Iniciamos nosso dia na Ilha do Pacuí. Ela fica localizada bem em frente à comunidade de Barra do Pacuí. A ilha possui cerca de 12 hectares e é utilizada pelos moradores da comunidade para plantio e moradia sazonal. Alguns construíram pequenos barracos apenas para guardar a produção. Todas as pessoas que plantam moram na Barra do Pacuí. A primeira com quem conversamos foi o senhor Antônio Conceição, de 74 anos, que já estava na roça juntamente com a sua esposa Nica, seu neto e mais dois ajudantes colhendo o feijão. Enquanto alguns rancavam, outros carregavam os pés de feijão para o terreiro onde ele é batido e ensacado, (foto 08).
Foto 08: Trabalhadores carregando o feijão, Ilha do Pacuí/MG. Eles utilizam uma espécie de rede improvisada que facilita o transporte “da roça até o terreiro”, local onde o feijão é espalhado para secar e depois ser “batido, soprado e ensacado”.
O senhor Antônio, muito receptivo, procurou um lugar para sentarmos. Ele justificou a falta de estrutura dizendo que o barraco foi construído recentemente apenas para guardar a colheita, “um ranchinho para guardar as coisas”. A cozinha é improvisada do lado de fora, na sombra de um mamoeiro, com uma pequena trempe onde tinha uma panela com feijão cozinhando para o almoço do dia.
Ele, prestativo e atencioso, nos contou que foi um dos primeiros moradores a chegar à Barra do Pacuí. Por ser um dos pioneiros, tivemos a oportunidade de perguntar muitos fatos importantes sobre sua vida:
Como era a ilha antigamente? Ela foi crescendo e a gente sempre
plantando. Quando ela começou eu fui um dos primeiros a começar a trabalhar aqui. Eu ainda era rapazinho novo. Hoje eu já tou com 74 anos e trabalhando aqui. Como é dividido a terra aqui? Não é quem vai chegando pode plantar porque cada um já tem seu dono né. As vezes tem pessoas que ajeita com outros ai. Já tem deles ai até que já até vendeu. Só não pode é passar documento nenhum. Mas vendeu aquela coisa de trabalho deles né, passou pra outro. Quantas pessoas estão plantando
na ilha? Tem muito moça. Oh! esta ilha minha era muito grande. Eu
quando como eu fui um dos primeiros eu tirei um pedaço muito grande. Agora eu já tenho meus filhos. Aqui só dos meninos meus tem três que planta. Já é um pedaço separado que eu tirei pra eles né. Pra mim dá conta das pessoas tudo é um tempinho porque tem muita gente. O senhor
planta tudo aqui? Planta. A gente planta. O que tem? Tem milho,
bananeira, feijão, abobora. Tudo produz bem? Até que dá.
Ele nos contou que ficam na ilha durante o dia e, à noite retornam para a casa localizada na comunidade de Barra do Pacuí. Como ele afirmou que não mora na ilha, perguntamos por que ele construiu um pequeno barraco.
Todos moram na Barra? É. Todo mundo morando lá. Eu moro mesmo é
lá. Porque o senhor fez o rancho aqui? Aqui precisa. Porque a gente trabalha... A gente não dá conta de todo dia bater, soprar e carregar. Então a gente faz por isso. É o silo? É. Então a gente todo dia bate e vai pondo ai. Como é o trabalho? Tem vez que vem gente da família. Mas tem vez que tem que pagar. As vezes quando é uma pessoa particular que não é da família a gente tem que pagar. Mas uma ilhazinha desta aqui pra nós é uma benção.
Assim ele explicou as estratégias utilizadas para o plantio e para a colheita do feijão. Outro fator interessante na conversa com o senhor Antônio foi quando
ele nos contou sobre a formação da comunidade de Barra do Pacuí, sobre sua vida e suas dificuldades morando perto do rio.
Tem muito tempo que está na ilha? Já, já tem uns 50 anos. Veio de onde? Eu sou nascido aqui mesmo na Barra. Eu e aquele compadre meu
João Bento. Nós somos os dois primeiros filhos dai. Somos nascido aí e criado aí mesmo na Barra. Nós dois somos os mais velhos. Os pais da Barra né? Somos nos dois os daí da barra os mais velhos, por enquanto somos nós dois. Eu mais ele somos primo e compadre. Nós somos os dois que compraram aí. A gente pesca, trabalha. Quantos anos o senhor
tem? 74. Eu sou do dia 1 de abril. E ele é do dia, prece que 27 de julho.
Somos tudo de uma era só. Como era aqui antigamente? Ah meus pais e meus avós que compraram uma gleba de terra aí e chegaram. Ai não tinha nada era tudo mata. Inclusive nós, eu e compadre João, que já nascemos aí. Ali era silêncio. Só tinha umas casinhas assim pingadas no meio do mato. Era pra ir de uma casa pra outra era assim nos caminho mesmo. Ai foi crescendo, foi rendendo. E hoje já tem mais gente. Agora já melhorou. A vista do que nós encontramos já melhorou muito. Depois a pouco tempo aí veio a rede que dai melhorou mais. Dai pra cá esta sempre melhorando mais. Melhorando a estrada. Que antigamente não tinha estrada pra nada. Oh! nesse tempo da gente aí não tinha estrada. Só andava a cavalo e na canoa. O rio era a estrada? Era, o rio era a estrada. Não tinha estrada. Inclusive, o compadre João, ele levou um acidente. Ele ainda era rapaz, rapaz novo, levou um acidente ai. Foi derrubar uma roça e um pau caiu em cima dele, e só tinha uma fazenda aqui lá na água branca que de vez em quanto o dono vinha aí de jipe, e daqui desse lado aí de Ibiaí também não tinha estrada não. Mandamos lá e não demos sorte que ele não podia vim. Então nós ficamos aí sem saber o que fazer. Aí eu dei a idéia. Oh! É o seguinte: tem que apelar pro tudo ou nada, ou escapar ou morrer, porque a única solução que tem é nos por ele na canoa e levar lá em Pirapora. Em Pirapora de canoa? Era a única solução, porque em Ibiaí não tinha nada, era igual aqui nós. Aqui pra baixo não tinha jeito, São Romão era longe também. Quer dizer que em Pirapora, contudo, a gente tinha mais conhecimento e São Romão não tinha. Nós colocamos ele aqui na canoa era dez horas da noite e ele já ruim. E ele só gemendo. Caiu um pau em cima dele. Se ele ficasse aqui morria, porque não tinha jeito, não urinava, não fazia nada. Colocamos ele aqui na canoa, nós saiu daqui era dez horas da noite. Nós sentemos o remo. Dez horas do outro dia nós batemos o bico da canoa lá em Pirapora. E ele já esta nas últimas e ainda escapou viu. Hoje tá bem graças a Deus. Mas foi uma animação dessa, de tudo ou nada. Se deixasse aqui morria. Não tinha solução pra nada.
Perguntamos também da sua relação com o Rio São Francisco e do convívio com os ciclos da natureza.
Como é a vida na beira do São Francisco? Graças a Deus a vida aqui
no São Francisco é até boa porque pelo menos pra gente que já acostumou graças a deus nunca passei precisão. Uma coisa que eu nunca passei foi fome. Mas é porque a gente luta muito. O rio mesmo ele dá, ele ajuda, mas ele dá muito prejuízo também. Tem muita época que você planta aquela lavorona o trem tá bonito com pouco ele chega e come tudo. Só que quando baixa também você pode plantar que também sai bom. Mas ele também dá muito prejuízo. Ele come mesmo. Nestes 50 anos a ilha foi
inundada? Foi. Ela era deste tamanho, depois ela acabou. Quando foi?
Esta época que esta ilha começou. Em 49 foi na época que mais ou menos esta ilha tava inundada. Eu tava com 12 anos eu ainda não trabalhava aqui não. Eu comecei a plantar eu tinha uns 17 anos. Ela era baixinha. Desta época pra cá ela foi só crescendo. Antes de 49 ela quebrou tudo. Em 49 ela tava zerada. Ela tava no fundo nesta época. Começou uma croinha com uma lama ai eu comecei a plantar. Era só melancia. Desta época pra cá não acabou mais não. A enchente vinha, ela ia só alteando. Em 79 ficou um mar d´água aqui 3 meses debaixo d´água. Mudou alguma coisa
com a barragem de Três Marias? O problema que antes da barragem a
enchente era mandada por deus. Agora a enchente é mandada pelos homens. Tem vez que baixa aí é pior porque a barragem. O que é mais
fácil entrar em acordo: com Deus ou com os homens? Ah! moça com
Deus. Porque Deus vê as necessidades da gente. Os homens não, a coisa pra eles tando boa acho que eles não olha bem pra todo mundo. Olha pra uns, mas não olha pra outros. E Deus olha pra todo mundo.
Pela fala do senhor Antônio, percebemos o quanto é inconstante o ciclo das águas, influenciando diretamente na formação e dissolução das ilhas. Este foi um dos raros depoimentos que colhemos contando sobre o fim de uma ilha e a sua posterior formação, evidenciando a força da natureza, o poder das águas, na criação ou não destes ambientes, bem como uma aguçada percepção das transformações ocorridas no rio, já que na opinião dele: era mais fácil se entender com Deus, no sentido mais próximo a um ciclo natural do rio, que o morador entendia com mais facilidade, do que com os homens, que subordinaram os ciclos do rio aos seus interesses utilitários e perversos, cuja lógica escapa à compreensão do morador.
Seguimos nosso percurso, passamos no distrito de Cachoeira do
Manteiga, vinculado a cidade de Buritizeiro39. Ruas sem calçamento. Algumas
praças. Movimentação de pessoas e carros. Ritmo lento. Subimos o barranco.
Debaixo de um sol escaldante, caminhamos pelas ruas de terra avermelhada. Encontramos poucas pessoas circulando pelo povoado.
Conversamos com o senhor Ângelo, um guia de folia que nos contou a origem do nome do povoado “tinha uma cachoeira aqui, bem de frente, umas pedras que eles quebraram, em 74. É porque o vapor afundou aí, bateu num bico de pedra. Só depois de muitos anos é que veio essa firma e quebrou as pedras”. Ele nos contou que esse era um lugar de parada obrigatória dos antigos vapores.
A figura 08 retrata o distrito de Cachoeira do Manteiga, situada no barranco do rio, em sua margem esquerda, tendo a cidade de Ponto Chique como o local mais próximo.
Adiante avistamos ainda pequenas ilhas como a Ilha do Paracatu; pequena, desabitada e sem nenhum plantio e a Ilha do Pau Ferro; muito pequena e apenas com vegetação natural.
No fim da tarde paramos na foz do Rio Paracatu onde passamos a noite acampados.
Figura 08: Croqui do distrito de Cachoeira do Manteiga, próximo a cidade de Ponto Chique. Fonte: Acervo do grupo de pesquisa Opará, Jun. 2011.