Atualmente Santa Catarina possui 293 municípios e conta com uma população de 5.866.487 habitantes, em uma área territorial de 95.346,181 km². Ao nos aproximarmos da formação econômica de Santa Catarina compreendemos que no final do século XIX o estado, por não pertencer ao complexo cafeeiro que mobilizava a economia brasileira no período, se
88 enquadrava nas economias regionais que se organizavam, essencialmente, por dois setores. O primeiro setor era o do extrativismo que, em Santa Catarina, caracterizou-se pela extração da erva-mate, da madeira e do carvão e o setor alimentício através da farinha, do açúcar e derivados de suínos. Destaca-se, ainda, a presença do desenvolvimento da indústria têxtil (GOULARTI FILHO, 2007).
Goularti Filho (2007) ao estudar a origem da mão-de-obra no estado refere-se que só é possível compreender esse processo a partir do desenvolvimento de relações capitalistas de produção, na relação de assalariamento, na produção e apropriação da mais-valia – condição de existência da relação capitalista. No Brasil, a condição da emergência do trabalho assalariado só foi possível com o fim da escravidão e com a expansão do complexo cafeeiro que utilizou do trabalho de imigrantes no cultivo do café. Em Santa Catarina não é possível pensar o mesmo processo, pois o número de escravos não era tão expressivo e seu trabalho estava voltado, na maior parte, no uso doméstico e de utilidade pública – com destaque do uso do trabalho escravo na pesca no auge da pesca da baleia, em torno dos anos 1780.
A formação de uma classe operária no estado é dividida por Goularti Filho (2007) em sete categorias que estão espacialmente distribuídas em seis regiões do estado sendo os mineiros na região sul, os trabalhadores madeireiros no planalto serrano, os balseiros do Rio Uruguai e os trabalhadores alimentícios na região oeste, os tecelões e as costureiras na região do Vale do Rio Itajaí, os ervateiros no planalto norte e, por último, os metalúrgicos nas cidades de Joinville e Jaraguá do Sul.
No litoral sul catarinense verifica-se, no final do século XIX, a presença dispersa de açorianos pescadores que praticavam a agricultura de subsistência e, paralelo à presença de açorianos, verifica-se o desenvolvimento das primeiras minas de carvão e a construção de uma ferrovia, quando houve a chegada dos primeiros imigrantes europeus, muitos deles, italianos. Diferentemente do trabalho de subsistência dos açorianos, os colonos se caracterizavam pela comercialização do excedente da agricultura. Com a necessidade de extração do carvão, a força de trabalho dos açorianos pescadores e imigrantes colonos foram sendo incorporadas pelas mineradoras da região. A exigência da produção do carvão no Brasil, dado à queda da importação após a Segunda Guerra Mundial, criava as condições materiais para o desenvolvimento de uma classe trabalhadora mineira (GOULARTI FILHO, 2007).
89 Na região do Planalto Serrano a figura que marca a força de trabalho é a do caboclo48.
A formação cultural do caboclo se dá no interior das fazendas de Lages, “espaço social” que possibilitou uma relação de compadrio de “interclasse”, o chamado compadrio, de base no estamento e no patrimonialismo. Essa relação sofre transformações a partir das alterações econômicas da região, registrada pela presença da extração da madeira nos anos de 1940, em terras dos fazendeiros.
Estavam dadas as condições materiais para a formação de uma classe operária nos Campos de Lages. A vida das serrarias significou, para o caboclo, uma possibilidade de tornar-se um trabalhador “livre”, com uma remuneração mensal e fixa, longe da precariedade financeira da fazenda, onde as relações eram pouco monetizadas. (GOULARTI FILHO, 2007, p. 114).
Interessante ressaltar que no grupo focal de Lages, uma participante em particular reportou-se a esse tipo de relação que se estabelece ainda fortemente na região, impedindo, explicitamente o acesso aos direitos e o processo de participação social.
Na região oeste de Santa Catarina foi preponderante uma população cabocla posseira dispersa e que se caracterizava pela prática de economia de subsistência, também da caça e da pesca. No entanto, com a chegada das companhias colonizadoras, da ferrovia e dos colonos gaúchos e das madeiras a situação material e social dos caboclos sofreu interferências passando de posseiros para assalariados e desprovidos de terra. Os colonizadores objetivavam a exploração da terra e da madeira, como recursos de acumulação econômica. Essa economia possibilitou as condições materiais para o surgimento do balseiro e do ajudante que transportavam a madeira extraída no oeste pelo Rio Uruguai até a Argentina.49
Na chamada região oeste barriga-verde, localizada ao longo da divisa com o estado do Paraná e na região do Contestado, o cultivo da erva-mate foi responsável pela exploração de duas categorias sociais de trabalhadores de condições sociais e formação ética, eram os colonos europeus e os brasileiros, na figura dos caboclos. Os imigrantes, ou chamados
48O caboclo tinha uma dinâmica de vida voltada a um “tempo natural” e não ao “tempo racional” o que gerava uma estigmatização do caboclo como uma figura de comportamento vadio, violento, atrasado, relaxado, desconfiado, entre outros (GOULARTI FILHO, 2007).
49Referimos que com o esgotamento das florestas a força do trabalho do balseiro foi se extinguindo o que resultou em um grande número de homens e mulheres nas cidades, o que resultou criação de um exército industrial de reserva, sem qualificação profissional, alguns se inseriram em trabalhos da construção civil, outros foram morar junto rio, vivendo da subsistência da pesca e da agricultura, a outros lhes sobraram o subemprego (GOULARTI FILHO, 2007)
90 colonos, foram protagonistas de um processo de exclusão social em relação aos caboclos, pois consideravam estes últimos como uma população “intrusa” e violenta, pois estavam nas terras que no momento passaram a ser ocupadas pelos colonos. “Com a exclusão social promovida pela colonização, os caboclos, que eram conhecedores da mata, tornaram-se mão-de-obra disponível e barata para as „firmas dos gringos‟ (italianos)” (GOULARTI FILHO, 2007, p. 117).
Na região de São Bento do Sul a história registra a construção da ferrovia São Paulo- Rio Grande, no ano de 1908 a 1910, como um fato importante na história de Santa Catarina. O processo de colonização da empresa Brazil Company nas margens da rodovia significou a expulsão dos trabalhadores que haviam sido trazidos pela própria companhia para os trabalhos na região e, que na ocasião, já haviam instalado suas moradias. Neste momento esses trabalhadores se unem aos caboclos sem terra e formam uma irmandade cabocla na luta contra os latifundiários e contra a Lumber, que resultou na Guerra do Contestado. Os combatentes que sobreviveram ao enfrentamento juntaram-se aos caboclos que trabalhavam no cultivo da erva-mate, na extração da madeira e também juntaram-se aos balseiros.
Pequenos proprietários marcaram a configuração econômica no oeste barriga-verde que logo perdem suas propriedades traduzindo um processo de “diferenciação social dentro de um regime de propriedade parcelada. Surge a figura do proprietário abastado, dono dos frigoríficos, e os expropriados começam a formar um exército de reserva” (GOULARTI FILHO, 2007, p. 119).
Goularti Filho (2007) analisa que essa expropriação de pequenos proprietários também ocorreu na região do Vale do Itajaí, no entanto a “diferenciação social” foi marcada pelo uso da mão-de-obra qualificada de imigrantes alemães na indústria têxtil, de proprietários abastados. A população agrícola era considerada força de trabalho não-qualificada. O desenvolvimento da indústria têxtil de Blumenau inicia-se no ano de 1880 e durante o período da Primeira Guerra mundial os têxteis catarinenses se inseriram no mercado carioca e paulista e se evidenciou a ampliação da produção nas seguintes décadas. Na cidade de Brusque verifica-se um primeiro período de predomínio da atividade agrícola, nos anos 1892 a 1930, e pós-1930 marcado pelo desenvolvimento da indústria têxtil que recrutou trabalhadores agrícolas para a atividade têxtil. Nos anos 1970 e 1980 a atividade continuou recrutando
91 trabalhadores, principalmente mulheres, para trabalharem na confecção de vestuário50.
A aproximação com a formação sócio-econômica de Santa Catarina nos faz entender que a formação de uma classe operária no estado é traçada por uma história de exclusão e submissão. Experenciou-se a valorização da figura valente de um homem trabalhador explorado e ocultou-se as reais condições de dominação e exploração da força de trabalho das figuras “invisíveis”, como o caso das mulheres na região sul, esquecidas no trabalho subumano na escolha de carvão. Outros homens e mulheres foram instrumentos de exploração e dominação pela determinação capitalista que se desenvolvia no estado, como foi o caso dos caboclos explorados pelos madeireiros, os caboclos da erva-mate, os balseiros, os trabalhadores e trabalhadoras da indústria têxtil com longas jornadas de trabalho (GOULARTI FILHO, 2007).
4.2 A formação profissional dos assistentes sociais de Santa Catarina: histórico e