Partindo de uma perspectiva cultural, organizativa e social, referindo-se a estudos realizados particularmente pela comunidade científica brasileira, foi possível identificar algumas pesquisas que orientaram, à luz do confronto com a literatura internacional, a hipótese da presente pesquisa. Os estudos foram identificados a partir de uma exploração na “Revista Brasileira de Educação Especial” e no “Banco de Teses da CAPES”, especificamente aqueles publicados entre 2004 e 2012.
O primeiro estudo identificado que mais correspondia à temática da presente pesquisa foi realizado por Pereira (2007), que discutiu sobre a problemática das vagas reservadas no contexto das universidades públicas brasileiras, as quais são seletivas, mesmo se gratuitas. Segundo o autor, as vagas reservadas respondem aos direitos das pessoas com deficiência, mas isto não é suficiente para garantir a sua permanência e sucesso na Universidade.
Mesmo com tais iniciativas, Lamonica et al (2008) dedicou-se a identificar, descrever e mapear as barreiras físicas de um campus universitário e conclui que as intervenções realizadas contribuíram para a melhoria da acessibilidade das pessoas com deficiência no campus, favorecendo a utilização dos recursos existentes no espaço público.
Ao que se refere à organização pedagógica, Guarinello et al (2008) teve como objetivo principal discutir e explicitar as questões relacionadas ao trabalho dos intérpretes de Língua de Sinais nas instituições universitárias. A autora destaca que o cenário da educação das pessoas com deficiência auditiva não é ainda visto com grande atenção por parte das autoridades. Em qualquer modo, a contribuição do estudo é importante porque é um estímulo às reflexões sobre as problemáticas relacionadas ao intérprete LIS na Universidade.
Morejón (2005) investigou sobre as problemáticas inerentes ao acesso e à acessibilidade das pessoas com deficiência nas Universidades públicas brasileiras. O autor coloca em evidência a disposição das provas de vestibular adaptados e descreve as facilitações e as dificuldades encontradas durante o curso de graduação, além dos recursos disponíveis nas instituições.
A pesquisa de Siqueira e Santana (2010) teve como objetivo o de conhecer e descrever as ações contempladas pelo “Projeto Incluir/MEC-Acessibilidade na Educação Superior”. Segundo os autores, as ações propostas demonstram que a inclusão das pessoas com deficiência na Universidade refere-se a tudo aquilo relacionado com as ações quotidianas e as intervenções devem ser voltadas às atitudes, às políticas de inclusão e também à aquisição dos produtos de tecnologia assistiva.
Ruivo (2010) examina as políticas institucionais de acessibilidade voltadas às pessoas com deficiência na Universidade e a sua incidência sobre a cidadania desta população. A pesquisadora conclui que a proposta da Universidade investigada possui diretivas gerais que não estão em linha de continuidade com a política relacionada à acessibilidade física, pedagógica, etc.
Guerreiro (2011) dedicou-se a elaborar um instrumento que consente medir a satisfação e as atitudes das pessoas com deficiência em relação à acessibilidade na universidade e sustenta principalmente que o nível de satisfação depende da tipologia da deficiência.
Ao discutir e analisar o processo de inclusão de um aluno com deficiência, ao que se refere à acessibilidade curricular e física, envolvendo na pesquisa professores, os colegas de classe, o tutor acadêmico, o coordenador do curso e o diretor, Melo (2011) colocou em evidência as estratégias existentes, indicando a necessidade de aprimorá-las e reforçá-las.
Castro (2011) identificou as ações e as iniciativas de algumas universidades públicas brasileiras relacionadas ao acesso, à permanência, às barreiras e os facilitadores. A autora categoriza as barreiras encontradas em arquitetônicas, comunicacionais, pedagógicas e atitudinais.
Especificamente ao que se refere o mundo do trabalho, Tanaka e Manzini (2005) buscaram conhecer as perspectivas dos empregadores sobre as pessoas com deficiência. Segundo os autores, os empregadores declaram de ter assumido as pessoas com deficiência principalmente para responder às normativas nacionais. Foram encontradas algumas dificuldades que se referem: a) por parte da pessoa com deficiência – a falta de formação adequada, de interesse e de profissionalismo; b) por parte da empresa – condições inadequadas do ambiente físico e social; falta de conhecimento sobre a deficiência; c) por parte das instituições especiais – programas de formação profissional e social inadequados: falta de contato com as empresas a fim de conhecer as suas necessidades; d) por parte do governo – ao promover o acesso na escola e no transporte; falta de estímulos voltados às empresas a fim de promover as adequações dos espaços e de propor programas de responsabilidade social.
Pereira e Passerino (2012) buscaram identificar o perfil dos empregados com deficiência em uma grande empresa. Monteiro et al (2011), por outro lado, tiveram como objetivo investigar a existência das empresas que atuavam na perspectiva da Responsabilidade Social Empresarial (SER), particularmente sobre a contribuição colocada à disposição ao funcionário com deficiência; sobre a dificuldade ao assumir e ao consentir a permanência das pessoas com deficiência no mundo do trabalho; na formação profissional proposta pela empresa. Os autores concluem que, mesmo não havendo conhecimento sobre o modelo de SER, as empresas são responsáveis de algumas práticas voltadas à inclusão.
Buscando identificar evidências científicas e práticas inerentes à temática referida anteriormente, notamos, a partir do estado da arte apresentado, que no Brasil, assim como em vários países, a problemática sobre a orientação acadêmica e profissional dos alunos universitários com deficiência precisa ser ainda mais investigada. Considerando-se o caráter empírico, social e cultural da presente pesquisa e a experiência pessoal e profissional do seu próprio autor, foi tido oportuno partir de uma descrição organizativa das universidades brasileiras. Isto porque se acredita que, ao colocar em confronto o seu próprio contexto de origem com as práticas colocadas em prática nos outros países, será possível refletir sobre sua própria realidade.
Com base na descrição do sistema universitário e do mundo do trabalho brasileiro e, à luz daquilo que a comunidade mostra nas pesquisas realizadas em território nacional, pudemos fazer referência, entre outras, às reflexões de Souza (2010). Ao analisar o Programa Nacional de Acessibilidade na Universidade (INCLUIR) como expressão das políticas de acesso e permanência de pessoas com deficiência na Universidade, a autora destaca a discrepância entre o que é declarado nos documentos oficiais e aquilo que vem colocado em prática, considerado ainda insuficiente para garantir a qualidade do acesso e permanência dos sujeitos com deficiência na universidade.
Guimarães (2011) indica também que, mesmo com os esforços, as universidades desenvolvem ações restritas e desconectadas do mais amplo contexto socioeconômico.
Tais evidências levaram-nos a uma reflexão empírica cultural e social e, à luz da literatura científica, foi evidenciada a necessidade de saber como desenvolver, implementar e monitorar um programa de orientação acadêmica e profissional aos alunos universitários com deficiência. Nesta direção, o objetivo principal da presente pesquisa foi aquele de:
Identificar as boas práticas de algumas universidades italianas, francesas, inglesas, irlandesas e dinamarquesas voltadas à promoção acadêmica e profissional dos alunos com deficiência.
A fim de alcançar tal objetivo, o presente estudo teve como objetivos específicos, respeitando-se cada contexto:
a) Identificar as diretivas políticas relacionadas à inclusão na universidade e no mundo do trabalho; b) Observar, em condição de full immersion, os contextos universitários;
c) Identificar as expectativas dos estudantes universitários com deficiência em relação à sua formação e futuro emprego;
d) Desenvolver e implementar estratégias de sensibilização do território e empregadores em modo a criar e reforçar as colaborações do contexto socioeconômico com as Universidades;
e) Elaborar um quadro de indicadores operativos para a implementação e monitoramento de programas de orientação acadêmica e profissional dos alunos universitários com deficiência.
SEGUNDA PARTE