Como reportam vários autores, as precárias condições de saneamento nas comunidades indígenas favorecem a alta incidência de infecções gastrintestinais. A elevada concentração de indivíduos no intradomicílio, o sedentarismo, a convivência direta com animais domésticos, aliados à falta de infra-estrutura adequada de abastecimento de água potável e coleta de dejetos, criam um ambiente propício à propagação de enteropatógenos de veiculação hídrica e alimentar, da mesma forma que observamos nas TI´s estudadas. (LINHARES, 1992; COIMBRA Jr. e MELLO, 1981, SANTOS et al. 1991; ESCOBAR e COIMBRA Jr. 1998; COIMBRA Jr. e SANTOS, 2001).
No meio rural, as principais fontes de abastecimento de água são os poços rasos e nascentes, fontes estas susceptíveis à contaminação. No Reino Unido, em estudo realizado em propriedades rurais, após analisar-se amostras de água de fontes privadas, verificou-se que 100% das amostras dos poços e 63% das nascentes estavam fora dos padrões de
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potabilidade, representando um risco considerável a saúde dos consumidores (AMARAL
et al., 2003; FEWTRELL et AL., 1998)
Apesar de haver pouca informação sobre saneamento e incidência de doenças de veiculação hídrica nas comunidades rurais no Brasi, alguns autores relatam que as condições sanitárias podem afetar a saúde da população (WALDMAN et al., 1997; BARCELLOS et al., 1998; SOARES et al., 2002) e trazer, como reflexos, maiores gastos hospitalares. As diarréias representaram 90% das causas dessas internações.
No Brasil, uma realidade comum é o lançamento de esgotos sanitários não tratados, a disposição inadequada de resíduos sólidos nas mediações de cursos d’água ou em locais sem infra-estrutura adequada (LIBÂNIO et al., 2005). Além disso, a correlação entre os indicadores de saúde e a cobertura por serviços de água e esgoto pode ser facilmente visualizada na avaliação do universo dos municípios brasileiros.
É importante destacar algumas características particulares de cada uma das terras estudadas para correlacionar indicadores de qualidade da água e condições sanitárias. Os povos da TI Maxakali, são tradicionalmente seminômades, caçadores e coletores. Atualmente estão relativamente isolados do ponto de vista cultural e linguístico, pertencentes ao tronco Macro-Gê. Seu território histórico estendeu-se além dos Vales do Mucuri e Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais e sul da Bahia, e preservam com grande resistência sua língua e práticas simbólicas, mantendo ativa a sua cultura. Dessa forma qualquer intervenção deve obedecer a seus hábitos culturais.
Já os Xakriabá habitam uma região inserida no semi-árido mineiro, com relevo que apresenta variação altimétrica o que impõe características diversas, clima seco,
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principalmente para o tipo de solo, hidrografia e vegetação presentes. A atual cobertura de sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário convencionais mostra-se ainda insuficiente para o atendimento pleno da população como pode ser observado nos resultados da frequência absoluta e relativa (%) das condições sanitárias segundo positividade para E. coli e coliformes totais em 210 domicílios da Terra Indígena Xakriabá. Houve uma associação das moradias de pau-a-pique com resultados de análises de água positivos para E. coli (p<0,001). Nas casas que tinham piso de terra, 72% tinham amostras da água de consumo positivas para E. coli (p=0,059)
Em um trabalho realizado por Masters et al., 2011, também com amostras ambientais, os números de E. coli na água coletadas durante a estação seca foram menores do que aqueles encontrado durante a estação chuvosa, uma vez que chuvas intensas transportam elevado número de bactérias de várias fontes pontuais e não pontuais (O'SHEA E FIELD, 1992). Apesar do clima seco na maior parte do ano na TI Xakriabá, os resultados de frequencia de E.coli 62 (24,9%) e Coliformes totais 192 (77,1%) para essa TI foram significativos quando comparado às outras terras.
Pena (2004) informa que, antes do início das atividades da FUNASA na terra indígena Xakriabá, apenas onze aldeias e seis sub-aldeias possuíam sistemas de abastecimento de água. Este cenário mostra que houve um incremento de 76,23% no número de domicílios atendidos pela FUNASA em 2003, no período de três anos, seja através de água canalizada até o quintal, até o banheiro ou dentro de casa, bem como por meio de chafarizes.
Não é somente a qualidade, mas também a quantidade de água utilizada para o consumo doméstico que causa impacto na saúde do ser humano. Esrey e Habicht (1986) referenciam
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estudos com o intuito de quantificar o efeito do abastecimento de água e do esgotamento sanitário sobre a saúde e indicam, que a quantidade de água é frequentemente mais importante do que a qualidade, particularmente em ambientes fortemente contaminados como o das populações indígenas estudadas no presente trabalho, para melhorar as condições de saúde. Heller (1997) em uma ampla revisão da literatura, focando a relação entre saneamento e saúde, concluiu que os estudos existentes permitem atestar a melhoria dos indicadores de saúde pública em função de intervenções em abastecimento de água e esgotamento sanitário.
Barcellos et al., 2006 demonstrou que a educação sanitária independe da escolaridade. Isso determina que a educação em saúde deveria ser desenvolvida nas escolas, para que as pessoas aprendam medidas sanitárias e preventivas, no entanto esta questão deve ser cautelosamente avaliada em se tratando das populações indígenas. Faz-se necessário investigar e considerar cada uma das TI estudadas no presente trabalho – Xakriabá, Pataxó e Maxakali separadamente, a fim de compreender as variações existentes entre esses povos e sua dinâmica populacional.