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2.3 P RESSENS SAMFUNNSOPPDRAG
De volta a Picos, Ozildo Albano foi nomeado, através da Portaria nº 235/74, da Secretaria de Educação do Estado do Piauí, a título precário, para prestar serviços especializados na Unidade Escolar Marcos Parente, no período de 01 de maio de 1974 a 30 de abril de 1975, ficando responsável pelas aulas de Estudos Sociais, em 08 (oito) turmas, perfazendo um total de 30 aulas semanais.
Mesmo tendo sido contratado para lecionar a disciplina de Estudos Sociais, na época, não se negou em lecionar outras disciplinas. Ele também gostava das disciplinas Língua Portuguesa e Educação Moral e Cívica, onde se sentia à vontade para levar conteúdos críticos para serem debatidos com os alunos, em sala de aula. Conforme a ex-aluna Teixeira (2016, p.436-437),
Eu fui aluna do Ozildo Albano nos anos de 1970. Eu fui aluna de História e de Educação Moral e Cívica com ele, no Colégio Estadual Marcos Parente, no turno noturno. Fora essas duas disciplinas, ele lecionava português também. [...] Fui aluna dele os três anos. [...] Aprendi como aluna e aprendi como amiga com o educador Ozildo Albano. Ele fora da sala de aula era uma cultura ambulante. Ficou a cultura dele, dos ensinamentos dele. [...] Então, esse espírito de pesquisar, de gostar da história, foi Ozildo Albano quem despertou em mim, sem dúvida. Ele era tão apaixonado pela cultura que
envolvia a gente e quem tinha tendência para aquele lado, foi o que aconteceu comigo. Formei-me em História e o culpado foi ele.
Ozildo Albano influenciou muitos alunos a seguirem o magistério por várias razões, dentre elas, a maneira como conduzia os conteúdos das disciplinas que lecionava. Percebe-se que não se tratava apenas de um professor que instruía segundo o currículo da época, mas favorecia a ponte de contato com outros saberes que serviriam no alicerce educacional dos alunos.
Considerado uma cultura ambulante, entendia que o conhecimento era algo que deveria ser compartilhado, procurou envolver seus alunos no processo de ensino-aprendizagem e, ao fazer isso, despertou neles o desejo de aprender e também de ensinar.
Quando assumiu o cargo de Chefe do Departamento Municipal de Cultura de Picos, em 1983, dispunha dos dados das manifestações culturais locais e da macrorregião. Nas palavras da ex-aluna Teixeira (2016, p.437),
O que mais chamava a minha atenção no educador Ozildo Albano era aquela preocupação que ele tinha de preservar a cultura e de pesquisar para poder melhor informar. Contanto que ele foi Secretário de Cultura e, neste período aí, foi um período rico, deu até origem à Casa da Cultura. Ele tinha essa preocupação de procurar fazer com que a juventude nunca esquecesse as suas raízes. Daí, ele resgatar o reisado, resgatar o São Gonçalo, a leseira, os leilões, as cantorias de violeiros, as festas religiosas, comidas típicas, festival de quadrilhas, tudo isto.
A busca pela preservação da cor local, através do mergulho nas pesquisas de campo sobre as danças populares que eram praticadas em Picos fez com que, por muitas décadas, fossem executadas em eventos culturais.
O capital cultural que Ozildo Albano era detentor foi adquirido através dos livros e das relações sociais. Por ter sido leitor iniciado, conseguiu, apesar das dificuldades da época em relação à aquisição de livros, formar uma biblioteca particular expressiva que serviu não apenas na sua auto-formação, mas, sobretudo, na dos leitores locais.
Nas escolas por onde passou, incentivou a prática da leitura, indicando a leitura dos clássicos da literatura brasileira e da literatura estrangeira. Devido a isso, deixou nos alunos o gosto pela leitura e dizia que a melhor maneira de se conhecer um povo era lendo a sua literatura. Nas palavras de Fontes (2017, p.399-400),
O que ficou de Ozildo em mim foi o gosto pela leitura, o gosto pela cultura, o gosto pelo conhecimento geral. [...] Ozildo gostava de mandar o aluno ler.Ler autores conhecidos como o José de Alencar. O primeiro livro que eu li foi “O tronco do Ipê” de José de Alencar. Inclusive, era do Ozildo Albano este livro. Tudo ele emprestava. [...] o que Ozildo mandava ler, podia ler tudo. O importante era ler. [...] Outra coisa, os alunos respeitavam muito o Ozildo Albano. E era mais pelo grau de cultura que ele tinha. O índice cultural de Ozildo chamava a atenção de todos e como ele transmitia aquilo. Viam que ele não queria aquilo para ele, uma propriedade exclusiva dele. Viam que, para ele, aquilo era importante na medida em que ele transmitia. [...] Naquele tempo, para a sociedade picoense, Ozildo Albano era um intelectual. [...] Ele tinha um respaldo muito grande.
O ensino da literatura através do contato direto com a obra literária promove a formação real do leitor. Os alunos não registraram que fragmentos de livros fossem levados para sala de aula como estratégia de provocação de leitura, mas a própria obra literária. Essa metodologia de ensino tornou-se possível, pelo visto, porque Ozildo era o detentor dos livros e os fazia circular em sala de aula.
Esse tipo de prática educativa, mostrava o quanto Ozildo Albano não queria o conhecimento só para ele. Ao contrário, percebia-se que aquilo que ele possuía só era importante na medida em que disponibilizava e transmitia os seus conhecimentos.
A multiplicidade de autores e obras fazia com que a formação dos alunos se tornasse mais ampla e dinâmica, mas isso se relacionava diretamente com a própria formação de Ozildo. Nas palavras de Borges (2016, p.457),
Dentre os livros que influenciaram Ozildo Albano na sua formação intelectual, encontra-se o Vitor Hugo, René Descartes, Cícero, o Rui Barbosa. Ozildo sabia de ponta a ponta. Ele gostava de Machado de Assis, [...] da literatura francesa, francamente eu não sabia como ele conseguia tanto livro. [...] Alexandre Dumas, “O Conde de Monte Cristo”, “Os miseráveis”, que era o livro da cabeceira dele, “Os três mosqueteiros”. Todo livro da literatura francesa, romance, filosofia, ele tinha tudo.
A promoção da educação literária dos alunos tornou-se possível em virtude da formação literária do professor Ozildo.
O garimpeiro de memórias tornou-se uma referência na cidade, em diferentes áreas do saber e isso lhe oportunizou o contato direto com um leque multifacetado de pessoas. A forma simples de se relacionar com a diversidade humana também o ajudou no cotidiano da sala de aula. Segundo Moura (2016, p.468),
Ozildo Albano tinha muito conhecimento. É tanto que ele recebia vários cognomes. Era biblioteca ambulante, baluarte da cultura, garimpeiro da memória de Picos, enciclopédia ambulante. Então, como Ozildo Albano era uma pessoa de muito conhecimento, ele não queria ficar só pra si, ele queria expandir o conhecimento. Ele tinha o pedagogo dentro dele. [...] Ozildo Albano apesar de ser uma pessoa muito simples, simples demais, distinto na maneira de falar, era o comportamento dele, todos respeitavam a sabedoria que existia nele. Ozildo Albano era uma referência, o que ele falava em termos de história, ele tinha um domínio muito grande da língua portuguesa, do latim, da literatura, Ozildo tinha este domínio. Então, ele era o mestre, passou a ser considerado como mestre. Todas as atividades sociais se voltavam para Ozildo Albano. Toda dúvida que se tinha, diziam: - Vamos procurar ao mestre Ozildo. Daí, ele passou a ser professor no Marcos Parente, ocupou as cadeiras de Educação Moral e Cívica, OSPB e, depois, passou a trabalhar com o ensino médio que, na época, era o científico, que passou a funcionar onde funcionava a Escola Normal Oficial de Picos, na Rua Santo Antônio. Ozildo Albano tirava dúvidas, dava aulas, palestras para quem procurava. Quando tinha uma representação política, quem ia receber? Quem era que fazia o discurso? Era Ozildo Albano. Ele tinha esse dom, ele era um filósofo também.
Profissional comprometido com as regras das escolas em que atuou, o professor Ozildo Albano cumpriu com regularidade a agenda horária escolar, como se infere da fala da ex-aluna Sinval (2016, p.428):
Ozildo Albano era responsável. Era daquele professor que entrava na sala de aula na hora que batia a campainha. Naquele tempo tinha a campainha. Ele levantava para dar a aula e só saia na hora que a campainha tocava. Eu trabalhei com Ozildo na mesma Unidade Escolar. Trabalhei com Ozildo quando eu fui superintendente, uma chefia que eu tinha. Ele nunca me deu trabalho, pelo contrário, quando chegava o momento cívico, eu dizia: - Ozildo, vamos? Ele estava pronto pra ajudar. Ajudou demais. Quando fui superintendente, era um dos professores que mais me ajudou na educação.
A percepção da ex-aluna em torno do educador residiu em dois aspectos: na forma como administrava o tempo escolar, da entrada à saída e na disponibilidade em ajudar, nas atividades cívicas da escola.
Em 01 de maio de 1975, o contrato de trabalho de Ozildo Albano foi renovado através de uma nova Portaria nº 02646/75, oriunda do gabinete do Secretário de Educação do Estado do Piauí, o Sr. Benjamin Soares de Carvalho, para prestar serviço como professor na Unidade Escolar Complexo Escolar de Picos, ficando responsável pelas aulas de Estudos Sociais em 05 (cinco) turmas, perfazendo um total de 20 aulas semanais.
Sua prática educativa em sala de aula - marcada pela abordagem dialógica, em que o aluno não era visto como o que deve apenas ouvir, mas também como aquele que tem algo para dizer -, tornava o ambiente escolar mais democrático e conseguia prender a atenção dos aprendizes. Quando fazia isso, não precisava utilizar de rigidez, somente com a palavra certa direcionava os seus ensinamentos e sem precisar utilizar muito recurso didático. Para a ex-aluna Sinval (2016, p.430),
O material didático que Ozildo Albano usava era o giz e a esponja. Quando ele precisava de um mapa pra fazer alguma amostragem, ele cansou de ir lá na Superintendência procurar mapas. Daí, quando se procurava não tinha, tudo rasgado. Não se tinha meios como se tem hoje. Mundica era a desenhista que fazia as coisas das escolas, porque nós não tínhamos. Mas, mesmo assim, ele dava as aulas dele. Era um tipo de aula que os alunos não reclamavam. Ele motivava só com as palavras e contextualizava. [...] Ozildo Albano não era rígido em sala de aula. Ele era um tipo de professor democrático. Ele conseguia prender a turma sem rigidez, sem reclamar, tudo ele fazia. Ele conseguia mobilizar a turma toda, todo mundo sentado, somente com palavras.
A carência de material didático revelada pela professora apresenta um problema da realidade escolar de então. Ao falar do professor Ozildo, desenhou um pouco da forma como os sistemas de ensino eram tratados pelos governos.
Como atuava na área dos Estudos Sociais, necessário o uso de mapas, globos e outros recursos facilitadores da aprendizagem mas, conforme pontuou Sinval (2016), não havia na Superintendência em que estava lotado tais recursos.
Abordando sobre o uso dos recursos didáticos, a ex-aluna Teixeira (2016, p.437-438) informou que:
Naquele tempo, recursos audiovisuais e didáticos eram muito carentes. Nas bibliotecas existiam poucos livros. Mas, mesmo assim, ele sabia usar muito bem o quadro de giz. Ele fazia trabalho de equipe, que não era um seminário, mas já dava pra gente ir começando a treinar. Ele gostava de fazer trabalho de pesquisa e a gente relatava o que era pesquisado. [...] Ozildo Albano não era muito rígido em sala de aula. Não havia necessidade. Ele era uma pessoa tão meiga que ele era respeitado pelo que ele era mesmo, como se apresentava. Agora, isto não queria dizer que ele ia dar notinha, não. [...] ele ensinava bem e exigia que aprendessem. Poucos recursos didáticos à disposição do professorado e poucos livros nas bibliotecas eram o desenho do modelo de escolas que se tinha no Piauí. O quadro de giz e o apagador tornavam-se praticamente os únicos instrumentos de uso cotidiano dos docentes. Isso requeria, como ainda requer, um desdobramento maior
dos professores para se fazerem entender e despertarem, no aluno, o interesse pela aprendizagem.
Para dinamizar o cotidiano escolar, realizava com os alunos atividades em grupo. No leque das atividades, adotava a pesquisa de temas voltados aos conteúdos da disciplina. Essa prática educativa procurava o direcionamento crítico dos alunos ao tema estudado, além de favorecer o circuito de autores em sala de aula, uma vez que as atividades de pesquisa oportunizavam o contato dos alunos com livros diversos.
Estabeleceu um sistema de avaliação em que prevaleciam as provas dissertativas. Com esse tipo de prática avaliativa, o aluno teria que estudar mais e, consequentemente, iria aprender os conteúdos na mesma proporção. Nas palavras do ex-aluno Fontes (2017, p.399),
As provas do Ozildo Albano eram para responder, todas subjetivas. Ele passava questões para o aluno desenvolver. Ele fazia perguntas para dar respostas. Eu não achava as provas dele fáceis. Ozildo fazia o aluno pensar. E isso me serviu porque foi o meu gosto pela filosofia, viu. Ozildo botava o aluno para refletir e isso foi importante. Com isso, o aluno se descobria. Quando a pessoa reflete, descobre qualquer coisa. Às vezes, não é muito, é pouco. Mas, com o tempo, aquilo ia se ampliando. Ozildo botava o aluno para refletir. Eu via a cultura do Ozildo muito além daquele tempo. O tipo de avaliação adotado pelo professor Ozildo Albano fazia com que o aprendiz se esforçasse em estudar mais para obter êxito e isso requeria mais envolvimento no processo ensino-aprendizagem. Essa prática educativa abria ao aluno espaço de se construir diariamente, a partir da reflexão.
Após apresentação das práticas educativas de Ozildo Albano nas escolas em que trabalhou, deve-se indagar sobre como atuou na imprensa picoense, dando a ela caráter educativo, fato que se evidenciou na sua atuação no Jornal Flâmula, periódico que circulou em Picos.