A bactéria Escherichia coli tem sido estudada em diversas áreas, no entanto, seu estudo em amostras ambientais com abordagem dos fatores de virulência ainda é escasso (MÜHLDORFE et al.1996; GUTH, 2000; VALENTINI et al., 1992; FREEDMAN et al., 1998). Segundo a Organização Mundial de Saúde, a água deve ser examinada com frequência e regularidade, uma vez que a poluição intermitente pode não ser detectada em exames realizados em amostra única ou com número insuficiente (CHALMERS et al., 2000).
Os resultados da frequência de positividade geral para E. coli em meio de cultura ColiBlue® nas terras indígenas de Minas Gerais, 2011 evidenciaram que de 381 domicílios amostrados 175 (46,1%) foram positivos para E. coli (p<0,001) e 314 (82,4%) foram positivos para coliformes totais (p<0,002), indicando que houve significância entre as terras, sendo maior na TI Maxakali e menor na Xakriabá, ressaltando que nas três as condições de qualidade microbiológica da água eram igualmente precárias. A TI Maxakali apresentou maior positividade para E. coli (84,7%) enquanto Pataxó apresentou maior positividade para coliformes totais (93,1%).
A contaminação fecal é tradicionalmente monitorada usando bactérias de indicação fecal (FIB – Fecal Indicator Bacteria) características de fezes de humanos e de animais (E. coli,
enteroccocos e Coliformes totais). A concentração desses microorganismos é comumente usada para avaliação de riscos associados a diferentes vias de exposição, como por
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exemplo, água de uso recreacional ou água usada para o consumo, água de beber (MATTIOLI et al., 2014). A presença de E. coli no ambiente indica contaminação fecal, enquanto as outras bactérias do grupo coliforme podem ser originárias do meio intestinal, do solo ou até de vegetais. Ressalta-se que a presença de um coliforme na água que não a bactéria E. coli sempre deixará dúvida sobre o caráter fecal ou não da poluição (APHA, 1992).
Estudos realizados na República do Yemen (METWALI, 2003) em águas provenientes de poços artesianos demostraram um índice de contaminação por coliformes termotolerantes (E. coli) de 65%, ou seja, semelhante ao encontrado no presente estudo. Estes dados chamam a atenção para a necessidade de monitoramento da qualidade microbiológica da água consumida por tais populações, uma vez que a presença de coliformes totais é uma indicação de contaminação por E. coli. Neste trabalho 63,8% das amostras de águas tratadas e 67,4% de não tratadas que apresentaram coliformes totais também estavam contaminados por E. coli.
O risco de ocorrência de surtos de doenças de veiculação hídrica no meio rural, assim como em populações indígenas é elevado, principalmente em função da possibilidade de contaminação bacteriana de águas captadas em poços antigos, vedados de forma inadequada e próximos de fontes de contaminação como fossas e áreas de pastagem ocupadas por animais (AMARAL et al., 2003). O uso de água subterrânea contaminada, não tratada foi responsável por 44% dos surtos de doenças de veiculação hídrica nos Estados Unidos entre 1981 e 1988 (CRAUN, 1991).
Diversos fatores socioeconômicos podem estar associados com o risco de doença e mortalidade por diarreia. Escobar et al., 2015 relataram que a educação materna e
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condições socioeconômicas mantiveram-se estatisticamente significativa no modelo multivariavel. Este mesmo trabalho demostrou uma associação significativa inversa entre a ocorrência de diarreia e idade materna, indicando um efeito protetor a partir da idade de quarenta anos (Escobar et al., 2015)
Oliveira (2008) em um trabalho realizado na zona rural de Formiga (MG) em águas de 34 fontes alternativas, 68% das amostras apresentaram-se contaminadas por coliformes totais. Dos 13 poços rasos analisados, 31% apresentaram água potável. Das 13 nascentes analisadas, apenas uma (8%) apresentou água de boa qualidade. Dentre os oito poços profundos analisados, 25% apresentaram contaminação por coliformes totais e fecais.
Em um trabalho realizado no Pará, Canto de Sá et al. (2005) destacam a possibilidade de propagação de inúmeros patógenos (bactérias, vírus, protozoários) entre os moradores do domicílio ou aqueles que o frequentam. Mesmo que a água da torneira chegue à residência em condições adequadas para ser consumida, a manipulação inadequada dos vasilhames, aliada à falta de higiene pessoal, podem significar um fator de risco para a transmissão de doenças, quando essa mesma água é consumida sem tratamento, como ocorre entre as três populações indígenas de Minas Gerais aqui estudadas.
A bactéria E. coli pode ser diferenciada de outros coliformes pela capacidade de produzir indol a partir do triptofano ou pela produção da enzima ß-Dglucuronidase (GUD), uma enzima que hidrolisa a ligação glucuronosil do conjugado glucuronide tais como MUG. Dentre as Enterobacteriaceae, E. coli, algumas cepas de Shigella, Salmonella e Yersinia produzem a enzima capaz de hidrolisar os conjugados glucuronide. Baseado na produção desta enzima, testes para a detecção e enumeração de E. coli foram desenvolvidos (EATON et al., 2005).
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Através da identificação dos microorganismos a E. coli definida através da série bioquímica foi detectada em 34% das amostras ambientais de água de consumo dos domicílios, sendo mais frequente na TI Maxakali (32%). Na TI Xakriabá, 72% dos microorganismos foram identificados como Não-fermentadores.
A correlação entre a frequência de positividade entre E. coli pelo ColiBlue® e Ágar MacConkey indicaram que houve 58,8% de concordância nos testes de amostras de água de consumo realizados com o meio ColiBlue® e a Prova da Lactose. Foram negativas para E. coli 4 (57,1%) amostras que eram positivas para Ágar MacConkey.
De acordo com Silva et al. (2010) os coliformes termotolerantes (coliformes fecais) diferenciam-se dos coliformes totais por fermentarem lactose com produção de gás a uma temperatura de 44,5 +/- 0,2 em 24 horas.
A frequência de amostras de água de consumo positivas na prova da lactose em ágar MacConkey demonstrou diferença significativa entre as terras indígenas. A TI Xakriabá apresentou maior positividade (n=36/ 69%) em Agar MacConkey, seguida da terra indígena Maxakali (n=23/ 52%).
A baixa correlação entre a frequência de positividade entre E. coli pelo ColiBlue e Ágar MacConkey e a frequência de positividade para prova da lactose em ágar MacConkey por terra indígena de Minas Gerais, realizado em 2011 demonstram como os parâmetros bioquímicos não devem ser utilizados isoladamente para o diagnóstico das DEC, como pode ser observado, dados estes que confirmam trabalhos da literatura que indicam a versatilidade das estirpes de E. coli (NATARO et al., 2007).
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