A proposta para este capítulo foi apresentação dos dados empíricos recolhidos através da aplicação dos questionários por inquérito. A aplicação dos inquéritos tinha como objetivo nos dar acesso a compreensão dos comportamentos (de utilização e relacionados a privacidade), atitudes, preferências, dos consumidores em ambiente de e-commerce bem como acesso a compreensão das suas disposições máximas a pagar por determinado serviço online.
Os dados recolhidos são oriundos de uma amostra de 203 inquiridos, sendo a mesma composta maioritariamente por indivíduos do sexo feminino e por indivíduos com educação superior, pelo menos Bacharelato ou Licenciatura. Este facto é bastante pertinente na medida em que os indivíduos apresentaram em maior ou menor grau alguma literacia relativamente ao Big data e sobre algumas tecnologias inquiridas.
Os dados revelaram que o comportamento dos indivíduos em alguns casos corroborava o que a literatura relevante para as questões tratadas aqui dizia, isto é por exemplo, através dos dados nos foi possível verificar que os indivíduos manifestavam em maior ou menor grau alguma preocupação relacionada com a sua privacidade ou com a forma como a sua informação era tratada.
Pois mais da metade dos indivíduos (71,43%) foi concordante que deveria haver alguma intervenção por parte das entidades públicas de forma a prevenir que existam abusos relacionados ao uso da informação dos indivíduos. Porém esses mesmos respondentes mostram-se pouco proactivos no que diz respeito a tomar medidas que visem a proteção da sua própria informação ou privacidade, pois mesmo quando conscientes acerca dos cookies (76,4%) e das tecnologias de rastreio (68%) apenas 36,9% revelou fazer a eliminação dos mesmos dos seus motores de busca.
Igualmente através dos dados foi possível aferir que os respondentes fazem um uso bastante ativo da internet sendo que mais da metade dos inquiridos 91,13% admitiu utiliza-la todos os dias para vários fins. Bem como a intensidade de uso também foi verificada quer nas redes sociais mais populares, como por exemplo o facebook, whatsapp, instagram, twitter quer em algumas que atualmente são menos populares tais como o snapchat, etc,.
O mesmo padrão repete-se com uso dos motores de busca (com especial destaque para os motores de busca da google) e com os sites de compras online sendo que a intensidade de uso varia de site para site, com o Olx a registrar o maior índice de uso (3,16%).
Outro facto que vem corroborar alguns resultados na literatura prende-se com as disposições a pagar ou as valorações que os indivíduos tendem a fazer da sua informação ou privacidade. De acordo aos quatro cenários expostos foi possível extrair certos padrões, como por exemplo, a maioria dos indivíduos não está disposto a incorrer em custos para proteger a sua privacidade pois, tanto na questão (23) como no primeiro e terceiro cenário o número de indivíduos que estariam dispostos a não pagar pelo serviço em causa foi sempre superior em relação aos que se mostraram predispostos a tal, com percentagens de rejeição correspondentes a 44,3%,45,5% e 53,6%. As exceções surgem nos cenários que expõem vantagens associadas o Big data para a sociedade e no auxílio ao combate do crime, em que cujo as taxas de não adesão ao serviço não chegam nem a metade da amostra (37,7% - 30,8%).
No entanto mesmo quando se mostravam dispostos a pagar pelo serviço para a proteção da sua informação, em geral a valoração era baixa. Nos quatro cenários o valor mais alto escolhido em média por poucos foi correspondente a 5 euros, porém, os escolhidos pela maioria variavam entre 0,5 a 2 euros. Valores inferiores aos que os indivíduos pagariam por um serviço mensal de streaming como a Netflix, por exemplo.
Todos os pontos acima mencionados reforçam aspetos como o paradoxo da privacidade e principalmente sobre as valorações tendencialmente baixas, muito exploradas e documentadas na literatura em questão.
Contudo da análise dos dados também surgiram alguns resultados interessantes, como por exemplo há indícios de que se os indivíduos perceberem que do uso da sua informação emergirem ganhos que beneficiem a sociedade, podem ser mais colaborativos, e menos reticentes em relação a partilha da sua informação
Bem como as reservas apresentadas pelos indivíduos relativamente ao pagamento de serviços para a proteção da sua informação podem dever-se a um certo ceticismo relacionado com a eficácia dos mesmos. Isto é, por um lado alguns respondentes referem-se ao facto de as entidades já fazerem o processamento dos dados dos indivíduos sem o consentimento dos mesmos. Por outro o facto de serviços como estes oferecerem sempre uma possibilidade de serem comprometidos como se tem verificado ao longo dos últimos anos, com várias fugas de informação criadas em alguns casos intencionalmente ora pelas empresas ora por hackers, reforça igualmente esse padrão de resistência a adesão deste tipo de serviço.
Porém os indivíduos reconhecem que um serviço como este seria de grande utilidade, pois ter a possibilidade de poder ter os seus dados apagados, começa a ser considerado como uma condição indispensável para uma utilização segura da internet.
E para finalizar através do questionário foi possível aferir que as questões levantadas relativamente ao Big data e questões afins são do interesse dos indivíduos e talvez devesse haver um maior protagonismo das mesmas no debate público, uma vez que estas questões tendem a situar os indivíduos quanto ao uso dos meios tecnológicos, bem como fazê-los pensar nas suas preferências e na forma como partilham os seus dados, tal como foi referido por alguns indivíduos inquiridos.