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Segundo Malinowski (1978) o objetivo básico da pesquisa etnográfica de campo é mostrar nítida e claramente a constituição social, isolando leis e regularidades dos fenômenos naturais, do que for irrelevante. O estudo é feito

através de perguntas em situações reais e/ou hipotéticas, na intenção de proporcionar aos nativos a oportunidade de discorrer sobre o tema proposto. Além disso, devemos observar o comportamento das pessoas na intenção de descobrir o “comentário” de determinado assunto contido na mente do pesquisado.

Malinowski (1978) em sua descrição etnográfica buscou interpretar povos distantes. Seus estudos foram capazes de descrever a vivência da/na pesquisa. Assim como Malinowski (1978), o antropólogo norte-americano Clifford Geertz (1989) priorizou o uso da “prática da etnografia” em seus estudos culturais. Ele avançou em um ponto importante, esclarecendo que a etnografia não deve ser utilizada apenas para “estabelecer relações, selecionar informações, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário.” Ela deve ser definida como um “esforço intelectual”, visando uma “descrição densa” da realidade pesquisada (GEERTZ, 1989, p. 4). Segundo este autor “fazer a etnografia é como tentar ler um mosaico estranho”, (GEERTZ, 1989, p. 7).

Apesar de situar como marco histórico o trabalho destes dois antropólogos, as pesquisas etnográficas não pararam no tempo e muitos outros pesquisadores continuaram trabalhando e aprimorando o conceito. Recentemente podemos citar autores como: Hammersley e Atkinson (1994), Brandão (1995, 2006), André (2008, 1995, 1997), Moreira e Caleffe (2006) e Angrosino (2009) que buscam formas, técnicas e enfoques específicos para se trabalhar a etnografia em diferentes abordagens e áreas do conhecimento.

O educador Angrosino (2009, p. 30) destaca que “a etnografia é a arte e a ciência de desvendar um grupo humano – suas instituições, seus comportamentos interpessoais, suas produções materiais e suas crenças.” Ela requer, portanto, uma pesquisa minuciosa da vida cotidiana de um grupo ou de uma comunidade. Segundo o autor, isto envolve a experiência do pesquisador, que é ao mesmo tempo um “participante subjetivo” e um “observador objetivo.”

Segundo Angrosino (2009) a etnografia pode ser adotada tanto como método quanto como produto de pesquisa. O método etnográfico requer pesquisa

de campo, longo período de tempo (variando de semanas, meses ou até anos). Ele é personalizado (o pesquisador é participante/observador), é multifatorial (utiliza técnicas diferenciadas de pesquisa). É indutivo (descrição/explicação) e é dialógico (busca analisar as informações com os informantes), assim como holístico (visão do todo), (ANGROSINO, 2009, p. 31). Como produto, a etnografia “é uma narrativa sobre a comunidade em estudo que evoca a experiência vivida daquela comunidade e que convida o leitor para um vicário encontro com as pessoas”, (ANGROSINO, 2009, p. 34).

Se utilizarmos a etnografia como “produto”, algumas questões se fazem necessárias: como fazer falar sobre si um saber que se construiu, em termos de seu objeto e de sua metodologia, em um discurso sobre o outro? Ou, como fazê-los dizer algo diretamente sobre eles mesmos?

Para o antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira (1998) o ato de olhar, ouvir e escrever é essencial em uma pesquisa que envolve descrição e “apreensão”. Sendo necessária uma articulação entre a vivência e a experiência. Assim, não basta unicamente estar presente, é necessário entender os gestos, os significados e sentidos dos sujeitos e dos lugares pesquisados. Devemos, portanto, nos atentar aos detalhes mínimos, observar fatos pormenores e estar o tempo todo atentos aos acontecimentos que nos cercam.

Brandão (1995, 2006) aponta em suas obras exemplos bastante interessantes de como a pesquisa etnográfica pode ser aplicada. Neste caso, o autor utiliza quatro grandes pilares que norteiam a pesquisa, denominados como: as práticas do fazer, as éticas do agir, as lógicas do pensar e o universo simbólico. Estas fases constituem a essência da pesquisa.

Para este autor, as práticas do fazer estão alicerçadas nos saberes populares e na vida cotidiana da comunidade, ligada a alguma prática concreta, como a construção de uma casa, envolvendo, portanto, a descrição dos atores, das cenas e dos cenários da pesquisa. As éticas do agir referem-se aos conjuntos de regras e códigos do comportamento individual e/ou coletivo que regem a vida comunitária. São as regras, gramáticas e códigos sociais específicos no e com o

ambiente pesquisado. As lógicas diferenciadas do pensar remetem a construção de sistemas de sentidos e significados do teor identitário e suas representações sociais. São formas próprias de pensar e agir perante o outro. Já o universo simbólico abarca a maneira como o indivíduo vê e se coloca no mundo em sua esfera mais ampla e densa, como na Religião.

Em nossa pesquisa tomamos como referencia esses quatro pilares tratados por Brandão (1995, 2006), por entendermos que eles se aproximam das pesquisas relacionadas à Geografia Humana, sendo adequadamente utilizado nos estudos culturais. Apesar de uma variedade de outros autores que trabalham com esta temática, tomamos os estudos dos autores aqui apresentados como sendo os principais aportes teóricos e metodológicos para o desenvolvimento das pesquisas etnográficas e com os quais nos aproximamos e dialogaremos mais intensamente.

Neste caso recorremos a etnografia por oferecer um universo bastante diversificado de possibilidades de análises. Obviamente, com o passar dos anos as pesquisas vem se tornado cada vez mais condensadas e com curto espaço de tempo para a sua realização. Por este motivo não propomos realizar uma experiência semelhante à que viveram Malinowski, Geertz e muitos outros antropólogos em termos temporais, mas sim, apresentar a utilização de técnicas e instrumentos associados à etnografia para demonstrar que ela pode ser utilizada através de outros meios, e ainda assim pode fornecer uma compreensão aguda sobre os fatos sociais dispostos e atuando no e sobre espaço geográfico.

Sabemos, porém, que esta pesquisa deve ser utilizada com cautela, por requerer do pesquisador um olhar minucioso do ambiente e dos fatos pesquisados. A etnografia entrelaça a percepção, a observação e as considerações críticas sobre o “que” e “quem” se pesquisa. Além disto, o pesquisador necessita de tempo, condições e disposição suficientes para planejar e organizar suas informações, procurando utilizá-las de forma criativa e instigante. Este processo exige uma “descrição densa”, Geertz (1989) o mais detalhada possível, que perpassa pelo que Malinowski (1978) denominou de esqueleto, carne e sangue e o

espírito da pesquisa. Ou, como prefere Brandão (1995, 2006): as práticas do fazer, as éticas do agir, as lógicas do pensar e o universo simbólico.

Apesar dos inúmeros caminhos, um intenso trabalho de campo é sem dúvida a maior vantagem de uma pesquisa etnográfica. De acordo com a realidade estudada cada pesquisador pode escolher livremente os seus instrumentos de pesquisa que devem ser os mais variados possíveis: observação participante, entrevistas livres e/ou semi-estruturadas, levantamento de dados primários, questionários, diário de campo, mapas mentais, croquis, fotografias, descrição, etc. Salientamos que todos esses recursos foram empregados em nossa pesquisa, sejam eles utilizados em conjunto ou separadamente, a depender da necessidade.

Para além dos recursos oferecidos pela Etnografia, sentimos a necessidade de incorporar elementos que geografizem a pesquisa. O olhar e as reflexões devem ser processados a partir do espaço geográfico, pensado a partir das categorias de análise que sustentam nosso estudo. Uma atenção as análises da paisagem, do lugar, do território, das identidades e das territorialidades.

Portanto, apresentamos a seguir os caminhos de pesquisa que busca enlaçar os procedimentos etnográficos com olhar geográfico, tendo como eixo norteador o pesquisador participando ativamente do ambiente pesquisado, a Geoetnografia.