligência pode ser um bom ponto de partida, mas estava longe de ser o método último de apreensão da

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essência das coisas. Utilizar o positivismo científico, imprimir a conceitualização no discurso filosófico foi o maior contributo para cada vez mais perder o objeto de estudo que, movente por natureza, não se permite ser cristalizado pelos conceitos e pela geometrização sem se deformar.

Uma faculdade do espírito humano, todavia, possuiria a mobilidade necessária para captar a fluidez, a hetorogeneidade, a qualidade da duração: a intuição. Bergson a entendia como a síntese entre o instinto, pois era imanente ao veículo corporal, e a inteligência, já que ao mesmo tempo transcendia a matéria com a capacidade de criação de respostas. Através da intuição, em um só golpe de vista poder-se-ia ter acesso à verdade das coisas, algo que transcendia o conceito, um movimento criador do espírito que o fazia vibrar na mesma frequência das realidades mais quintessenciadas, ao mesmo tempo em que era um construto evolutivo imanente ao homem. Seria como uma transcendência na imanência. Não se tratava verdadeiramente de uma ascese espiritual, pois o mapa astronômico antigo que falava de um mundo sublunar, continente da matéria reflexo imperfeito das ideias, não fazia mais sentido na vastidão de um universo que se abrira ao infinito com a acurácia das tecnologias de observação espacial que, por exemplo, haviam tido o poder de deslocar a Terra de seu portentoso centro universal. Era antes uma lucidez, o conhecimento que o filósofo Spinoza chamara de sub especie aeternitatis, o ponto de vista daquele que se coloca na eternidade, ou melhor, na duração. Foi a negligência do uso dessa faculdade humana que provocara o intricado labirinto de conceitos em que as inteligências se perdem ao tentar acessar os assuntos da metafísica. Contudo, como traduzir as visões da intuição em mensagem compreensível para as pessoas?

Bergson falava sobre os erros da linguagem para a confusão das noções filosóficas, pois toda tradução corre o risco de corromper o original, ainda mais a tradução de uma realidade movente. Qual elemento da comunicabilidade humana poderia ter a grandeza pela qual se poderia exprimir o que parecia inefável? A arte de uma forma geral, a poesia de uma forma particular.