Este trabalho, segundo a abordagem, pode ser classificado como qualitativo. De acordo com Minayo (1995, p.21-22),
a pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado, ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.
No nosso caso, trabalhamos com um fenômeno imensurável, a autoria, que não se presta a uma observação quantitativa, devendo ser investigado na sua relação com o contexto que o envolve assim como com os participantes que o integram (GODOY, 1995, p. 21).
De acordo com o objetivo, trata-se de uma pesquisa interpretativa de caráter responsivo, pois tem como propósito compreender os fatores que determinam ou contribuem para a ocorrência de um fenômeno. Buscaremos, nesse caso, a compreender fatores que determinam a constituição da autoria na pregação religiosa neopentecostal.
Para sua realização, foram selecionadas pregações religiosas disponíveis no site da ADVEC15. Nesse caso, as fontes de nossos dados podem ser consideradas documentos, pois encontram-se em arquivos digitais dessa instituição religiosa. Esses documentos ainda não haviam passado por um tratamento analítico, estando apenas à disposição dos usuários no site da instituição. Partindo dessas indicações, quanto à obtenção dos dados, este estudo configura- se como uma pesquisa documental, pois esse tipo de pesquisa entende como documento as mais diversas fontes, “sem tratamento analítico, tais como: tabelas estatísticas, jornais, revistas,
15 http://www.advitoriaemcristo.org/siteEdit/site/advec/multimidia-cultos-gravados.cfm. Também podem ser
relatórios, documentos oficiais, cartas, filmes, fotografias, pinturas, tapeçarias, relatórios de empresas, vídeos de programas de televisão, etc.” (FONSECA, 2002, p. 32).
Nosso corpus é composto por cinco pregações, produzidas por um mesmo pastor, com formação em teologia e também em administração empresarial, campos do conhecimento que acabar por deixar marcas linguísticas e discursivas constantes em seu discurso. Após a audição e observação atenta dos dados, foi selecionada uma pregação com duração de uma hora, trinta minutos e um segundo, que corresponde a amostra do que foi observado no conjunto do corpus. Durante esta etapa, percebemos que alguns elementos se destacavam em todas as pregações enunciadas, o que nos levou a identificá-los como elementos constitutivos da arquitetônica da autoria nesse gênero do discurso, tais como a distância, o execedente de visão, a diretriz volitivo-emocional, o acabamento e o centro axiológico; sendo que nossa amostra apresenta dados mais claros que nos levaram a cumprir o intuito de compreender como o autor-pregador se constitui nesse gênero discursivo.
A função do pregador é transmitir a palavra de Deus por meio da pregação, um gênero que tem como materialidade a oralidade. Por esse motivo, marcas comuns à transmissão do discurso de outrem na escrita tais como as aspas, o travessão e, por vezes, até mesmo o verbum dicendi não aparecem na oralidade, mesmo nas variantes do discurso direto. No entanto, estes verbos (os dicendi) são uma das poucas marcas encontradas tanto na escrita quanto na oralidade, mesmo que algumas vezes sejam omitidos na forma oral.
Outro fator importante para a compreensão do movimento autoral nesse gênero é o reconhecimento do contexto imediato no qual ele está inserido. A pregação selecionada foi proferida no final do ano de 2014, mais precisamente na semana anterior ao período natalino do referido ano. Esta data sugere um período de mudança, na passagem de um ano a outro, cuja esperança por novas conquistas e melhoria de vida é sempre renovada, o que determinou, em certa mediada, a temática da pregação em tela: a liberação do potencial oculto no fiel. Este “potencial” serial algo que Deus deu ao crente desde seu nascimento e que após aflorar transformaria a vida deste para melhor. O momento, portanto, torna oportuna a discussão do tema.
Além do período em que foi proferida, cabe esclarecer ainda que a ADVEC divide suas atividades eclesiásticas em cultos temáticos: Culto da Celebração, Escola Dominical, Santa Ceia, Culto da Palavra e Culto da Vitória. Estes cultos são semanais e permanentes. Outras atividades também são desenvolvidas, mas ou são anuais ou mensais.
A pregação que selecionamos faz parte do Culto da Vitória, que é um culto cujos temas buscam orientar os fiéis para obtenção de sucesso na vida material, saúde, finanças etc. Esse é
um fator importante, pois o Culto da Vitória é um exemplo cabal de como os neopentecostais dirigem suas atenções para as necessidades cotidianas do fiel, mas sempre vinculando suas conquistas à concessão divina.
No conjunto de eventos de um culto, a pregação é o ápice, o momento específico de transmissão da palavra de Deus. Em geral, ela é proferida por um pastor com conhecimentos teológicos, como é o caso de nosso corpus.
Alguns eventos a antecederam. Primeiramente, um momento de oração no qual o pastor pede a Deus para derramar bênçãos para os fiéis, pois é Culto da Vitória. Em seguida, uma cantora gospel canta alguns hinos, é o chamado momento de louvor. Na sequência, outro pastor ocupa o púlpito para aconselhar os fiéis que, no período natalino, se preocupem mais em ofertar a Deus que em gastar com os festejos de final de ano, acrescentando que este momento não deve impedir que eles ofertem a Deus o que têm de melhor. Nesse momento, são distribuídos os envelopes nos quais os fiéis contribuem com suas ofertas, ao mesmo tempo em que o instrumental da igreja toca uma música. Após esse evento são lidas mensagens escritas por fiéis nas quais agradecem pelas bênçãos conquistadas. Em seguida, são informados os eventos que acontecerão durante a semana natalina. Após essa sequência de eventos, o pastor que ministra a pregação é convidado a ocupar o púlpito. Assim ele dá início à pregação. Esses elementos constituem a situação imediata da produção do enunciado do autor-pregador e devem ser levados em consideração no momento de nossa análise, pois determinam, em alguma medida, como elementos externos mais imediatos, o que deve ou não ser dito na referida pregação.