4. BACKGROUND
4.1 P ATTERNS OF CATCHING UP IN THE C HINESE AUTOMOTIVE INDUSTRY
que os índios começaram
a comer tudo que os
portugueses davam.
Obviamente que a relação entre índios e estrangeiros nem sempre era pacífica, a intera- ção foi marcada também por trocas e violência. Um dos mais famosos cronistas quinhentistas, Hans Staden, narra em livro vários costumes dos índios Tupinambás que ocupavam o litoral a par- tir de Cananéia (São Paulo). Tinham como base da alimentação a farinha produzida da mandio- ca amarga, e Hans explica como era o cultivo: “(...) fincavam as mudas da planta de raízes que usam como pão, entre as cepas das árvores. Este vegetal se chama mandioca” (STADEN, 2008, p. 162). Pode-se perceber que esse era, e continua sendo, um ingrediente fundamen- tal e de extrema importância para a identida- de da nossa cozinha. Naquela época, conforme relata Staden, havia três formas de preparar a mandioca. Primeiro, trituravam sobre uma pe- dra as raízes, em pequenos pedaços, extraindo o suco, deste modo obtinha-se uma massa seca, que depois era passada por uma peneira – esse método permanece inalterado em comunidades isoladas no Brasil e a farinha de mandioca, hoje fabricada em larga escala, é consumida de norte à sul. Segundo, colocavam as raízes frescas dentro da água, e deixavam apodrecer, após retiradas da água eram secas na fumaça sobre o fogo. Estas se conservavam por muito tempo e para serem usadas, eram esmagadas e transformadas em
uma farinha branca, que era a matéria prima dos beijús. A terceira forma, também resultava em uma farinha, mas desta vez obtida a partir da mandioca totalmente apodrecida, que depois de torrada era moída.
Preparam também uma sorte de farinha de pei- xe e carne, do seguinte modo: assam a carne, ou o peixe, na fumaça sobre o fogo, deixam-na secar de todo; desfiam-na, torram-na de novo depois, ao fogo, em vasilhas queimadas para tal fim e que chamam inhêpoã; esmagam-na após em um pilão de madeira e passam isto numa peneira, reduzem-na a farinha. Esta se conserva por muito tempo. O uso de salgar peixe e carne, nem conhecem. Comem a tal fa- rinha junto com a mandioca, e isto tem muito bom gosto. (STADEN, 2008, p.163)
A farinha e os beijús constituíam os elemen- tos regulares, obrigatórios, indispensáveis e de maior importância na alimentação indígena. Na alimentação do europeu recém chegado, acom- panhavam todas as coisas, das carnes até as fru- tas. Tudo que era feito com a farinha, mingaus, caldos, bolos, era registrado pelos estrangeiros, que por sua vez aprenderam a ampliar as roças para comer, vender, valorizar e posteriormente, melhorar as “casas de farinha”, fazendo em má- quina de ferro o que anteriormente era feito de maneira frágil e precária, para chegar a exportar para as colônias africanas, nas palavras de Cas-
STADEN, Hans. Duas
viagens ao Brasil. Belo
Horizonte: Ed. Itatiaia, 2008, p. 166 e p.160.
cudo (2011, p.92): “impondo, viciando o negro da orla atlântica do continente negro com a revela- ção da mandioca, farinha, beijú, mingau, pirão”. A farinha tornou-se à camada primitiva, a base fundamental na alimentação brasileira. Posteriormente, na época da catequese pelos jesuítas, o trabalho inicial era justamente de convencimento junto aos índios da dispensabi- lidade da farinha na alimentação, retirar essa identidade alimentar presente em todos os se- res humanos e considerada como a camada mais profunda de identificação de uma cultura, para que o céu não precisasse necessariamen- te conter farinha, tornando-se assim um local agradável.
Conforme os relatos, a maioria das comuni- dades indígenas não comia sal, como é caso dos
SILVA, Oscar Pereira da. Descobrimento do Brasil, 1902. Óleo sobre tela, 330, 190 cm. Museu Paulista.
As espécies comestíveis novas divulgaram-se rapidamente, com facilidade as bananas e os inhames. O gado bovino foi promovido à caça ambicionada. O cavalo determinou, em todo o continente americano, um ciclo de atividades imprevistas. Ovelhas, cabras, carneiros, porcos, trouxeram sabores procurados. Os galináceos não tomaram o lugar da caça de pena, ave dos rios ou lagoas, permanente ou de migração, mas foram estimadíssimos. Martius assombra- va-se da rapidez com que as galinhas haviam atingido o interior das selvas recônditas, alheias a penetração dos brancos. Mas, na forma de costume, o indígena não abate o animal que cria na maloca, o xerimbabo, membro honorário da família. Assim, quase não come galinhas e ovos, mas os vende. (CASCUDO, 2011, p. 146)
O intercâmbio foi realmente significati- vo, tanto os portugueses aprenderam a usar as casta nhas e amendoins nos confeitados pelas suas mulheres, como aprenderam a usar gomas, frutos secos, raízes para substituir a farinha de trigo para as sobremesas lusitanas. Já os indíge- nas aprenderam a usar a cana-de-açúcar, utilizar os óleos vegetais na comida, como nas papas, mingaus e farofas, além de conservar a caça, aprendendo a antiga técnica do confit.
Do mundo indígena também foi absorvida a paçoca, a moqueca e o caruru, todos esses pratos bastante comuns e populares, nativos do século XVI e que foram sendo modifica dos e acrescentados ao nosso paladar. As formi - gas e larvas, tão apreciadas pelos indígenas, deixaram horrorizados os europeus civilizados apreciadores de cogumelos, queijos mofados, carnes pútridas e caracóis. “O mau cheiro para uns é certain fumet para outros”, diz Cascudo, tudo depende dos costumes. Hoje em dia o chef Alex Atala tenta reintroduzir a formiga no cardápio de seu restaurante, mas não tenho notícia se ob- tém sucesso.
h% Técnica francesa de cozimento lento e em baixa temperatura, em gordura, mas sem fritar. Conservação de carnes na própria gordura. hFormiga: MARTINELLI, Pedro. “Catadores de Formigas”. Disponível em: <http://www. pedromartinelli.com. br/blog/? p=5111>. Acesso em: 03 jan. 2012.
Tupinambás por quem Staden foi aprisionado. En- tretanto, as que usavam, como no caso dos Cara- jás (que haviam aprendido com os franceses, com quem mantinham contatos comerciais) obtinham o sal a partir de palmeiras. Curioso é que e desde aquela época já se falava que quem se habituasse e comesse muito sal “não vivia longamente”.
Os primeiros 100 anos que se seguiram ao achamento foram de extermínio das populações indígenas e Fausto apresenta taxas que dão con- ta que apenas uma pequena parte daquela po- pulação inicial existia no país, em 1594 oficiais espanhóis escreviam à Sua Majestade: “los in- dios (Guarani) que servían a esta ciudad están menoscabados, porque no hay nil a décima par- te de los que debería haber, por várias causas y enfermidades, y también por los abusos de los españoles.”
Toda essa falta de mão de obra nativa fa- zia com que as expedições ao interior fossem cada vez mais frequentes e consequentemente expunha as populações indígenas a mais mortes por epidemias e confrontos. Os que conseguiam permanecer na terra eram influenciados cada vez mais pela culinária “branca”, iam gostando das frutas que o português estava semeando e iam vivendo “petiscando” de forma insaciável, de acordo com Câmara Cascudo.
Portanto, esses primeiros 100 anos depois da chegada do europeu foram praticamente um terremoto, as transformações eram incessantes e poderosas na economia nativa.