Comecemos pelos homens primitivos e arcaicos, desde os caçadores nômades até os agricultores estabilizados, fixados em uma terra que lhes possibilite subsistência. Para os nômades a terra não tinha a mesma significação religiosa que para os agricultores, pois sua relação imediata era como a vida animal, a qual lhes possibilitava sobrevivência. Tirar a vida do animal tinha um significado sagrado, por isso uma série de rituais envolvia o momento da alimentação. Esses rituais não perderam sua validade ao longo da história, o homem o manteve, mas sem a mesma significação do homem arcaico.
Para o homem que descobre a agricultura, a terra terá uma significação sagrada, a fonte da vida. Será a terra que emana leite e mel, como descrito em Êxodo 33:3. A peregrinação judaica foi acima de tudo uma busca pela terra santa, uma terra prometida por Deus, portanto sacralizada. Segundo Eliade (2010, p. 121), a terra e a mulher são constantemente relacionadas nas sociedades arcaicas, ambas sendo fonte de vida. A Terra Mãe revela uma autossuficiência para gerar a vida. Um exemplo dado pelo autor é a deusa mediterrânea Gea que teria, segundo a mitologia, parido Uranos sem a interferência de nenhum outro deus. Entre os homens nômades e os caçadores subsistia a relação com o sagrado. Nas palavras de Eliade (2010, p. 22)
uma sociedade pré-agrícola, especializada na caça, não podia sentir da mesma maneira, nem com a mesma intensidade, a sacralidade da Terra-Mãe. Há, portanto, uma diferença de experiência religiosa que se explica pelas diferenças de economia, cultura e organização social – numa palavra pela história. Contudo, entre os caçadores nômades e os agricultores sedentários, há uma similitude de comportamento que nos parece infinitamente mais importante do que suas diferenças: tanto uns quanto os outros vivem num Cosmos sacralizado; uns como os outros participam de uma sacralidade cósmica, que se manifesta tanto no mundo animal quanto no mundo vegetal. (Itálicos do autor)
É notável que o homem arcaico vive em um mundo totalmente sacralizado. Veremos mais adiante que as transformações sociais, em especial a científica e econômicas ao longo da
história mudaram o modo do homem se relacionar com o cosmos. Eliade distingue dois “homens” ao longo da relação histórica do ser humano com a religião: o homem religioso pré- moderno, das sociedades primitivas e arcaicas e o homem moderno a-religioso ou profano, que, embora herdeiro do anterior, esvazia as crenças da sociedade que o antecedera provocando, para ele, uma dessacralização do cosmos. Passos (2006) fala também do homem religioso pós- moderno, seria o homem atual, que provoca uma ressacralização do mundo. Veremos que esse movimento não é tão linear e homogêneo como se apresenta à primeira vista.
O que caracteriza, então, o homem religioso pré-moderno, que coincide com o homem religioso das sociedades primitivas e arcaicas9, segundo Eliade? O princípio fundamental desse homem religioso é a crença de que o mundo é uma criação dos deuses, ele só existe porque foi criado pelos deuses. Segundo Eliade (2010, p. 135), a existência do mundo para essa sociedade religiosa já significa algo para além dele, ou seja, “a própria existência do Mundo ‘quer dizer’ alguma coisa, que o Mundo não é mudo nem opaco [...] para o homem religioso o cosmos ‘vive’ e ‘fala’”. Não é de se estranhar que para a sociedade pré-moderna a manifestação dos deuses aconteça por meio de uma árvore, de uma pedra, de um animal: a terra é sagrada, os deuses têm forma animal (Anúbis tinha a forma de um cão, no Egito antigo, por exemplo), as árvores tem poderes sobrenaturais (é o caso da Yggdrasil, árvore que representa o centro do universo na antiga mitologia nórdica). Todo o cosmo, tudo que existe, é, de alguma maneira, santificado, sagrado, na medida que é uma criação dos deuses e pode manifestar a vontade destes. O cosmos existe como forma de manifestação dos deuses na natureza.
Para Eliade (2010, p. 135) o homem, num determinado momento cultural, acaba por assimilar-se ao todo cosmológico, ele mesmo se compreende como uma criação dos deuses, “ele encontra em si a santidade que reconhece no cosmos”. Tudo na vida do homem religioso tem uma representação sagrada ou pode santificar-se. Para ele, a existência é aberta para além da vida natural, a vida humana é apenas uma parte da vida cósmica, da vida sagrada, que revela a existência por excelência, o absoluto sem fim. Isso significa que viver é, para ele, uma existência duplicada: “desenrola-se como existência humana e, ao mesmo tempo, participa de uma vida transumana, a do Cosmos ou dos deuses” (ELIADE, 2010, p.137). Segundo o autor, é possível que num passado longínquo todos os órgão e comportamentos humanos correspondessem a um significado religioso.
9 Chamamos de sociedade primitiva aquela anterior ao desenvolvimento da agricultura na qual o homem ainda era
nômade. Enquanto a arcaica estende-se do surgimento da agricultura até por volta do final da idade média, conforme pode-se depreender de Eliade (2010, p. 22).
O homem religioso10 é aberto às experiências espirituais e tudo que o cerca tem caráter sobrenatural. Poderíamos dar inúmeros exemplos: o sexo como fonte de vida (“sede fecundo e multiplicai”, uma ordem divina, em Gênesis 1:28), o casamento e seus ritos nas mais diferentes culturas, a casa e o corpo como morada dos espíritos e representação do centro cosmológico. Em suma, a vida desse homem religioso é terminantemente aberta e explicada por via da sacralização do mundo.
Este homem é um ser que vive ativamente uma existência ao mesmo tempo humana por natureza e santificada por consagração, pois seu mundo é simultaneamente natural e hierofanizado ou hierofanizável. É interessante notar que o próprio modo “científico” de enxergar a vida era religioso, era centralizador. O próprio Ptolomeu compreendia a Terra como o centro do universo. A influência religiosa que aí se encerra é exemplar: a terra é o Cosmos, todo o resto é o caos.
Para Eliade (2010), o homem religioso responde ao mundo de acordo com o que acredita ser a realidade que o cerca, ele não é um homem passivo, mas responsivo11. Ele próprio procura
sacralizar aquilo que considera manifestação dos deuses. No Judaísmo e no Cristianismo, por exemplo, temos o caso de Jacó que ao deitar e apoiar a cabeça sobre uma pedra que fizera de travesseiro, sonhou que havia ali uma escada que se erguia até o Céu e viu anjos andando de um lado para outro e Deus falando que aquele lugar seria a morada de seu povo. Jacó acorda e põe a pedra em pé e chama aquela terra de Betel, a morada de Deus e de seu povo, pois ali estava a porta do céu12.
O papel central da vida agrícola (desprovida de conhecimento técnico científico) é fundamental para crença em um mundo enigmático e mágico, explicado pela via religiosa, sem a necessidade de uma lógica humana. Basta o entendimento de que algo de sobrenatural rege o cosmos para aceitar aquilo que não se conhece como uma possibilidade sempre aberta de acontecer e buscar a sacralização do mundo. Mas a ascensão da ciência e sua aceitação como forma legítima de explicação dos fenômenos naturais, aliada ao desenvolvimento industrial levaram a uma forma diferenciada de encarar a vida, causando o que Eliade chama de dessacralização da vida ou desencantamento do mundo, nas palavras de Max Weber.
10 Esta é uma nomenclatura utilizada por Eliade (2010).
11 O termo “responsivo” não foi cunhado por Eliade, mas por Bakhtin, e indica aquele que responde e é responsável
por sua resposta. No entanto, como Eliade afirma que o homem religioso responde a realidade que o cerca, acreditamos oportuno o uso do termo.